quarta-feira, 2 de maio de 2012

estribo de prata

Ele foi um inovador, cuja importância teria sido mais sentida se sua obra desconcertante não tivesse sido eclipsada por Debussy. Além das suas fronteiras, a arte sutil de Gabriel Fauré está próxima da Art poétique que Verlaine ilustra e define, e é geralmente considerada como específica da cultura francesa no que ela tem de mais original e de mais inexportável. É verdade que a beleza secreta da obra de Fauré, cuja parte mais preciosa, excetuando o admirável Quarteto de Cordas, está contida nas últimas antologias de peças para piano, mas a beleza desta música nobre e serena só se revela ao amador cultivado que há de saber descobrir na sutileza harmônica, onde geralmente a melodia decorre, o segredo de uma sensibilidade musical singular. O seu gênio original deve pouco ao mestre e amigo Saint-Saëns e nada a Lizst ou Wagner, que admirava, com prudêcia. Criou uma escrita pianística minuciosamente não conformista, de que a geração seguinte será tributária. A harmonia comovente, com suas notas celestes em ruptura de equilíbrio, foi livre e original. É o criador de um tipo de melodia francesa inseparável da cultura nacional. Viveu o suficiente para ser confrontado com os seus discípulos na derradeira realização de uma obra que tende para a purificação de seu próprio estilo. Pavane, op.50, é um bom exemplo, aqui registrada na interpretação e condução de Bobby McFerrin e, nos fachos de luz, a Orchestra Filarmonica della Scala.

Permanece, contudo, muito sensível às pesquisas dos alunos, que admira e encoraja com uma notável inteligência do futuro da música francesa. Sua pedagogia é um ato de amor e Ravel, seu discípulo, conservou a memória da bondade transbordante, da intuição e abertura de espírito, em Fauré. No entanto, se toda a gente presta homenagem a Fauré, os seus intérpretes são hoje raros e o público limitado; não se encontrou uma personalidade suficientemente forte para propor uma estética capaz de se substituir ao wagnerismo. O fato é que, qualquer que seja a importância histórica da renovação de que Fauré foi promotor, nenhum músico francês desde Berlioz teve o gênio e o esplendor internacional que tiveram Debussy e Ravel. Mas algumas obras são preciosas, aqui a musicalidade de Fauré para o poema de Paul Verlaine - Clair de Lune - o mesmo poema que inspirou Debussy no terceiro e mais famoso movimento da Suite Bergamasque.

Clair de lune, op.46 n°2, Fauré
a soprano, Régine Crespin, o piano de John Wustman e a letra, o poema:
Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques,
Jouant du luth et dansant, et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques!

Tout en chantant sur le mode mineur
L'amour vainqueur et la vie opportune.
Ils n'ont pas l'air de croire à leur bonheur,
Et leur chanson se mêle au clair de lune,

Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver, les oiseaux dans les arbres,
Et sangloter d'extase les jets d'eau,
Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.
...é que ouvir Fauré hoje é revisitar pormenores em quarto-crescente, é sonhar improviso em céu de diamante, é voar sereno sobre estribo de prata.


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