quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

pelos nomes que elas são

OBJECTO

do poeta português José Carlos Ary dos Santos,
declamado por ele mesmo.

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.

Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e o cão não passa de um cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um caco
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda

E se o literato for de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escrevemos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão.
Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

REencontro nestes versos uma rima especial, a do poder das palavras que, em amplo significado, também é aquilo que não é dito e compõe o silêncio. Aprendemos palavras para melhorar os olhos; elas têm sentido se nos ajudam a ver melhor o mundo. Estar atento às palavras que, aliás, estão intimamente ligadas aos gestos, é nosso grande desafio existencial. Palavra pra mim é coisa sagrada: é feita de intenção, serve pra esclarecer, pra empenhar, pra dar, pra medir, revela um objeto, veste um gesto, imprime uma lembrança... gosto até de molhar a palavra.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

do lado escuro da lua


tudo que você toca, tudo que você vê
tudo que você prova, tudo que você sente
tudo que você ama, tudo que você odeia
tudo que você desconfia, tudo que você salva
tudo que você dá, tudo que você negocia
tudo que você compra, mendiga, empresta ou rouba
tudo que você cria, tudo que você destrói
tudo que você faz, tudo que você diz
tudo que você come, todos que você conhece
tudo que você vê passar rápido
todos que você briga
tudo que é agora
tudo que já passou
tudo que virá...
e tudo está alinhado debaixo do sol
mas o sol está coberto pela lua.

Eclipse, Pink Floyd, Dark Side of the Moon.

Nesta virada pra 2011, a trilha é por Pink Floyd. Eles foram um divisor de águas pra mim... apuradores de sensibilidade, ajudaram a decidir o que eu queria aprender e como usufruir do aprendizado. Do ponto de vista de quem observa da terra, o lado escuro é o lado não visível da lua. Não por acaso, cada um vê o que consegue ou se dispõe a ver. Minha sombra projetada por esta luz é uma boa prova da minha existência e deixa isso cada vez mais claro!



domingo, 26 de dezembro de 2010

pia, pia, Piazzolla!


Criada de (e entre) tango e fado, Adios Nonino tem significado especial pra mim. A mais brilhante estrela da constelação de Piazzolla foi composta em 1959, quando da morte de seu pai, Vicente "Nonino". Vinte anos depois, ele diria:
"Talvez eu estivesse rodeado de anjos. Foi a mais bela melodia que escrevi
e não sei se alguma vez farei melhor
."
Nesta reta final de 2010 fica suspensa sobre a pista a sinalização: tem músicos e músicas que são assim... só um minuto de silêncio no fim ajuda a recompor!


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

compondo o belo com o necessário

Hoje, 23 de dezembro, no ano de 1806, estreava em Viena, o Concerto para Violino de Beethoven, numa apresentação beneficiente para seu colega Franz Clement, um dos principais violinistas da época. Desde então, o Concerto para Violino e Orquestra em Ré maior, op.61, tem sido uma das mais bonitas e importantes obras do repertório para violino. Eu acho um concerto digno de um superlativo: belíssimo. Aqui, apenas, o 1°movimento, allegro non troppo, com Carlo Maria Giulini na regência da Filarmônica de Londres, e Itzhak Perlman, no solo de violino.

Sobre Perlman, uma admiração imensa, há muito o que ser dito:
Eis um homem que conduziu sua vida para produzir música com violino de quatro cordas. Numa ocasião, em 1995, no meio de um concerto em Nova York, perde uma corda. Encontra nas três cordas restantes o som que lhe dava a corda faltante e a música que toca é tão bonita quanto qualquer outra que tenha tocado antes, com quatro cordas.
Deixa com isso uma marca na estrada, talvez nossa tarefa neste mundo instável, variante e perplexo em que vivemos seja produzir música, primeiro com o que temos e depois, quando isso já não é possível, produzir música com o que nos sobra.
Música: a metáfora mais bonita.



terça-feira, 21 de dezembro de 2010

long play


Esta foto foi postada em março de 2010 e é de um cara chamado André Cirelli ...é mágica e ao mesmo tempo real!
E a pergunta que ecoa não é minha, é do Saul Varanda: Que som será que tem esse canyon? E se existisse um agulhão capaz de "reproduzir" os relevos do mundo, que sons sairiam?


