domingo, 27 de fevereiro de 2011

acerto com o tempo

Quando vi que há exato um ano atrás, o talentoso Evgeny Kissin fez um concerto pra comemorar os 200 anos de Chopin, em Varsóvia, que incluiu o Estudo Revolucionário, fiquei pensando... aonde será que eu estava, que não estava lá? E uma boa forma de redenção é postar isso ainda hoje, pra rever muitas vezes por aqui.
As biografias romanescas e as interpretações excessivas falsificaram o gênio de Frédéric Chopin com uma obstinação particular. O ar de mistério que se vê neste polonês exilado, a inspiração atormentada, o requinte de estilo, a tuberculose pulmonar, sobretudo, condenaram-no como símbolo do pior pathos romântico. Na lenda de Chopin, duas imagens são particularmente irritantes pra mim, a do pianista de salão e a do tísico, que, aliás, conjugam-se desprezando a história. A obra de Chopin é romântica pela audácia da escrita e clássica pelo pudor e concisão, um compositor de vanguarda, com um avanço de meio século sobre seus contemporâneos. Tem como verdadeiros mestres Bach e Mozart mas, no essencial de sua arte, Chopin não deve nada a ninguém: inventou tudo, resguardando-se conscientemente de qualquer influência. Elegante, espirituoso e reservado, esconde a grande timidez sob uma amabilidade indiferente. Detesta confidências, não fala nem da saúde, nem de seus sentimentos, raramente das ideias.
"Carrega a tua alma na angústia, deixa sofrer o coração, mas que ninguém leia a dor no teu rosto."
Exprime, com isso, sua concepção de arte e, ao mesmo tempo, uma exigência moral. É o primeiro grande compositor a dar a sua obra características específicas de uma música nacional - o caráter polaco. Nenhuma composição de Chopin ambiciona ser sua obra-prima. Encontra-se a mesma originalidade numa Mazurka, nos Estudos ou na suntuosa Barcarolla. O certo é que as soluções apaixonantes aos problemas técnicos que o jovem autodidata deu às duas séries de Estudos, op.10 e op.25, bastariam para fazer dele a personalidade dominante da história do piano. Foram compostas entre os 18 e 24 anos de Chopin, com um inesgotável sentido poético. A primeira série de Estudos, op.10, é dedicada ao seu amigo Franz Liszt. Em setembro de 1831, na Alemanha, Chopin tomou conhecimento que Varsóvia, após luta sangrenta, rendeu-se aos russos, frustrando a insurreição da Polônia. Compõe, então, o Estudo n°12 da op.10, chamado Estudo Revolucionário, onde é possível sentir seu estado de espírito, o desespero soar, e a impressão de um forte ideal de liberdade com dramaticidade e vigor. Ouça e confirme.



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