quinta-feira, 24 de novembro de 2011

o ré em sol

Educado muito pobremente numa casa miserável do porto de Hamburgo, filho de um contrabaixista em orquestras populares, Johannes Brahms aprende piano com dois bons professores locais. Lê os grandes clássicos e os poetas românticos, mas sobretudo compõe. Aos 14 anos dá o primeiro concerto público com uma de suas composições. Neste período, ganha a vida tocando em tabernas e escrevendo música de cervejaria. E foi numa digressão de concertos que fez amizade com o violinista Joachim, sendo por ele recomendado a Liszt e Schumann, do qual torna-se amigo. Schumann consagra ao jovem compositor um artigo entusiasmado em famosa revista de música de Leipzig - a Neue Zeitschrift für Musik.
Dono de cultura e temperamento puramente germânicos, há na sua obra uma mistura de ternura e peso, de classicismo e romantismo. O interessante é que, diante daquela música do futuro - representada por Liszt e Wagner - Brahms apresenta-se como um tradicionalista;
e, é claro, a sua fidelidade às formas clássicas somada à antipatia pelos Wagnerianos isolaram-no na história do seu tempo. Mas era preciso classificá-lo: encontrou-se a etiqueta fácil de neo-clássico. No entanto, é um pouco contra sua vontade que se tornou porta-estandarte dos meios musicais mais conservadores de Viena. Este clássico, este reacionário, tem apesar de tudo uma alma romântica de Baixo Alemão, alimentado de cantos populares, gosta da ordem e da medida, detesta o estilo empolado, o ornato pomposo, o espetáculo das paixões. Cria um sistema de notação musical para seu próprio uso e afirma:
"inventei os meus melhores lieder de manhã cedo,
enquanto engraxava meus sapatos"

Os Schumann foram os guias de sua carreira e toda a vida manteve a afeição por Clara, submetendo sempre à sua apreciação as composições novas. Durante os dois anos que antecederam a morte de Schumam, Brahms fica em Düsseldorf acompanhando Clara e dedicando-lhe uma amizade que será fielmente alimentada pelos dois até a morte da grande pianista. Por temperamento e por cultura este nórdico pobre, tímido e luterano, não sente nenhuma afinidade em Weimar, onde Liszt o recebe na sua corte, em 1853. A atmosfera falsa onde se desenvolvem os gênios de Liszt e de Wagner só consegue horrorizar um homem que se sente feliz na simples e calorosa hospitalidade dos Schumann. Mesmo a má fala e brusquidão de Brahms são compensadas por profundas qualidades de caráter; nunca cometeu o erro de subestimar Wagner, embora não simpatizasse com sua estética. Sua obra escapa completamente ao neo-classicismo alemão, impondo-se a etiqueta clássica, fazendo dele o terceiro grande B da música erudita, junto com Bach e Beethoven. Sua primeira sinfonia foi apelidade de Décima em alusão ao fato de ser considerado o sucessor de Beethoven. Aqui, o alegro giocoso, 3°movimento do concerto para violino em ré maior, op.77, em solo de Jascha Heifetz - um alegro alegríssimo, digamos assim, por nada menos que autenticidade original.
Sua invenção é suficientemente generosa e pessoal para não parecer, hoje, retrógrada, como o acusavam os seus contemporâneos. Há nele um sentimento de plenitude, de equilíbrio, de boa medida, pela escolha das soluções mais justas, nomeadamente na instrumentação das obras. Ravel, que era uma autoridade suprema nesta matéria, fica maravilhado e afirma:
"A trama sonora de Brahms é pesada e maleável, como devem ser os belos tecidos, falta-lhe transparência mas tem calor. O que acima de tudo o preserva de qualquer secura acadêmica é a generosidade de sua invenção melódica, numa harmonia tradicional, mas riquíssima."
Brahms desenvolve longas e tranquilas frases musicais, de andamento regular, em que é inimitável: a frase que forma a última estrofe da Rapsódia para Vozes de Contralto, coro de homens e orquestra é considerada uma das mais belas melodias da história da música, vale conferir. O certo é que a originalidade de Brahms não reside nas formas nem nas estruturas, mas nas ideias, na simples reconciliação do sonho e da razão, que só em Richard Strauss encontrar-se-á novamente - esta harmoniosa aliança de classicismo e romantismo, de ordem e liberdade, de apolíneo e dionisíaco. Com ele a musicalidade feliz da prosa com exatidão, o presságio de perdas e pedras, o aperto de um parto de perto, a glória das luzes que derramam o sol.


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