sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

da lava ao ladro

Richard Wagner é o gênio mais paradoxal da história da música. Não nasceu músico, como tantos outros compositores célebres, experimenta um pouco de tudo como diletante e finalmente escolhe a música por influência da emoção sentida ao ouvir as sinfonias de Beethoven. A enorme literatura a seu respeito limitou-se a tornar mais obscuro seu pensamento e mais enigmática a sua personalidade. Aqui, a clave de dó - a menos conhecida - a representá-lo. Wagner criou a própria lenda compondo sua autobiografia, voluntarista, empreendedor, calculista, há de enganar sempre todos: as mulheres, os amigos, o seu benfeitor real e a si próprio. Nada nele parece espontâneo, nem sequer o amor. O amor que decide sentir por Mathilde Wesendonck é a experiência de que precisa para compor Tristão. "Tu estás condenada a morrer para me dares a vida", escreve-lhe. Acabada a obra, abandona Mathilde. É certamente o herói de um romantismo em declínio. "Um belo pôr-do-sol que se julgou ser uma aurora" - dirá Debussy. E a sua obra é a realização de um velho sonho: fazer da arte uma religião que há de transformar o mundo. Mesmo sobre o profano irredutível, sua música exerce um fascínio. Nem o espírito nem os sentidos resistem à poderosa lentidão das intermináveis sinfonias com canto, grandes rios sagrados ao longo dos quais se elevam vozes. Lentamente a razão estabate-se como sob o império de um delicioso veneno.
"Parece, por vezes - escreve Baudelaire - ao ouvir esta música ardente e despótica, que se encontram, pintadas sobre um fundo de trevas, rasgadas pelo sonho, as vertiginosas concepções do ópio."
Não se pode explicar melhor esta espécie de voluptuosa narcose em que nos mergulha a música de Wagner. A sua principal originalidade é esta continuidade irresistivel que impõe o chavão do rio ou da torrente de lava. Em sua obra, a ausência de repouso cria o sentimento de um tempo irracional, sem polaridade, em que o espírito flutua como acontece com as coisas imponderáveis. Na ópera, Wagner decidiu fundamentar o primado do drama, mas confirmou com brilho o primado da música. A sua arte é essencialmente musical: a música conduz o drama, define caracteres, representa as situações psicológicas e nos permite uma viagem longa e diversificada. É claro que se trata de uma pura dramaturgia musical. É a beleza da sinfonia que nos faz aceitar que Tristão e Isolda se pareçam com Siegried e Brunilde ou que Parsifal eleve à condição de dogma a confusão dos valores. O gênio está na criação de uma hipnose, pela continuidade melódica e sinfônica, e no estabelecimento de associações psicológicas pela reminiscência dos temas condutores.   À margem da reforma wagneriana, e em contradição com seus princípios, a famosa ópera Die Meistersinger Von Nürnberg - Os Mestres Cantores de Nuremberg - leva-nos de volta a um mundo afável. Glenn Gould - entusiasmado e apaixonante como sempre - fez a transcrição para piano desta obra, que soa lindamente em todo o ser.
Confira parte do belíssimo prelúdio do primeiro ato, gravado em janeiro de 1974.
Os sentimentos estão à escala humana, a emoção é reconhecível, o humor e a generosidade protegem-nos de toda a vulgaridade. Nesta obra em especial podemos identificar-nos com os heróis sem nos couraçarmos com virtudes guerreiras; não precisamos de talismã para encontrar na tenda do velho Sachs os cheiros familiares, a bonomia sentimental, a sabedoria sorridente dos justos. Não há nevoeiro que nos abafe, nem um sol negro ensombrece o nosso céu, enquanto aplaudimos o triunfo do espírito sobre a letra e do amor sobre o único malefício que se lhe opõe: a afetação burlesca de Beckmesser. A partitura é de arrebatar o coração, de uma riqueza e diversidade magníficas: nobre, cômica, fresca, sábia, terna e poderosa com medida ...e quem não gostaria de características como estas.


Nenhum comentário: