terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

fé, favos e redes

Imagens e textos mudam a vida da gente. Espaços onde andamos marcam a passada e deixam rastro. Em movimento, deixo por aqui para ser lido e aproveitado um artigo de Ferreira Gullar, publicado em 1980, que contribuiu para nortear minha opção religiosa. O que se vê, ouve e lê faz mudar uma porção de coisas. Sem religião, reforço minha digital: meu muro, sem eira nem beira - paredes, já nelas, favos e redes.

Você e a fé

          A gente nasce com fé ou sem fé? É difícil de dizer-se. É mais fácil que nasça com fé, não fé religiosa, que isso é cultura, vem depois: nasce com fé no mundo – não duvida que ele exista. A dúvida também é cultura, vem depois... é misterioso esse primeiro momento com a realidade. A criança escapa da noite materna, desliza para o mundo de todos, abre os olhos. Deve ser espantosa a impressão que lhe causa o primeiro rosto que vê – como se víssemos um marciano. E depois os objetos, as paredes, depois o mundo com seus barulhos, o amplo espaço que se perde no céu. Mas não, ou nada acontece assim ou, se acontece, apaga-se. A gente aceita o mundo, assimila-lhe a estranheza, acredita nele.
          Depois começa a confusão. Nascer é ser jogado num redemoinho de problemas e aquela confiança tácita no mundo se quebra. O mundo não é só a mãe, o pai, os irmãos. Não é só a casa, o quintal da casa, a rua em frente da casa. A mãe que sorri, nem sempre sorri. As coisas têm dono. O gato morre. As galinhas que passeiam no quintal morrem, são mortas. Não deixam retrato. Filha do vizinho morre afogada na praia. A avó morre na rede. A insegurança nos atravessa, repentina. Como uma flecha de cristal. Voltamos do colégio, o coração batendo, a ver se não morreu ninguém em nossa casa. Não, não morreu, o menino janta feliz...
          A avó morta foi pro céu. O gato também foi pro céu? Não, o gato, não. E o ladrão, que matou o seu Clóvis e foi morto na esquina, foi pro céu? Não, o ladrão não, esse o diabo levou. E o gato, o diabo levou? Não, o gato, não. O menino se senta debaixo da mangueira e medita sobre o mistério do mundo. Como começou tudo isso? O professor explica (numa sala no alto de um sobrado na rua do Alecrim): no começo era uma bola de fogo que girava e os pedaços que dela se desprenderam esfriaram e viraram os planetas. Terra, Marte, Vênus, Saturno... O centro dessa bola é o Sol. O menino sorri – estava decifrado o enigma. Estava? Mas quem fez a bola de fogo? E as outras estrelas? E o espaço do universo, foi Deus, responde Bizuca. Deus fez o mundo, fez as pessoas, fez os bichos, tudo. Deus sabe de tudo, e não gosta de menino malcriado. Quem pratica o mal, quem peca, vai pro inferno. Quem é bonzinho vai para o paraíso... O menino no capinzal, esperando que algum passarinho caia na arapuca que armou, pensa: antes de Deus fazer o mundo, o que havia? Imagina um gigantesco buraco negro e vazio – o nada. Fica assustado, uma vertigem parece arrastá-lo para o fundo desse buraco. O nada... mas o que é nada? Nada, nada? Como pode? Era um vazio só antes de haver o mundo? Então havia um lugar, um lugar vazio. Não, não era um vazio, era nada mesmo. Felizmente, um passarinho caiu na arapuca. O menino se levantou correndo, abriu-a, tomou nas mãos aquele corpinho vivo, que se debatia dentro de sua mão, fazendo o menino sentir a força da vida. Uma alegria como um relâmpago no peito.
          Chovia muito naquela cidade. As nuvens se acumulavam por cima do matadouro, escurecia o céu, dava medo. De repente, uma chicotada de fogo e um estrondo que sacudia o mundo. A água desabava sobre o telhado, como se quisesse pô-lo a baixo. “Cubram os espelhos, cubram os espelhos” Minha Santa Bárbara, protegei-nos.” Lá fora, no céu conflagrado, estrondos e clarões de fogo. O terror, o desamparo. Ainda bem que existia Santa Bárbara, capaz de nos proteger...
          Entre trovões e relâmpagos (festa de São João, o corso na avenida) os anos se passavam. Certa tarde, na quitanda, o sargento músico do Exército, seu Gonzaga, com várias lambadas de cachaça na cuca, desafiou os elementos: cruzou a faca de cortar sabão com a faca de cortar carne acima da cabeça e berrou: “Se Deus existe que ele me fulmine com um raio”. E esperou. O menino na expectativa. Um raio cortou o espaço, A chuva cresceu de força, mas o sargento continuou incólume. Pediu outro trago e derramou na garganta. Cuspiu pro lado: “Não lhe falei, menino? Deus não existe”.
