terça-feira, 4 de outubro de 2011

vento ascendendo velas

senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto


sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim


sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes


senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei


senhores professores que pusestes

a prêmio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição


senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

sou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis


senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além


senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs por ordem?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem?


senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa


sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raíz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão

sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever

ó subalimentados do sonho!

a poesia é para comer.


A Defesa do Poeta, Natália Correia
- na voz de Amália Rodrigues, 1968.
sopro ascendendo velas
por movimento de argo



Nenhum comentário: