segunda-feira, 25 de abril de 2011

desencavando reflexos

Joseph-Maurice Ravel, compositor e pianista francês, tornou-se conhecido sobretudo pela sutileza expressa em suas obras, o cara exercitava a arte de dar alma às coisas... Os amigos do compositor dão testemunho da requintada sensibilidade, da generosidade, da afetuosa compreensão pelos sentimentos dos outros.
Aluno de Gabriel Fauré, dedicou-lhe um belo quarteto para cordas, este do registro da foto, o String Quartet in F Major, uma das peças mais bonitas e marcantes de seu repertório - revela o artesão obstinado. Na perfeição do ofício fecunda a sensibilidade e a torna criadora, mas ela nem sempre foi reconhecida como a origem do seu gênio; preferiu-se ver o sinal da impotência e da inércia afetiva. No entanto, a expressão musical da emoção impõe a ascese de uma precisão de relojoeiro e os fracassos retumbantes, no Concurso de Roma, deram-lhe em compensação o gosto pelo acabamento técnico. Se a liberdade é a nobreza de Debussy, a de Ravel é o rigor. Não é de espantar que seu humor cáustico, o gosto do paradoxo, a arte de ilusionista, tenham desconsertado muitos ouvintes. O próprio Debussy escrevia, em 1907, a Louis Laloy:
"Concordo consigo em reconhecer que Ravel não pode ser mais dotado, mas o que me irrita é sua atitude de fazer tudo, ou melhor, de faquir mágico que faz brotar flores à volta de uma cadeira".
O artifício, o brio orquestral, o virtuosismo, as habilidades contrapontísticas, servem-lhe para evitar o pathos e enganar o destino. O ecletismo e a aposta são para ele princípios estéticos. Tudo desperta sua curiosidade, a música dos outros, a técnica instrumental, os timbres insólitos, os novos métodos de composição, o folclore, o jazz... Nele não há ideia preconcebida, é acessível a todas as influências, sem perder a originalidade. O fato é que ele consegue encontrar nos outros uma maneira de fazer, uma orientação estética: Ravel serve-se de tudo para produzir Ravel. A aposta aparece como um estimulante de sua criação; precisa vencer dificuldades, resolver contradições, transpor obstáculos. Assim, todos sabem que foi um dos mais prodigiosos orquestradores de todos os tempos, que enriqueceu com centenas de sortilégios infalíveis a herança de Liszt e de Rimsky-Korsakov. Contudo, pouco escreveu diretamente para orquestra e, a partir de 1913, renuncia aos acessórios do ilusionista, à diversidade cintilante dos timbres, em favor da clareza, da linha pura, encontrando novos meios de sedução, como em Tzigane, "a" peça para violino e piano. Nos espelhos, Miroirs, de 1905, Ravel atinge os limites das possibilidades intrumentais, descobre nos instrumentos tradicionais variantes insuspeitadas, fazendo brotar no teclado cores desconhecidas, num claro virtuosismo pianístico - ouça e experimente sentir:

Miroirs III - Une Barque sur l'Océan,
de Maurice Ravel, por Jean-Yves Thibaudet.

Em especial, no "Une Barque sur l'Océan", leva-nos ao fluxo e refluxo das correntes nos mares, em cintilas de luz, som e água. Eis uma obra de uma plenitude e riqueza extraordinárias, a provar que Ravel é mais que sonho, valsinha e bolero, Ravel é reverberação.


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