quinta-feira, 21 de junho de 2012

sobre botas e botões


...são nos afetos e é na voz humana que se encontram as fontes mais naturais e antigas
com as quais se pode produzir um determinado tipo de música - da fala, à escrita, à imaginação - os livros. Tal como se tratasse de um instrumento de couro, de cana ou de lingueta, o som produz-se pelo movimento de um corpo vibratório, na fala, o das duas pequenas cordas vocais que se encontram ao longo da faringe. Só quando se sussurra ou quando se assobia não se põem em vibração as cordas vocais ...e a leitura é isso - esse ar, esse sussurro, esse assobio - essa qualidade específica da imaginação que nos remete ao silêncio musical dos livros. Considerado como o que é - um instrumento - a voz humana tem quatro registros principais: pra mim, Machado de Assis é um deles.
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... E caem!
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881, capítulo LXXI
No senão do livro, Turíbio Santos, num prelúdio n°1, do Villa-Lobos, pro Machado



Nenhum comentário: