sábado, 29 de janeiro de 2011

riqueza: a herança do Barão


Gosto de acreditar que oferecendo esta crônica ajudo a espalhar riqueza, e isto faz a internet melhor... Ao olhar o avesso das coisas com olhos de ver de novo, o gaúcho Apparício Torelly, nascido em 1895, ajuda-nos a perceber quando "há no ar alguma coisa além dos aviões de carreira", como bem diz o Barão. Oferecer o Barão de Itararé é uma homenagem à inteligência dos que aqui caminham. É, também, uma felicidade, já que é o aniversariante do dia. Máximas e Minímas do Barão de Itararé contribuem para resgatar a memória do Barão, um dos precursores do humor político e social. Foi lançado em 1985, pela Editora Record, com textos colhidos, de 1945 a 1955, em publicações de jornais e almanaques. Aqui o MONÓLOGO, de 1955.


      Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher me disse para despejar todas na pia, porque senão...

      - Assim seja! Seja feita a vossa vontade - disse eu, humildemente. E comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa.

      Tirei a rolha da primeira garrafa e despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo, que bebi.
      Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo, que virei.
      Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo, que empinei.
      Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa, que bebi.
      Apanhei a quinta rolha da pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa, por exceção.
      Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha.
      Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da gar­rafa, arrolhei o copo e bebi por exceção.
      Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas, que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito de acordo com as ordens da minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem.
      Segurei, então, a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos, pias, que eram, ao todo, exatamente 39. Para me certificar de que não havia engano, contei tudo outra vez e quando terminei já encontrei um total de 93, o que dá certo, quando as coisas andam de perna para o ar. Como a casa nesse momento passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para controlar minhas contas e recontei todas as casas, copos, rolhas, pias e garrafas, menos aquelas duas, que escondi no banheiro e que eu acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca ...

Nenhum comentário: