quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

quinta essência de Quintana

Não leia romances, leia poesias. Ou melhor, leia dicionários. Se poesia é sugestão - semente que germina e floresce na alma do leitor -, vá lendo ao acaso um dicionário e nem pode imaginar o que lhe acontece. Ler um dicionário é até mais variado, poético e inspirativo do que olhar uma vitrine de bric.
[Da preguiça como método de trabalho:
Leituras, p.69]

rio

as águas vão passando... na cidade quieta
só o rio corre dentro da noite

é a vida continuando pelo mundo
[Água - Os últimos textos de Mario Quintana:
excerto de A cidade às margens do rio, p.18]


evolução
todas as noites o sono nos atira da beira de um cais
e ficamos repousando no fundo do mar.

o mar onde tudo recomeça... onde tudo se refaz

até que, um dia, nós criaremos asas.

e andaremos no ar como se anda em terra.


[Esconderijos do tempo:
Evolução, p.69]

janela
quando abro a cada manhã a janela do meu quarto
é como se abrisse o mesmo livro
numa página nova...

[A cor do invisível:
Hoje é outro dia, p.05]
andarilhos
esses inquietos ventos andarilhos
passam e dizem: vamos caminhar.
nós conhecemos misteriosos trilhos,
bosques antigos onde é bom cismar


[A rua dos cataventos:
excerto de Esses inquietos ventos andarilhos, p.43]


navios
no movimento
lento dos navios
o dia sonolento
vai inventando variações de luz (...)
as coisas também querem partir.
as coisas também querem chegar.


[Água - Os últimos textos de Mario Quintana:
Porto de Suape, p.22]
encantação
as casas cerraram seus milhares de pálpebras.
as ruas pouco a pouco deixaram de andar.
só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças.
tudo está sob a encantação lunar


[Apontamentos de história sobrenatural:
excerto de Lunar, p.20]
ar
... e levada pelos sinos,
toda ventando de sinos,
dança a cidade no ar.


[Lili inventa o mundo:
excerto da Canção do primeiro do ano, p.38]


...e no abojo, circunscrevendo,
piazzolla no romance del diablo

Em bilhete dirigido ao pré-socrático Heráclito, diz Quintana a respeito de si: "Tudo deu certo, meu velho Heráclito, porque eu sempre consigo atravessar esse teu outro rio com o meu eu eternamente outro".


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