Bonito ponto de partida, mas que bela clave de sol para o início de uma pauta! A foto, um único sulco num disco de vinil ampliado mil vezes, mistura música, imagem e arte, como forma de produzir e transmitir o que é sublime. Parcerias, parágrafos, possibilidades e poesia, está tudo nos meus vinis, som, ruído e ranhura entrelaçados no tempo. Eu, que quase todos meus caminhos os fiz com trilha sonora, lado A e lado B, voo pra onde a pergunta do Saul me leva; afinal, que som sairia? E mesmo que eu esteja falando grego com a minha imaginação, só me ocorre a resposta do Chico e do Edu... Som bonito, não importa, são bonitas as canções. Mesmo miseráveis os poetas os seus versos serão bons. Mesmo porque as notas eram surdas quando um deus sonso e ladrão fez das tripas a primeira lira que animou todos os sons. Seria assim pra mim.

Do Long Play:
O disco de vinil, mídia desenvolvida no início da década de 50, é nada menos que um disco de material plástico, normalmente cloreto de polivinila, ou PVC, usualmente de cor preta, que registra informações de áudio, as quais podem ser reproduzidas através de um toca-discos. O disco de vinil possui micro-sulcos ou ranhuras em forma espiralada que conduzem a agulha da borda externa até o centro no sentido horário. É uma gravação analógica, mecânica. Esses sulcos são microscópicos e fazem a agulha vibrar. Essa vibração é transformada em sinal elétrico. O sinal elétrico é amplificado e transformado em som audível, a música.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

pondo a carta na mesa

Por onde eu ande Portugal e Espanha estarão comigo e aqui não é diferente. Haverá um dia em que alugarei um carrinho e andarei com rumo mas sem destino por lá; sonho recorrente que me faz querer avançar. Por isso e pela beleza, por vezes ando com Jorge de Sena, autor desta carta de 1963, mas de relevância e atualidade imensas! Eu, que escolhi não ter filhos, leio, releio e mantenho viva, se não pelos filhos dos outros, então pelos outros filhos que já se foram. Afinal, a direção é tão importante quanto a velocidade no empenho em guardar o mundo respeitosamente. O que vale, vale pelo quanto a gente acredita e faz.

Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso. É possível, porque tudo é possível, que ele seja aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo, onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém de nada haver que não seja simples e natural. Um mundo em que tudo seja permitido, conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer, o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós. E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto o que vos interesse para viver. Tudo é possível, ainda quando lutemos, como devemos lutar, por quanto nos pareça a liberdade e a justiça, ou mais que qualquer delas uma fiel dedicação à honra de estar vivo. Um dia sabereis que mais que a humanidade não tem conta o número dos que pensaram assim, amaram o seu semelhante no que ele tinha de único, de insólito, de livre, de diferente, e foram sacrificados, torturados, espancados, e entregues hipocritamente à secular justiça, para que os liquidasse "com suma piedade e sem efusão de sangue." Por serem fiéis a um deus, a um pensamento, a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas à fome irrespondível que lhes roía as entranhas, foram estripados, esfolados, queimados, gaseados, e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido, ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória. Às vezes, por serem de uma raça, outras por serem de uma classe, expiaram todos os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência de haver cometido. Mas também aconteceu e acontece que não foram mortos. Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer, aniquilando mansamente, delicadamente, por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus. Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror, foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha há mais de um século e que por violenta e injusta ofendeu o coração de um pintor chamado Goya, que tinha um coração muito grande, cheio de fúria e de amor. Mas isto nada é, meus filhos. Apenas um episódio, um episódio breve, nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis) de ferro e de suor e sangue e algum sêmen a caminho do mundo que vos sonho. Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la. É isto o que mais importa – essa alegria. Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto não é senão essa alegria que vem de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém está menos vivo ou sofre ou morre para que um só de vós resista um pouco mais à morte que é de todos e virá. Que tudo isto sabereis serenamente, sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição, e sobretudo sem desapego ou indiferença, ardentemente espero. Tanto sangue, tanta dor, tanta angústia, um dia – mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga – não hão-de ser em vão. Confesso que muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos de opressão e crueldade, hesito por momentos e uma amargura me submerge inconsolável. Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam, quem ressuscita esses milhões, quem restitui não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes aquele instante que não viveram, aquele objecto que não fruíram, aquele gesto de amor, que fariam "amanhã". E, por isso, o mesmo mundo que criemos nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa que não é só nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamente em memória do sangue que nos corre nas veias, da nossa carne que foi outra, do amor que outros não amaram porque lho roubaram.

