quarta-feira, 14 de março de 2012

esquinas de origami

na minha cidade tem poetas, poetas que chegam sem tambores nem trombetas,
trombetas e sempre aparecem quando menos aguardados, guardados,
guardados entre livros e sapatos, em baús empoeirados
saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares onde vivem com seus pares, seus pares,
seus pares e convivem com fantasmas multicores de cores,
de cores que te pintam as olheiras e te pedem que não chores
suas ilusões são repartidas, partidas, partidas entre mortos e feridas, feridas,
feridas mas resistem com palavras confundidas, fundidas,
fundidas ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas
não desejam glórias nem medalhas, medalhas, medalhas, se contentam com migalhas,
migalhas, migalhas de canções e brincadeiras com seus versos dispersos,
dispersos, obcecados pela busca de tesouros submersos
fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos que jamais são alcançados, cansados, cansados nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem,
escrevem o que sabem que não sabem e o que dizem que não devem
andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas, como se fossem cometas, cometas,
cometas num estranho céu de estrelas idiotas e outras
e outras cujo brilho sem barulho veste suas caudas tortas
na minha cidade tem canetas, canetas, canetas, esvaindo-se em milhares, milhares,
milhares de palavras retorcendo-se confusas, confusas,
confusas em delgados guardanapos feito moscas inconclusas
andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo que eles vêem nos vão dizendo,
dizendo e sendo eles poetas de verdade enquanto espiam e piram
e piram
não se cansam de falar do que eles juram que não viram
olham para o céu esses poetas, poetas, poetas como se fossem lunetas,
lunetas lunáticas, lançadas ao espaço e ao mundo inteiro, inteiro,
inteiro fossem vendo pra depois voltar pro Rio de Janeiro

Guardanapos de Papel e Milton Nascimento, eu me encanto, ele esquina, lapida   
minhas mais belas dobras de origami.   





     




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