segunda-feira, 7 de março de 2011

tocar o céu com o profano

O caminho da música na primeira parte da Idade Média foi definido pelo Canto Gregoriano e, num sentido mais amplo, pelo controle da igreja, uma consequência lógica da organização social da época. Mas, felizmente, alguns frades abandonaram seus conventos e a música, que era em latim e restrita à igreja, foi para as ruas e se misturou com o povo. Esses frades eram chamados de goliards ou "clerici vagante" e perambulavam de uma região para outra pedindo esmolas. O fato é que durante a estadia nos conventos tinham recebido uma dupla formação: musical e literária, e exploravam os seus conhecimentos através de uma série de canções, regra geral dedicadas ao vinho, à comida e ao amor. Deve ter sido aí que os caras conheceram realmente o céu!
Os textos das canções eram cheios de brincadeiras dirigidas ao clero, à vida de convento e aos costumes regiliosos.
Pode-se dizer que constituíam uma primeira evidência de contracultura. O certo é que a importância dos goliards na evolução da música é muito significativa, uma vez que a separaram do mundo religioso e trocaram o cenário das igrejas pelos das praças das aldeias. Perdeu-se uma grande parte de suas canções, mas algumas peças resistiram ao tempo. O primeiro localizado, mais ou menos em 1803, foi o manuscrito de Munique, um rolo de pergaminho com cerca de 200 poemas e canções medievais, escritos em latim e alemão, encontrado na biblioteca da antiga Abadia de Benediktbeuern, na Alta Baviera.
Quase 150 anos depois, em 1937, o compositor alemão Carl Orff estreou em Frankfurt uma recriação utilizando alguns dos textos do manuscrito, sob o título de Carmina Burana - cantiones profanae. Uma cantata cênica envolvida por um símbolo da antiguidade - o conceito da roda da fortuna, em movimento contínuo, trazendo ora sorte, ora azar: uma parábola da vida humana. Ali o homem, a natureza, o amor, a exuberância da vida e o vinho estão aos caprichos da lei da instabilidade, como o que realmente são: joguetes de forças indecifráveis. A obra completa divide-se em três partes: o encontro do homem com a natureza, particularmente com o despertar da primavera (Primo vere); o encontro do homem com os dons da natureza, culminando com o do vinho (In taberna); e o encontro do homem com o amor (Cour d'amours), sempre com a força devastadora do Coro da Fortuna cercando o todo.

Sinta a imponência da Fortuna Imperatrix Mundi, pela Filarmônica de Berlim e coro, sob a regência do genial Seiji Ozawa - delicie-se com a letra.
A vida é - precisamente - essa alternância, uma boa sinalização para os que acham que estão no controle de algo e uma evidência clara de que nenhum poder é hegemônico.

FORTUNA IMPERATRIX MUNDI
O FORTUNA


I. O Fortuna, veluti Luna statu variabilis, semper crescis out decrescis; vita detestabilis nunc obdurat et tunc curat ludo mentis aciem, egestatem, potestatem dissolvit ut glaciem.
II. Sors immanis et inanis, rota tu volubilis, status malus, vana salus semper dissolubilis, obumbrata et velata michi quoque niteris; nunc per ludum dorsum nudum fero tui sceleris.
III. Sors salutis et virtutis michi nunc contraria, est affectus et defectus semper in angaria. Hac in hora sine mora corde pulsum tangite; quod per sortem sternit fortem, mecum omnes plangite!

FORTUNE PLANGO VULNERA
I. Fortune plango vulnera stillantibus ocellis quod sua michi munera subtrahit rebellis. Verum est, quod legitur, fronte capillata, sed plerumque sequitur occasio calvata.
II. In Fortune solio sederam elatus, prosperitatis vario flore coronatus; quicquid enim florui felix et beatus, nunc a summo corrui gloria privatus.
III. Fortune rota volvitur: descendo minoratus; alter in altum tollitur; nimis exaltatus rex sedet in vertice caveat ruinam! nam sub axe legimus Hecubam reginam.

FORTUNA IMPERATRIZ DO MUNDO

Ó FORTUNA

I. Ó Fortuna, és como a Lua mutável, sempre aumentas e diminuis; a detestável vida ora escurece e ora clareia por brincadeira a mente; miséria, poder, ela os funde como gelo.
II. Sorte monstruosa e vazia, tu – roda volúvel – és má, vã é a felicidade sempre dissolúvel, nebulosa e velada também a mim contagias; agora por brincadeira o dorso nu entrego à tua perversidade.
III. A sorte na saúde e virtude agora me é contrária. e tira mantendo sempre escravizado. Nesta hora sem demora tange a corda vibrante; porque a sorte abate o forte, chorais todos comigo!
CHORO AS FERIDAS DA FORTUNA
I. Choro as feridas da Fortuna com os olhos rútilos; pois que o que me deu ela perversamente me toma. O que se lê é verdade: esta bela cabeleira, quando se quer tomar, calva se mostra.
II. No trono da Fortuna
sentava-me no alto, coroado por multicores flores da prosperidade; mas por mais próspero que eu tenha sido, feliz e abençoado, do pináculo agora despenquei, privado da glória.
III. A roda da Fortuna girou:
desço aviltado; um outro foi guindado ao alto; desmesuradamente exaltado o rei senta-se no vértice – precavenha-se contra a ruína! porque no eixo se lê rainha Hécuba.

E a suavidade de In trutina, do Cour d'amours, na voz de Barbra Streisand.

IN TRUTINA
In trutina mentis dubia

fluctuant contraria

lascivus amor et pudicitia.

Sed eligo quod video,

collum iugo prebeo;

ad iugum tamen suave transeo.


NA BALANÇA

Na balança os sentimentos oscilam

um contra o outro;

amor lascivo e pudor.

Mas escolho o que vejo,

e coloco meu pescoço sob o jugo;

ao jogo suave todavia me submeto. 



Confere as cores arrebatadoras 
de Carmina Burana na versão completa do Seiji Ozawa e a Filarmônica de Berlim, aqui

 
 



Nenhum comentário: