domingo, 25 de março de 2012

a magicar

Arturo Toscanini, Leila Diniz e Béla Bartók, por isso - só por isso - 25 de março deveria ser mais do que uma rua para comércio em São Paulo, porque eles têm em comum a genialidade, a cisma, a impetuosidade, a competência - a humanidade e o devaneio, características que, quando concentradas, produzem diferença no referencial humano de todos nós.
O gênio de Bartók não foi reconhecido em vida. Se considerarmos que as primeiras obras verdadeiramente originais datam de 1908, Bagatelas para piano, mal se pode compreender que um músico tão genial tenha sofrido, durante tanto tempo, a indiferença do público internacional. O estilo sutil e independente nunca se conciliou com as modas sucessivas, sua originalidade é muito profunda para que possa integrar-se nos movimentos musicais contemporâneos. Contudo, a fama de Bartók não se fundamentou na sua obra-prima - Música para cordas, percussão e Celesta, que é, ao mesmo tempo, o resultado de um pensamento musical exemplar e um dos pontos mais altos da arte do século XX. Ali, as mais belas sonoridades de seda, de jade e de cristal parecem ter tido algumas dificuldades para se imporem. Há muito o que ser revisitado em Bartók - é preciosidade pura - aqui, os belos acordes do 2°movimento do Concerto para Orquestra, na regência de Pierre Boulez com a Orquestra de Paris. A obra combina elementos da música erudita ocidental e da música popular do leste europeu, mesclando tonalidades inusitadas, ventos, pios, rumores, danças, num balançar sinuoso e inquietante.


Excluindo-se as primeiras obras, anteriores a 1905, cuja estética ainda indecisa muito deve a Liszt e a Brahms, em 40 anos de atividade criadora Bartók realiza uma síntese muito original da música moderna ocidental e do folclore magiar. A essência da canção popular que alimenta seu pensamento musical, qualquer que seja o modo escolhido, e as inversões cromáticas muito características, dão à melodia um aspecto inimitável. De nacionalidade húngara, referia:
"Kodály e eu queríamos fazer a síntese do oriente e do ocidente. Pela nossa raça, a posição geográfica do nosso país que é, ao mesmo tempo, a ponta extrema do leste e o bastião defensivo do oeste, podíamos aspirar a este propósito. Isto foi-nos possível graças a Debussy, cuja música acabávamos de conhecer e nos iluminava."
Bartók assimila os caracteres rítmico e melódico da música popular nas suas obras tão livremente qual um poeta da língua materna. Salvo indicações de origem, incluídas no título, só utiliza nas suas obras as melodias populares autênticas. Seus trabalhos sobre o folclore têm uma qualidade científica excepcional para a época. Poder-se-ía extrair dos escritos e das declarações uma carta da etnomusicologia moderna e seu método de trabalho continua a ser um modelo. A dedicação e o empenho tornam-lhe imprescindível, sua dificuldade preliminar foi conseguir que os velhos camponeses cantassem antigas canções autênticas, preservadas de toda a corrupção e não as canções novas que os filhos traziam da cidade, o que supunha o conhecimento da língua e das tradições locais. Quando atinge este objetivo, Bartók grava num fonógrafo de cilindros a preciosa melodia e recolhe um maior número possível de informações sobre o documento musical, sobre o instrumento eventualmente utilizado e sobre o informador. Depois de ouvir as gravações efetuadas, esforça-se por anotar as canções da forma o mais exata possível. Eis um método que comporta uma ética incontestável, que implica na compreensão fraterna e no respeito absoluto pelas diferentes etnias. Dizia:
"O investigador deve esforçar-se por esquecer qualquer sentimento nacional enquanto trabalha, ao comparar os materias dos diferentes países. A minha verdadeira ideia principal é a da fraternidade dos povos, uma fraternidade contra tudo e contra todas as guerras, todos os conflitos."
O nacionalismo de Bartók é um humanismo. Revoltado com a ascensão do nazismo e pelos ecos que experimenta no seu país, mais do que nunca ligado ao ideal de paz e de justiça universais, Bartók transforma a angústia em energia criadora. A tragédia da tirania e da guerra, o exílio, uma pobreza próxima da miséria, finalmente a doença, acabam com este ímpeto genial e a morte vem marcar o início de sua glória. Era fatal que nem sempre fosse compreendido e que se tornasse popular pelo que não era: um zíngaro. Como Debussy, Béla Bartók é o músico das intuições profundas e das grandes sínteses. Destinado a ir além dos confins do imaginário para defender suas ideias, foi e continuará a ser uma das personalidades mais admiráveis da história da música, percorreu perdas e pedras, avistou portos, avançou em lucidez e desatino, descortinou a noite escondida sob a égide da esfinge sem mistérios - um andarilho dos sons que ousou apontar no horizonte sorrisos que lhe vazavam dos olhos.


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