segunda-feira, 1 de agosto de 2011

sotavento

O Navio de Espelhos, poema e voz, Mário Cesariny,
música de Rodrigo Leão e Gabriel Gomes,
álbum Os Poetas, Entre nós e as palavras.
O navio de espelhos
não navega cavalga

Seu mar é a floresta

que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha

sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta

de deitar-se com ele

Os armadores não amam

a sua rota clara

(Vista do movimento

dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade

nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada

nada leva à partida

Vozes e ar pesado

é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado

uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães

têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura

o mesmo grau e posto

Quando um se revolta

há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca

reflectem os objectos)

E quando um deles ala

o corpo sobre os mastros

e escuta o mar do fundo

Toda a nave cavalga

(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo

até ao fim do mundo.



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