terça-feira, 22 de maio de 2012

entalhes de silva

Entregue muito novo ao avô e ao tio, dois simpáticos extravagantes, Erik cultivou a mistificação burlesca, aliás, com um belo talento: "nasci muito jovem, num tempo muito velho", dizia. Erik Satie pertence à geração de músicos franceses nascidos entre Debussy e Ravel. Os amigos consideraram-no um genial lanceiro de linha de frente, os inimigos, um mistificador. Nunca se saberá como a si próprio se julgava, no segredo ciosamente guardado da solidão. A personalidade singular e o comportamento insólito serviram para forjar uma falsa lenda, a ideia que se podia fazer de seu talento. Pintores e escritores puseram-no nos píncaros, opondo-o a Debussy, Ravel, Stravinsky. Aliás, estes renderam homenagem à profunda originalidade da sua estética. Mais tarde, com exceção de alguns fiéis, os músicos farão marcha contrária, recusando-se a considerar como um dos seus este gentil farsante que não assume o próprio jogo. Apesar disso, é dono de um belo lugar no templo dos compositores. A sua lenda esconde o músico sutil, criador de alguns acordes perfeitos, e um espantoso precursor. É dadaísta em 1913, três anos antes do nascimento do movimento dada. E, a partir de 1914, dez anos antes do primeiro manifesto do surrealismo, os restos narrativos que acompanham as peças para piano desenvolvendo-se com a música são nitidamente de inspiração surrealista. Em pleno wagnerismo cultiva, nas primeiras obras, um angelismo medieval, adapta aos velhos modos os imperturbáveis encadeamentos paralelos, depois suprime as barras de compasso, inscreve indicações fantasistas nas partituras, expressões como: "com espanto", "passo a passo", "abra a cabeça", e esconde as suas intenções sob títulos misteriosos: Ogivas, Gimnopédias, Gnossianas... Enquanto os músicos franceses estavam fascinados por Debussy, Ravel e o primeiro Stravisnky, Satie compõe suítes para piano, severas, meticulosamente simples e maravilhosamente insolentes, a que dá títulos interessantes e mistificadores: Prelúdios flasques, Peças frias, Descrições automáticas, Embriões secos, e outras. Em 1916, compõe Parade, sua partitura mais importante, executada no ano seguinte pelos bailados russos, no meio de uma balbúrdia indescritível:
"Um orfeão carregado de sonhos", escreve Jean Cocteau, autor do argumento.
"Um fundo com certos ruídos que Cocteau acha indispensáveis", declara Satie radiante, com uma modéstia hipócrita. Quer, para o futuro, compor uma música de mobiliário, uma música decorativa, que renuncia a qualquer expressão, mesmo humorística - quer, mas não consegue. Eis que esta estética não se liga a nenhuma corrente contemporânea, mas influenciou fortemente uma parte da música entre as duas grandes guerras e inspirou a Satie as suas mais belas composições: Parade, o admirável Sócrates, cinco Noturnos para piano, dois outros bailados, Mercúrio, para as Soirées de Paris de Étienne de Beaumont, com cenários de Picasso, e Relâche, para os bailados suecos, com Entr'acte cinematográfico, de René Clair. Era ao mesmo tempo subversivo e modesto. Tinha espírito de contradição a mais para ser um epígono e demasiado humor para se tornar sério, e é de uma sutileza e doçura arrebatadoras - aqui, Erik Satie, Trois Gymnopédies
Satie, dono de uma geografia melódica particular, entre florações, alagamentos e abismos, remete-nos aos passeios dos sonhos, aos bons encontros. E nas chuvas, no inverso do senso comum, o rumo é a estrada, o caminho, a rua, é abrir a janela pra acolher o cheiro de terra molhada. ...E ainda, no fôlego, a inclusão de solo, água e ar, na interpretação de Jacques Loussier Trio, Gnossiennes ou Gymnopédies, em ordem ou desordem.



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