Jorge de Sena, “Metamorfoses, seguidas de Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, Lisboa: Moraes,1963.

"Los fusilamientos del 3 de mayo de 1808 en la Montaña del Príncipe Pío",
Francisco de Goya, 1814, óleo sobre tela, Museu do Prado, Madri.
Para ouvir a carta na íntegra pela voz de Mário Viegas, clique aqui.


sábado, 18 de dezembro de 2010

sombra com as mãos



A postagem anterior, de Chauviré, além do encanto, trouxe mais um bem, o encontro desta pérola:

Hand Shadows
Desenhos originais de Henry Bursill
Publicado por Griffith e Farran,
em 1859

Link para ver ebook direto da internet

Link para baixar ebook completo


Abaixo, prefácio desta edição do livro na língua de origem, pela beleza do depoimento.



I need not explain how these Shadows were suggested, to any one who has seen WILKIE'S picture, "The Rabbit on the Wall." But by what pains they were invented can never be revealed; for it is known to my tortured digits alone, and they, luckily for me, are dumb. I calculate that I put my ten fingers through hundreds of various exercises before my "Bird" took wing; my left little finger thrills at the memory of "Grandpapa"; and my thumbs gave in no less than twenty times before "Boy" was accomplished. Yet now how easy it is to make the "Duck" to quack, the "Donkey" to bray, "Toby" to wag his tail, and the "Rabbit" to munch his unsubstantial meal.Of course the Shadows are not to be reproduced perfectly, on "one trial only"; but I believe that in each case I have drawn the due position of the fingers with such care, that the most difficult subject may be accomplished after a few minutes; nor need ingenious youth or parental fondness confine their endeavours to the sketches contained in this book. With a little ingenuity and some patience, new shadows may be produced; and not unfrequently figures appear that one never dreamed of attempting. Other Books of Shadows have been published; but it will be seen at a glance that mine bears affinity to none. Some of my sketches were made years ago, others when a student at the Academy. Indeed, the Shadows have often been displayed on the walls of my studio, much to the amusement of fellow-students, who would, I am sure, at any time bear witness to their originality.
HENRY BURSILL, december, 1858.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

a significar o movimento

Yvette Chauviré, em The Swan, de Camille Saint-Saëns
...é como escorregar nos ponteiros de cima do criado-mudo,
voltar no tempo e reencontrar a bailarina na caixinha preta.

