sábado, 30 de julho de 2011

Quintana

Eis! comemoro aniversariante ilustre! Por aqui, parte do texto de Ernani Ssó, publicado em "Ora bolas – o humor de Mario Quintana", de Juarez Fonseca, Editora L&PM.
Mário Quintana nasceu em Alegrete, RS, "filho do Freud com a Rainha Vitória", segundo ele mesmo disse, com a proverbial síntese e graça. O fato, acontecido num "solar de leões", com sótão, porão, corredores e escadarias, mais assustador do que o mundo, foi comemorado pelos irmãos com a compra de duas rapaduras de quatro vinténs. Começava a noite de 30 de julho de 1906. Fazia um grau abaixo de zero. Não foi menino de brincar na rua. Tímido, mimado, doente, cresceu "por trás de uma vidraça - um menino de aquário". Aprendeu a ler com a ajuda dos pais. Não foi um aluno muito aplicado. Tinha interesse apenas por Português, Francês e História. Assinava as provas de matemática sem ler. Foi trabalhar na farmácia com o pai, que o queria doutor, não simplesmente poeta. Pena que o pai morreu em 1927, um ano depois da mulher, sem ter ideia de que o filho não foi simplesmente poeta, mas poeta adjetivado: grande, delicioso. Mais: dos poucos que, além de admiração, causam amor.
autorretrato
família desencontrada
as belas, as perfeitas máscaras
eu queria trazer-te uns versos muito lindos
Ano passado postei Anjo Malaquias, confira aqui.
O texto abaixo foi escrito por Mário Quintana para a revista Isto É, de 14/11/1984.
Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão. Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas... Aí vai! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas: ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade. Nasci no rigor do inverno, temperatura: 1grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro - o mesmo tendo acontecido a sir Isaac Newton! Excusez du peu... Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que acho que nunca escrevi algo à minha altura. Porque poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. Dizem que sou tímido. Nada disso! sou é caladão, introspectivo. Não sei porque sujeitam os introvertidos a tratamentos. Só por não poderem ser chatos como os outros? Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese. Outro elemento da poesia é a busca da forma (não da fôrma), a dosagem das palavras. Talvez concorra para esse meu cuidado o fato de ter sido prático de farmácia durante cinco anos. Note-se que é o mesmo caso de Carlos Drummond de Andrade, de Alberto de Oliveira, de Érico Veríssimo - que bem sabem (ou souberam) o que é a luta amorosa com as palavras.
caricatura de Edgar Vasques, poemas de Mário Quintana, narração de Paulo José.

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