quinta-feira, 7 de julho de 2011

correspondências

Há compositores que não esgotam assuntos - Claude Debussy é um deles. Inaugura uma nova maneira de perceber a música, um tipo de comunicação musical audaciosamente independente das referências intelectuais. Escolhe a via mais selvagem de todas: a do prazer e da liberdade. Conversando com o professor Guiraud, encadeia acordes no piano
"É bonito, não posso deixar de dizer, constata Guiraud. Mas é teoricamente absurdo. No que responde: - Não há teoria, basta ouvir. O prazer é a regra".
Assim era Debussy, incapaz de satisfazer uma encomenda. Entre 1887 e 1897 é admitido nas "Terças-feiras" de Mallarmé, na Rua de Roma, nada menos que a melhor porta de entrada para o mundo artístico e literário da época. Mas a ambiguidade da comunicação artística, o valor alusivo dos sons, as novas relações semânticas fundadas na imaginação, a correspondência entre o sensível e o espiritual, tudo isso não é novo para o músico, que ultrapassa de qualquer modo a significação e não esperou por Mallarmé para expressar não a coisa, mas o efeito que produz. Desde L'après-midi d'un faune sua obra progride fora dos caminhos conhecidos, recolhe o seu mel um pouco por toda a parte, deixando-se guiar pela sua extraordinária sensibilidade auditiva, pela intuição do desconhecido, pelo gosto por sonaridades únicas e imprevistas. A obra-prima de Mallarmé L'après-midi d'un faune foi musicada por Debussy, criando o seu poema orquestral mais perfeito. Escolhe tratar com uma atenção especial os sons que Mallarmé menciona em várias ocasiões: a flauta, instrumento de Pã e Syrinx e a harpa - confira aqui a sensível condução do maestro Leopold Stokowski.
O sonho de um fauno deitado à sombra de uma árvore num caloroso dia de verão: na mente do fauno as agradáveis imagens de uma suíte de ninfas, semi-deusas brincalhonas; vê os vestígios de suas roupas diáfanas na erva agitada pela brisa, e ouve os risos no eco longínquo. As palavras de Mallarmé esvoaçam como borboletas, e a música de Debussy ultrapassa-as em cor e imaginação. Os dois mestres evocam o mundo clássico dos gregos e romanos, cada um ao seu estilo, um mundo de sol, de prazer e paganismo indolente. No essencial a estética de Debussy mostra-nos a face escondida do mundo sensível, o que ele quer representar está para além das aparências, sugere a realidade em devir ou ainda o reflexo desta realidade na imaginação. Só isso já o tornaria um gênio para a eternidade! Ainda assim refletia seu tempo, sua orientação inscreve-se melhor que qualquer outra no grande movimento de ideias da época: desvalorização da razão em benefício da intuição, de Bergson, e a relatividade das noções temporais e espaciais, de Eistein. Curiosamente, a orientação revolucionária que Debussy dá à música moderna definiu-se nos cafés artísticos e nos salões literários, não nos círculos musicais, que nunca frequentava, escapando de qualquer tendência. À primeira vista rejeita toda forma preconcebida, qualquer academismo de ontem, de hoje ou de amanhã, afirmando "a música francesa quer, acima de tudo, dar prazer", o que é audacioso em 1904. Um ano antes, de férias na Borgonha, realizou 3 esboços de La Mer e escreve a um amigo num tom levemente irônico
"Sei que as ondas não banham as praias de Borgonha, e que talvez vá sentir-se na obrigação de dizer que o meu trabalho é parecido com o de um paisagista fechado no seu estúdio, mas eu tenho recordações infinitas..."
Debussy amou o mar a sua vida toda. Noutras cartas, fala do mar como a sua grande paixão e o fervente anelo que alimentava, quando criança, de transformar-se num marinheiro. Aqui o 3°movimento de La Mer, na regência de Jean Martinon. A fantasia que conclui a obra chama-se Diálogo do vento e do mar - uma fantasmagoria feita de formas e espíritos evanescentes que tem lugar sobre a conversa que imagina Virgílio entre Netuno e Euros, o vento do leste.

O ouvinte desta nova e intuitiva música é despojado das referências tradicionais, a sua atenção não é mais guiada pela convergência para um fim: precisa deixar-se conduzir, sem saber pra onde e entregar-se totalmente à ação mágica dos sons... ali as melodias declaram-se armadas para uma ventura poética. É por isso que a arte de Debussy, durante três gerações, constituirá uma espécie de arquétipo musical de um inconsciente coletivo, alimentado de símbolos e de "correspondências misteriosas entre a natureza e a imaginação" como ele próprio afirma, pensando talvez no célebre soneto de Baudelaire, Correspondances.

[pelo sonho de, um dia, alguém clicar Einsten, Bergson ou Debussy
no Google e
descobrí-los na mais plena correspondência]




Um comentário:

Rejane Martins disse...

[afora do tempo]
do vento leste,
gumes banhados de B(si).