O Carnaval dos Animais, uma suíte com 14 movimentos, foi composta em 1886. O Cisne é o XIII, com dança também coreografada por Saint-Saëns; o único movimento que ele autorizou a publicação. Os outros movimentos só foram publicados depois de sua morte.
Na década de 30, Yvette Chauviré investe cada movimento de significado. Nesta época pensava-se impossível ficar em ponta. A bourrée simples, sustentada de forma contínua, era em si um grande feito técnico e ainda é.
Hoje, com 93 anos, Chauviré nos vem provar que viver requer certa disciplina, como a que mantém no ar a bailarina.
Esse vídeo me fez reincluir no cotidiano um fazer antigo mas nunca esquecido e a garantia de que apenas luz, mãos e parede bastam pra voar. Clique aqui e experimente.
... E por que não ver outras possibilidades também por aqui?


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

a força do poema


Fabrico um elefante de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira tirado a velhos móveis talvez lhe dê apoio. E o encho de algodão, de paina, de doçura. A cola vai fixar suas orelhas pensas. A tromba se enovela, é a parte mais feliz de sua arquitetura. Mas há também as presas, dessa matéria pura que não sei figurar. Tão alva essa riqueza a espojar-se nos circos sem perda ou corrupção. E há por fim os olhos, onde se deposita a parte do elefante mais fluida e permanente, alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante pronto para sair à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê em bichos e duvida das coisas. Ei-lo, massa imponente e frágil, que se abana e move lentamente a pele costurada onde há flores de pano e nuvens, alusões a um mundo mais poético onde o amor reagrupa as formas naturais.

Vai o meu elefante pela rua povoada, mas não o querem ver nem mesmo para rir da cauda que ameaça deixá-lo ir sozinho. É todo graça, embora as pernas não ajudem e seu ventre balofo se arrisque a desabar ao mais leve empurrão. Mostra com elegância sua mínima vida, e não há na cidade, alma que se disponha a recolher em si desse corpo sensível a fugitiva imagem, o passo desastrado mas faminto e tocante.

Mas faminto de seres e situações patéticas, de encontros ao luar no mais profundo oceano, sob a raiz das árvores ou no seio das conchas, de luzes que não cegam e brilham através dos troncos mais espessos. Esse passo que vai sem esmagar as plantas no campo de batalha, à procura de sítios, segredos, episódios não contados em livro, de que apenas o vento, as folhas, a formiga reconhecem o talhe, mas que os homens ignoram, pois só ousam mostrar-se sob a paz das cortinas à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite volta meu elefante, mas volta fatigado, as patas vacilantes se desmancham no pó. Ele não encontrou o de que carecia, o de que carecemos, eu e meu elefante, em que amo disfarçar-me. Exausto de pesquisa, caiu-lhe o vasto engenho como simples papel. A cola se dissolve e todo o seu conteúdo de perdão, de carícia, de pluma, de algodão, jorra sobre o tapete, qual mito desmontado. Amanhã recomeço.

Do livro A Rosa do Povo, O Elefante, de Carlos Drummond de Andrade, 1945.
É possível escutar o ator Paulo Autran recitando esse poema no youtube aqui.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

vontadedanadadereouvirisso:


Impromptu N°4 em Dó sustenido menor, Op.66, Fantaisie-Impromptu.

Sobre Chopin? "Tirem os chapéus, senhores, um gênio!", dizia Schumann.
Sobre Allan Grando? Brasileiro, 25 anos, nascido em São Paulo, afina pianos desde os 14 anos de idade e é dono de um ouvido absoluto. Talento indiscutível, mas é bom lembrar: estuda piano 8 horas por dia, porque nenhum talento prescinde de esforço.

De tempos em tempos preciso reouvir certas coisas; mudo eu ou muda o dia, acabo sempre encontrando alguma coisa que não senti na vez anterior. O quanto há de novo dentro de mim é minha inquietação mais constante. Com os impromptus para piano, de Chopin, funciona exatamente assim. E tal como o nome mesmo diz, feito de improviso, quase sempre me renovo com as sensações que me vêm... depois, tal como meu nome diz, me refaço rejane: erre, depois vem o e, o jota, o a, o ene, o e, só aí que vem o resto, que pode ser um ponto.


