quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

em Villa

águas do tororó nestas ruas que são minhas...
Villa-Lobos, dentro de seu temperamento inquieto e amazônico, sempre teve um espaço sentimental protegido, sereno, voltado para a infância. Suas andanças pelo Brasil afora recolhendo temas populares, folclóricos, canções infantis, produziram o Guia Prático, as Cirandinhas e finalmente as Cirandas, que representam mais uma declaração de amor ao Brasil, desta vez destinadas exclusivamente a piano. Das matrizes originais Villa-Lobos recria ritmos e vozes sem nunca deixar sua imensa criatividade empanar o brilho natural das pequenas canções infantis. Homero de Magalhães, no piano, compreendeu este espírito e nos legou uma versão que prima pela fidelidade aos propósitos de Villa-Lobos, segundo Turíbio Santos. Sua versão é fruto de já acurada e madura compreensão interpretativa. Ele foi o primeiro pianista brasileiro a gravar integralmente as cirandas. Tororó, em tupi, significa enxurrada, água sussurrante... e nesta rua a sonoridade da luz e da lua do caminho.  Mergulhe...  profunde-se em  Fui no tororó  e  Nesta rua, nesta rua.


Villa-Lobos, gênio musical criador - fusão de natural talento e síntese histórica - é de uma personalidade singular e arrebatadora, figura exponencial de educador, foi fundador do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico e da Academia Brasileira de Música, líder e animador de vários movimentos culturais ocupa, até hoje, um lugar de destaque inconteste no panorama musical contemporâneo. Autodidata - foi "chorão" em sua juventude - soube interpretar de maneira soberba as origens de nossa música erudita, transportando-a de um estado quase que impessoal para um plano definitivo nos cenários nacional e internacional, através de um monumento sonoro que é todo força e pujança. Segundo encarte original, nas cirandas não vamos apreciar o intrumentador empolgante de Erosão, nem o neo-clássico das Bachianas e dos Quartetos de Cordas, nem o harmonista criativo e agressivo dos Choros, Sinfonias, e do Rudepoema, mas tão somente o realista apaixonado, dos temas populares, sincero e formalmente simples, por isso mesmo eloquente e grandioso. A ciranda das rodas infantis, como forma, apresenta um refrão, intercalado por trovas ou versos ditos por um solista. Captando de maneira inconfundível e individual o espírito destas cantigas, e estruturando uma coletânea que se constitui de verdadeiras jóias musicais, Villa-Lobos em suas 16 Cirandas nos prova uma vez mais e sobejamente, o grande mestre que é, e eis que, utilizando assunto de domínio público e ao alcance de todos, criou obra pessoal e permanentemente válida. Escritas em 1926, ao ouví-las, temos a sensação que são de hoje, num claro acordo com o tempo, num dar a volta, volta e meia vamos dar...   e, na contravolta, nomeio rejane.


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