domingo, 20 de fevereiro de 2011

sobre sortimento



Todo poema fala por si, mas José Régio, no Cântico Negro, fala por mim. A vida é mais, a vida é sortida, e sorte tenho eu de encontrar a Gonepteryx rhamni, uma folha - cansada da escravidão - que vira borboleta e me ajuda a mapear meu cântico. Sede da vida como um todo, a borboletear, meu ofício é encontrar saídas.



José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira, nasceu a 17 de setembro de 1901, em Vila do Conde, Portugal, e viveu grande parte da vida em Portalegre.
Sobre o seu nascimento, diria:
«Quando eu nasci, ficou tudo como estava, nem homens cortaram veias, nem o sol escureceu, nem houve estrelas a mais...
Somente, esquecida das dores, a minha mãe sorriu e agradeceu.»
A primeira edição de "Poemas de Deus e do Diabo", hoje rara, data de 1925, nela, o conhecido poema Cântico Negro. Considerada por uns, uma verdadeira revelação artística, foi apontada por outros, como um perigo para a moral e a tradição... A poesia de José Régio, um perigo? Ora, essa!

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços,

E seguros de que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com os olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-à-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí!

Só vou por onde me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós respondeis

Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

Se vim ao mundo,

Foi só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faça não vale nada.


Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre nas vossas veias o sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!


Nenhum comentário: