quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

desta sorte

Quando se decide falar em ópera muita gente torce o nariz. Sem hábito sonoro, é compreensível que seja assim. Mas se estamos aqui para o novo, a disposição é enfrentar. Engana-se quem pensa que a ópera é apenas uma história encenada e cantada, seria simplificar a arte. Ao realizar a música o compositor escolhe a tonalidade das notas para a marcação dos afetos que serão empregados pelos intérpretes. Ter a compreensão da montagem da cena é fundamental para uma correta interpretação da obra, já que os autores usam metáforas. Na ópera cada nota musical representa um sentimento e uma sensação, e é escrita para ser interpretada desta forma. Por exemplo: o uso intencional e expressivo do silêncio é frequentemente encontrado em composições cujo texto trata da morte ou da eternidade; outras tonalidades, outros afetos.

Em 23 de fevereiro de 1685, um excelente violinista e cravista nasce na Alemanha: Georg Friedrich Händel, além da imprescindível Passacaglia que postei em novembro aqui, é o compositor da ária inicialmente conhecida como Lascia la spina, que mais tarde passou a chamar-se Lascia ch’io pianga, - talvez uma das mais bonitas árias já escritas - da ópera Rinaldo, de 1711.
A ópera versa sobre a Primeira Cruzada (1096-99). Rinaldo, cavaleiro cristão, ajuda na conquista de Jerusalém, em troca, o general lhe oferece, por seus feitos heróicos, a mão de sua filha Almirena. Mas a jovem Almirena é sequestrada. Na cena da ária, Almirena está no jardim do palácio encantado da feiticeira, lamenta seu destino e almeja liberdade. No final, os exércitos cristãos alcançam a vitória e, como em todas as histórias da época, o bem triunfa sobre o mal.
A letra da ária é de uma intensidade poética estonteante, é linda!

"Lascia ch'io pianga mia cruda sorte, e che sospiri la libertà!
Il duolo in franga queste ritorte de' miei martiri sol per pietà."
"Deixa que eu chore minha sorte cruel, que eu suspire pela liberdade!
A dor quebra as cadeias de meus martírios, só por piedade."

Lascia ch’io pianga confirma a habilidade de Händel que consegue unir de maneira perfeita os elementos musicais e poéticos da obra. O tema principal da ária, está na tonalidade de Fá Maior, que não é uma tonalidade característica do lamento, dor e tristeza. Mas a letra enfatiza o lamento, a dor, o anseio pela liberdade; no entanto, Händel surpreende com uma melodia belíssima, calma e afetuosa que traz uma enorme sensação de paz e tranquilidade. O ouvinte atento poderá perceber que o termo "libertà" não só significa liberdade, mas também esperança. É demais!
Experimente ouvir Lascia Ch'io Pianga, na interpretação de Barbra Streisand  
E na interpretação lírica de Cecília Bartoli  
Quem, em algum momento, já não teve uma sorte cruel e suspirou por liberdade?
Goste ou não do gênero é interessante conhecer.



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