quinta-feira, 21 de abril de 2011

alma pampa


Chimarrão nunca falta por aqui. É agregador, gera um clima de respeito e amizade que floresce por entre os mates conversados e cria uma comunhão afetiva. Pra mim, um acontecimento dentro do outro - as coisas antigas são muito mais eternas - alma pampa e chimarrão, o resto a gente faz no andar.


     Alma Pampa
       [Jayme Caetano Braun
]
Quem te batizou milonga,
Decerto foi algum monge
Que escutou de muito longe
O teu murmúrio de sanga
Ou quem sabe alguma changa,
Dormideira nos arreios
Dessas que fazem ponteios
Com unhas de japecanga

Ou quem sabe algum sorsal,
De topete colorado
Num prelúdio abarbarado
Das canas do taquaral
Talvez quem sabe um bagual
Corcoveando num repecho
Floreando as cordas do queixo
Nas pontas do pastiçal

Brasileira, castelhana,
Milonga ronco de mate
Tu nasceste do embate
Da velha saga pampeana
Espanhola, lusitana,
Entre patriadas e domas
Sem divisas, sem diplomas,
Cursando o mesmo dialeto
Porque o vento analfabeto
Fala em todos idiomas

Quem sabe talvez a lança,
Riscando a primeira linha
Quando a adaga sem bainha,
Cadenciava uma romanza
Ou talvez a vaca mansa,
Dentro da várzea perdida
Na ternura enrouquecida,
Feita de instinto e lamento
Anunciando o nascimento
Da cria recém lambida

Por isso em qualquer fronteira,
No esboço da lonjura
És a mais linda mistura
Da nobre estirpe campeira
Fidalga e aventureira,
Com geografia na cara
Passaporte tapejara,
No caminho dos andejos
Reculutando solfejos
Que uma linha não separa

Alma de pampa e semente
Que nasceu nos dois costados
Herança dos mal domados
Que formaram nossa gente
O passado e o presente
E o futuro dimensionas
Nas primas e nas bordonas
Do garrão do continente.

A LENDA DO MATE
Um velho guerreiro guarani, impedido de ir à guerra e à caça pelo peso dos anos, consolava-se apenas com a companhia de sua jovem filha Yari, mas ficava triste e aflito sabendo que Yari privava-se das alegrias da juventude para estar ao seu lado. Certa vez, quando sua tribo partira em busca de sobrevivência e ficando só com a filha, apareceu-lhe um estranho guerreiro pedindo abrigo em sua jornada, dizendo vir de muito longe. Então, o ancião e a filha o acolheram com respeito nobre, dando sua amizade nativa e hospitaleira. Na manhã seguinte, o estranho viajante, agora mais amigo do que forasteiro, ao manifestar sua partida, disse ser um enviado de Tupã. E, dirigindo-se ao velho guerreiro, indagou: - O que te falta, meu bom amigo? E o ancião respondeu: - Assim, como desta afeição que nasceu entre nós, ao partires ficarei com a recordação saudosa de tuas lembranças. Tudo nesta vida passa e ao passar nos deixa uma saudade, preenchendo o vazio das ausências. E cada vez vamos ficando mais sós, dependentes da gratidão ou da pena de alguém que priva sua liberdade para suavizar nossa solidão. Gostaria de ter um companheiro igual, no meu silêncio de recordações, cheio de paciência e que, juntos, pudéssemos distrair os momentos de espera, que me desse a força do calor que tem a amizade das mãos amigas. Só assim poderia descompromissar a liberdade de Yari. O enviado de Tupã ouviu com atenção as justas razões do velho guerreiro e disse-lhe: - Vou te dar duas graças: a primeira - alcançando um ramo cheiro de folhas - é esta planta que se chama Caá - referindo-se à erva mate. Nela encontrarás alimento digno dos nobres de coração, trará vigor ao teu povo e será o amigo silencioso, em todos os momentos que solicitares um companheiro. E sobre a outra graça: de hoje em diante, tua filha será Caá-Yari, a deusa dos ervais e dos ervateiros... E assim o fez.
[Lenda de domínio público]




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