domingo, 16 de outubro de 2011

sustenidos

Há muitos cromatismos em música e entre os compositores também. Liszt contribuiu bastante pra imagem deformada que temos dele. Impressionado por Paganini, compõe ao longo do tempo um personagem de virtuose fenomenal que pulveriza os teclados e transfigura, na opinião de alguns, ou desfigura, na de outros, tudo o que toca. Faz do recital de piano o que Paganini fez do recital de violino: um grande espetáculo. Cuida o que toca com o corpo todo e vai ao ponto de mandar por no palco dois pianos passando de um para outro apenas para mostrar seus dois perfis. O públido aprecia particularmente as transcrições, arranjos ou paráfrases de obras conhecidas, em que manifesta uma imaginação e um virtuosismo espantosos. Toca um quase tudo! ...as grandes páginas de ópera, incluindo as de Wagner e Verdi, as lieder de Schubert, as obras para órgão de Bach e as sinfonias de Beethoven. Há quem censure o excesso de imaginação que ele demonstra na execução das obras para piano, imaginação essa com que enriquece o texto original, e, no entanto, é um pianista prodigioso, nisto concordam todos os testemunhos. A fama estrondosa do virtuoso impôs-se em prejuízo do compositor. Na época, o público interessou-se tanto pelo fenômeno pianístico e pelo homem paradoxal que deixou na sombra a maior parte da sua música. A obra de Lizst é muito mais importante do que vulgarmente se pensa. Virou as costas à tradição de maneira particularmente radical, revolucionando a tonalidade, a harmonia, a medida, a forma e a técnica instrumental. Como o seu amigo Berlioz é ao mesmo tempo célebre e desconhecido. Com o seu desprezo insolente pelas conveniências estes dois músicos chocavam mais os contemporâneos do que Schumann ou Chopin, audaciosos, mas convenientes. Há um lirismo generoso em Liszt, mas o que toda a gente admira em Wagner, recusa-se a ouvir em Liszt. Valoriza-se pouco sua obra prima sinfônica, a Faust-Symphonie e o esplêndido poema sinfônico Du Berceau à la Tombe, o que não diminui o valor das composições mais célebres: as espantosas Rapsódias Húngaras, cuja originalidade nos surpreenderia ainda hoje se as ouvíssemos pela primeira vez, os Prelúdios, majestosa sinfonia cíclica e, sobretudo, a Sonata, magnífico e tumultuoso poema pianístico que tanto perturbou Wagner a ponto de dizer a Liszt:
"A beleza desta sonata ultrapassa qualquer imaginação. É grande, afável, profunda, nobre, sublime como tu. Mexeu com os arcanos do meu ser."
Franz Liszt é nada menos que o precurssor e primeiro mestre do poema sinfônico, composição para orquestra de enormes proporções, mas habitualmente num só tempo e que, de forma diferente ao que acontece com a sinfonia clássica, leva uma ideia extramusical, literária, mitológica, filosófica, que a música procura evidenciar. Em 1912, após uma audição do belo poema sinfônico n°12, Les Idéals, Ravel escreve:
"Não haverá qualidades suficientes nesta tumultuosa efervescência, neste vasto e magnífico caos de matéria musical, onde foram beber várias gerações de compositores ilustres? [referindo-se a Wagner, Franck, Richard Strauss, Saint-Saëns, escola russa e francesa] Não devem o melhor das suas qualidades à generosidade musical verdadeiramente prodigiosa do grande precursor?"
Aqui, a intrigante Rapsódia Húngara n°2, executada em piano solo, por Martha Argerich.
E ainda em tempos de 12 de outubro, versão da mesma rapsódia por Tom & Jerry - The Cat Concerto, de Hanna & Barbera, 1946 - pela graça de cada riso infantil.

Na pauta, deixo espaços de semitons por necessidade de avivar esses caminhos esquecidos ou pouco valorados de gente que fez o mundo acontecer de maneira corajosa e revolucionária; a lembrar Rimbaud "...estendi cordas de campanário a campanário; grinaldas de janela a janela; correntes douradas de estrela a estrela, e danço."
E no toque do sol, crio a possibilidade de laços de afetos em varais de reminiscências líricas, num sublinho dentro, n'atividade da compreensão vária, por ares e áreas em tons sustenidos.


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