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

respingos de um conto

Das respostas da arte: uma forma especial de riso, talvez a melhor delas - o riso compartilhado - e uma forma especial de encontro, aquele que produz calma. Escolhi o 1°movimento do Concerto para Violino e Orquestra em Ré maior, Op.35. É com esse Allegro moderato que Tchaikovsky produz uma das cadências mais lindas de todo o repertório do violino.
Aonde quer que se esteja, quando se tiver 13 minutos de internet, vale a pena ver e ouvir o excelente Jascha Heifetz, sob a regência de Fritz Reiner, geniais e necessários, no fragmento do filme "Carnegie Hall", de 1947, e aproveitar todas as nuances de tons entre o preto e o branco. Faz bem para alma mas, principalmente, nos devolve a fé na humanidade! ...E que a arte sempre nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba!

domingo, 5 de dezembro de 2010

sencientes

A Fish with a Smile é o vencedor do prêmio especial no festival de Berlim, em 2006, de roteiro baseado no livro escrito por Jimmy Liao. Os diretores Jay Shih, Alan Tuan e Poliang Lin, e a música de Chien-Ci Chen fazem do curta de animação de Taiwan um convite à liberdade, com uma narrativa bem estruturada e a bela sutileza asiática.
Minha alma de menina, à espreita de mim, chama pra animação de qualquer tempo e em qualquer idioma. Ela é quem me salva nestas horas; reconheço-a e tomo-a pra mim novamente, pela pessoa que ainda pretendo ser.
Um peixe com um sorriso me fez lembrar aquele velho dito de Vicente de Carvalho:

Ver é um supremo bem, eu insisto em cismar;
se a alma será, talvez, uma função do olhar.



quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

revês, revés

A cada início de dezembro, não me sai do caminho, sempre a mesma pergunta: quanto de quinquilharias de plástico ou sintéticas as pessoas vão querer consumir daqui até o fim do ano? Afinal, o quanto há de plástico no campo visual dá uma boa medida do quanto se está longe da natureza e dá a cota de responsabilidade pessoal disso. Eu não sou cristã, natal pra mim não tem muito sentido, mas felicidade é bom em qualquer época! E respeito ao natal alheio é bom, sempre! Meu vizinho passou por aqui e comentou que a cachorra dele comeu os 3 Reis Magos do presépio... Pensei eu: sábia. Poupou Jesus de ganhar os mesmos presentes de todo ano e cultivar a mesma falta de compromisso da maioria de seus fiéis com o resto do ano, afinal aqueles presentes tinham algum significado. Fico aqui pensando... por que não presentear sustentabilidade... com a vantagem de que quanto mais se usa, mais existe. Reutilizar, reciclar, repensar, abrir mão de consumir tudo a todo o tempo! Não é só a natureza que é responsável pelo que está acontecendo. Eu diria que é a natureza humana, isso sim! A questão é que não se cuida direito do que se consome diariamente, do novo que se quer adquirir, desta compulsão maluca às compras, nem do lixo produzido!
Será indeterminado esse sujeito? Quanto de descartável é a vida?

Todo plástico vermelho que acabar no mar virará alimento de tartaruga... 95% das que chegaram no Projeto Tamar engoliram plásticos vermelhos pensando que eram camarões. Melhor maneira de evitar é não consumir... é possível.



Das rezas:
um terço de tudo que se consumir daqui até o final do ano vai pro lixo ou pro mar.

Que tal rezar por outra cartilha?

Faça 2011 feliz!

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

a ventura


Livros como Dom Quixote, bom mesmo é reler depois da virada de algum século, depois de muito pé e pó. É como se, entre um cafundó e outro, procurasse abrigo em alguma montanha e, na companhia de Rocinante e Sancho, lá encontrasse Cardênio, o dono destes versos. E uma ventura surgisse: a clara noção de que se é a outra parte da história, a parte que a maioria das pessoas não quer ler. Clara noção que não se apaga.