          E o diabo? Será que o diabo existe? Certa noite, um grito aterrador sobre o telhado da casa: era o rasga-mortalha. Seria aquele pássaro o diabo? Um enviado do diabo? Fazia muitos anos, quando a avó ainda era menina numa casa da rua das Hortas, um homem bateu à porta. Era de noite. Ninguém foi atender. Ele bateu de novo. Aí a janela da casa se abriu e apareceu um enorme rosto de fogo. Ele soltou um grito e enlouqueceu. Era o diabo...
          Mas o menino não queria que o diabo existisse. Era-lhe difícil viver aquele mundo de assombrações, pássaros agourentos e castigos eternos. Decidiu-se: às seis da tarde foi para o fundo do quintal e ali, sozinho, invocou o diabo: “Se você existe, demônio, apareça agora para mim. Se não aparecer, não acredito em você”. E esperou, os pelos do corpo arrepiados. O silêncio das bananeiras. Um súbito rumor. Voltou-se. Um pombo levantava voo. Respirou aliviado. O diabo não existe.
          Mas Deus não era menos assustador. Ele via tudo, sabia de tudo, era impossível escapar dele. A filha de seu Piolho estava na sala com a saia levantada, o menino viu tudo. Ficou pensando nela, sonhou com ela. De ver, não teve culpa, mas de pensar. Os meninos se reuniam na casa do rádio, perto da praia do Jenipapeiro e apostavam: quem ejaculava mais longe? Rezava de noite, pedia perdão, arrependia-se. Mas... Deus, para lhe dar o céu futuro, pedia em troca a alegria de viver. Foi comprar banana na porta de uma negra que morava na rua atrás de sua casa. Ela estava deitada numa rede, as coxas à mostra. “Vem cá, menino.” Ele foi. Ela ergueu a saia e abriu as pernas. “Vem.” Teve medo, ela o acariciou, puxou-o para si, respirou quente no pescoço dele. Deslizou no paraíso... Ganhou-o? Perdeu-o. O segredo, a culpa diante dos pais. O pecado diante de Deus. O paraíso futuro ou o de agora, na rede da negrinha quitandeira, recendendo a maracujá?
          O que o incompatibilizou com Deus foi, sobretudo, o ambiente triste e assexuado da igreja do bairro. E a voz do padre. Lá fora, o dia tropical: as margens do rio anil ardendo de sol, o Tijuco recendendo a vila, a podridão, a peixe, a caranguejo, a mulher, a palafita, a gazeta, a aventura, a copa dos citizeiros rumorejando na ventania, as palmeiras descabeladas, doidas de luz e céu, e azul, o ar grosso se desdobrando como um lençol que o vento sacode. Os olhos apertadinhos de Cecília, a boca de Teresinha, as olheiras de Antônia, as pernas da moça que morava na rua do Sol. Nada disso cabia no recinto sombrio e mortuário da igreja de Santa Aninha.
          - Sabe de uma coisa? Acho que Deus não existe.
          - Que que tu ta dizendo, menino?! Bate nessa boca. Cruz-credo!
          - É isso mesmo. O mundo não vai acabar no ano 2000 e esse negócio de inferno é mentira também.
          Era preciso libertar-se do medo, do pecado, da culpa, para poder viver. Sorver com alegria e saúde da verdura, do vento e da chuva de sua cidade.
          As nuvens continuaram a rodar sobre o quintal da casa. Um mês de junho traz a seus olhos os olhos de Marlene, o sorriso dela. Marlene, a inacessível. Marlene, a imprescindível. Marlene, sonho e sofrimento. A infância acaba, a paisagem se mancha. É difícil viver.
          Quando a gente se dá e a outra pessoa não aceita, a vida perde sentido. A rejeição nos reduz a nós mesmos, a nosso corpo quase, à solidão – e a solidão é a mãe de todos os grilos. Põe à mostra a distância que nos separa dos outros e das coisas. Mais que isso, a solidão mostra as coisas: você está aqui e o mundo lá. Você repara na formiga que passa atarefada, conduzindo uma folha – e pensa no formigueiro oculto onde milhões de formigas, brilhando na escuridão, trabalham, se atropelam. E isso é uma minúscula parte do mundo. Quantos milhões de formigueiros existem? E colmeias? E viveiros? E cidades? Casas e mais casas, oficinas, mercados, escolas. As pessoas indo e vindo, falando, comendo, dormindo, brigando... Quanta coisa acontece numa cidade. E na natureza, quanta coisa! Na copa das árvores, dentro do caule, no fundo da terra... Impossível apreender, conhecer, testemunhar. Que sentido tem esse prodígio de fenômenos? E a sensação de que a vida nos escapa? Vivemos uma mínima parte da vida. E, então, a natureza que com suas palmeiras e suas ventanias, seus capinzais e suas praias, incutira no menino a fé na vida e no mundo, mostrava-se agora esmagadora e enigmática: existe lagarta preta e longa, existe lagarta verde e curta, existe lagarta fininha e cor de palha... pra que tanta lagarta? Pra que tanta forma diferente de lagarta? E tantos peixes e tantos tipos de peixe? E tantos pássaros? E um canta de um jeito, outro de outro jeito. E o gato mia. Já pensou nisso? O gato mia – emite um som próprio como se fosse um instrumento musical, um som próprio à sua entranha de gato. Já o som do cachorro é outro. E pra quê? Por quê?
          Deus seria uma resposta apaziguadora: Deus os fez. Ele sabe o que faz, não adianta tentar penetrar os desígnios dele. Há que resignar-se: o mundo não tem explicação. Indagar além de determinado limite é prova de orgulho, pecado. O céu pertence aos pobres de espírito. Ricos de graça: a graça da fé.
          Quem não tem fé caça com gato. É duro. O homem está só e vai morrer. A beleza que a flor lhe comunica, este instante de alegria e descoberta, vai morrer com ele. Esta tarde, esta lembrança que explode dentro de um mictório sujo de boteco, vai morrer com ele. Compreende a importância da fé: se Deus existe, ele vê tudo – a flor e o homem que vê a flor. E então a experiência solitária não é mais solitária – a visão que tudo vê integra todas as coisas na totalidade, revela a universalidade de cada coisa particular. E mais: se Deus existe, tudo o que acontece caminha para ele e se redime em sua eternidade. O homem pode viver em paz.
          Mas, se Deus não existe? Se não há ninguém além de você mesmo vendo a flor que você vê? Se não há ninguém para resgatar da morte a lembrança que você carrega em seu corpo mortal? Você conta para o outro o que você viu. Transfere para o outro a lembrança que vai se perder. Você morre, ele fica – e enquanto ele fica a lembrança vive nele. Se Deus não existe, a transcendência do homem é o outro homem. A ausência de Deus obriga à solidariedade.
          Mas nem sempre. Se Deus não existe – disse Dostoiévski - , tudo é permitido. Logo, Raskolnikof pode matar a velha avarenta. Não haverá castigo, senão o dos homens. Mas se o crime é perfeito...
          Se Deus não existe, todos os problemas se repõem ao nível das pessoas mesmas: elas são responsáveis por tudo – pelo que elas fazem e pelo que os outros fazem. Uma nova ética tem que ser construída.
          O adolescente se torna adulto quando se assume responsável. E não apenas diante do pai e da mãe, mas também diante da sociedade e da própria comunidade humana. Os caminhos para chegar a isso são muitos e nenhuns... E nem todo mundo chega lá. É no próprio processo da vida que, pouco a pouco, certos mitos se dissipam e a realidade revela um lado insuspeitado: a identidade dos interesses e problemas que as pessoas de uma mesma faixa social costumam enfrentar. A descoberta dessa identidade pode ser a porta para uma nova fraternidade que se constrói na luta pela solução dos problemas. E é nesse esforço comum que as pessoas se revelam umas às outras porque revelam umas às outras o que está oculto em cada uma delas: a humanidade – ou seja, aquelas qualidades e virtudes que ultrapassam o individualismo egoísta. As pessoas passam a acreditar nas outras e a acreditar, por isso mesmo, na possibilidade de um mundo melhor, mais fraterno e justo. Essa fé do homem é que fortalece a nossa fé em nós mesmos, sem o que a própria vida perde o sentido. E a fé em Deus se torna uma demissão de homem.
          A sociedade em que vivemos não é muito propícia à afirmação da fraternidade. A própria educação que recebemos - e mais que isso, a vida mesmo a cada momento – nos ensina a ver no outro um competidor. A luta pela sobrevivência, em condições adversas, estimula o egoísmo, a inveja e mesmo o ódio ao semelhante. A divisão se estabelece exatamente entre os que mais unidos deveriam estar: os membros de uma mesma classe social. Só quando se descobrem os interesses mais gerais e fundamentais do nosso grupo social, e da sociedade como um todo é que se consegue superar a divisão e os conflitos que nos afastam uns dos outros. E é aí que, no pleno sentido da palavra, tornamo-nos cidadãos.

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