quinta-feira, 16 de junho de 2011

fortuna

Poucos artistas foram tão favorecidos pela sorte como Felix Mendelssohn. Nascido em uma abastada família de banqueiros, inteligente, dotado de um grande encanto pessoal, tinha recebido meios de adquirir vasta cultura. Desenvolveu dons surpreendentes que se aplicavam aos mais diversos domínios: música, letras, pintura, filosofia, natação. Sua personalidade musical é a que mais se aproxima de Mozart. Quando ainda criança era um menino prodígio, como compositor e executante. Aos 17 anos já tinha escrito a Abertura de O Sonho de uma Noite de Verão e o Octeto. Mais tarde compõe a Sinfonia Italiana e o Concerto para Violino, obras próprias de um mestre, em quem a sensibilidade romântica é temperada por uma sólida cultura clássica. Aqui, o 1°e o 3°movimentos do Concerto para violino em mi menor, op.64, pela Orquestra de Leipzig e solista, Maxim Vengerov.
No segundo compasso deste 1°movimento o solo de violino é de uma cantilena de caráter lírico, trazendo o tema principal. Pouco depois flautas e clarinetes expõem uma melodia sobre uma suspensão emitida pelo violino. Entre 6:18 e 8:40 - pra mim, um esplendor! Termina com uma brilhante variação e uma simples nota sustentada pelo fagote que inicia o 2°movimento... é lindo!
A melodia em forma airosa que Vengerov executa sobre um fundo de pizzicati das cordas, cria uma evocação da cantilena inicial da obra que, no início deste 3°movimento, precede à introdução de um allegretto escrito num estilo que lembra o Sonho de uma Noite de Verão - muito bonito. Ainda sobre Mendelssohn, Berlioz escreveu:

"O que ouvi dele me entusiasmou, estou fortemente convencido de que é um dos maiores talentos musicais de nosso tempo e é também uma dessas almas cândidas que raras vezes encontramos".
Exerceu uma influência considerável na vida musical da Europa em sua época, redescobrindo e trazendo a público as obras maiores de Bach, Händel e Schubert, dando interpretações exemplares das sinfonias de Beethoven e das obras de Mozart, e favorecendo a carreira de Schumann e de Chopin. Sobre isto, um episódio curioso: há biografias afirmando que Mendelssohn teria encontrado grande parte das obras de Bach esquecidas num baú, sendo usadas como papel de embrulho no comércio, mas quem conta melhor é Rubem Alves:
"Bach era um modesto organista numa cidade do interior. nunca teve fama ou reconhecimento. Um dos seus patrões se refere a ele, numa carta, como "músico medíocre". Tinha por obrigação semanal compor peças sacras para a liturgia do culto luterano. Suas composições, uma vez executadas, eram esquecidas e guardadas em canastras e estantes em algum quarto da igreja. Surpreendido pela morte no meio da composição da "Arte da Fuga", ninguém ligou para o que deixara escrito. Seus manuscritos foram vendidos para um açougueiro que os usava para embrulhar carne. Mendelssohn, por acaso, foi comprar carne no tal açougueiro. Mas ele logo se desinteressou da carne, assombrado com o que via escrito no papel em que ela viria embrulhada. E foi assim que Bach foi descoberto no lugar mais deprimente do mundo, embrulhando carne num açougue. Graças a deus que Mendelssohn não era vegetariano!"    Extraído do livro "O amor que acende a lua", de Rubem Alves, 1999.
Em 1829, Mendelssohn organizou um dos acontecimentos musicais mais significativos do século, apresentando a Paixão Segundo São Matheus, de Bach, executada pela primeira vez desde a morte do mesmo, quase um século depois. A nós, as fortunas - da sorte de Mendelssohn estar atento ao papel de embrulho, e da arte, que reside justamente nesse nicho entre as coisas existenciais e imateriais.




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