segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

arquetípico






















que venha dois mil e treze
numa série de aventuras 
e reveses
  villa, trenzinho, yamandú



segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

pepitas e ecos

                   à supremacia da simplicidade, 
a delicadeza de ravel em sol. 






segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

sobre ritmo

a vida é viável, voa!   
e o som é assim:   

    em qualquer tempo, 
    seja feliz, faça feliz! 





domingo, 9 de dezembro de 2012

travessia

neste final de ano faça seu sangue andar 
porque a existência é ingente e coletiva: doe sangue 





segunda-feira, 19 de novembro de 2012

entretempo

a um só tempo, um espaço feito de coisas lembradas e esquecidas,
um prelúdio e um alegro.





domingo, 18 de novembro de 2012

cúmplices

há 27 anos calvin, haroldo e eu fazemos uma parceria completa! 
trio-divertimento, k563, allegro, mozart                       
stern, zukerman e rose                       



domingo, 11 de novembro de 2012

colorindo a estrada

Bach, por uma galáxia de estrelas, para o brasileiro de vida maiúscula Oscar Niemeyer.





sexta-feira, 9 de novembro de 2012

espaçograma

desde que saí de casa trouxe a viagem da volta
gravada na minha mão,  enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo, minha própria condução
todo dia é dia dela, pode não ser, pode ser 
abro a porta e a janela, todo dia é dia D
há urubus no telhado e a carne seca é servida
escorpião encravado na sua própria ferida
não escapa, só escapo pela porta da saída
todo dia é mesmo dia de amar-te e a morte morrer
todo dia é mais dia, menos dia é dia D
todo dia é dia D 
Torquato Neto

terramarear atenção
o futuro é hoje 
e cabe na mão 
terramarear atenção
fica a morte por medida
fica a vida por prisão


ao Torquato, ao Carl Sagan, referenciais pra mim, nada menos que pés descalços pro alto, boas almofadas, alguma bebida espirituosa e horas infindáveis de conversa, riso e silêncio




quarta-feira, 7 de novembro de 2012

decurso






por qual calendário nasci
se do tempo que tenho crescido todo dia renasço






  bach, double 
partita n1, em si menor



terça-feira, 30 de outubro de 2012

já mais


:a lua que, plena, a mais se põe. 





terça-feira, 9 de outubro de 2012

pontuando gestos


num ou dois pontos: espana dores    
  




.saint-saëns, le carnaval des animaux, volière
.saint-saëns, allegro appassionato op.43, jacqueline du pré

sábado, 6 de outubro de 2012

acerca de linhas, liberdade e solos



uma leitura possível na verticalidade dos livros,     
prosa ou poesia - a sela e seu arção, selins e um amor tecedor, sobrelinho.     





segunda-feira, 1 de outubro de 2012

rumo da agulha


tira as botinas que há trilhas  





sábado, 29 de setembro de 2012

entrevias









cerzindo o som do vazio
a corda em si, nesta rua 









domingo, 2 de setembro de 2012

mudo













mundo
primavera, pólen,
table ballet, chaplin







sexta-feira, 31 de agosto de 2012

luzeiro


com Bach e com o adágio da sonata n°1, primeiro movimento,   
agradeço profundamente a Ithzak Perlman, de quem recebi muito mais do que entreguei




terça-feira, 28 de agosto de 2012

das sentenças

trena, a lua, a métrica do lume que traduz - inteiramente iluminada pelo sol.       




largo, bwv1056, bach, perlman e zukerman.       

domingo, 26 de agosto de 2012

num traço


_______________________________________________ ...porque a esperança é translúcida.





sexta-feira, 24 de agosto de 2012

labirintos

la noche nos impone su tarea
mágica, destejer el universo,
las ramificaciones infinitas
de efectos y de causas que se pierden
en ese vértigo sin fondo, el tiempo.

la noche quiere que esta noche olvides
tu nombre, tus mayores y tu sangre,
cada palabra humana y cada lágrima,
lo que pudo enseñarte la vigilia,
el ilusorio punto de los goémetras,
la línea, el plano, el cubo, la pirámide,
el cilindro, la esfera, el mar, las olas,
tu mejilla en la almohada, la frescura
de la sábana nueva, los jardines,
los imperios, los Césares y Shakespeare
y lo que es más difícil, lo que amas.

curiosamente, una pastilla puede
borrar el cosmos y erigir el caos.
                                                         - el sueño, la cifra, 1986
                      o grande Jorge Luis Borges, a luz de Bach em sol, espelhos, ...e tigres 





quarta-feira, 22 de agosto de 2012

de ramagens e traços

arabesque n°1 era minha escolha, e bem que podia,
mas piano e clarinete delineiam meu mais belo arabesco pra Debussy.







sexta-feira, 17 de agosto de 2012

dos meus moinhos

movo paz nos meus vergéis   



em Villa, luminoso canto de ave,
Bidu na ária, expande-se encanto


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

aflautar

caminho

shhhhhh! ...a ele, nada menos que um pedacinho do céu,     
Altamiro Carrilho e toda expressão do meu carinho.     




quinta-feira, 9 de agosto de 2012

quinta de escarpa

  há quem faça castelos, com as pedras que encontrei fiz caminhos, percursos de tempo,
nesta clareza
de  polifonia,
na  suavidade
de melódicos
compassos,
eis Prokofiev,
um bárbaro
arrancado da
estepe - e a
inconfundível
n1,  classical,
densidade,
asas, leveza,
e liberdade
artística.








terça-feira, 7 de agosto de 2012

nietzscheficando calvin



            aprendi a andar,






desde então,  passei por mim a correr,  aprendi a voar,
desde então, não quero que me empurrem para mudar de lugar;
agora sou leve,  agora voo,  agora vejo por baixo de mim mesmo
:bolhas de sabão, essas pequenas almas leves, mais entendem de felicidade 







segunda-feira, 6 de agosto de 2012

por leme a meio

reafirmo e me repito, Passacaglia, de Händel-Halvorsen,
Ithzak Perlman e Pinchas Zukerman, no
sentido sutil de fraseado,
humanidades que emocionam, infundem claridade, generosidade e respeito.






sexta-feira, 3 de agosto de 2012

envessada






ravel, mahler, pink floyd, echoes



   a via de compor uma entrelinha de(B)si







terça-feira, 31 de julho de 2012

flotilha

  ateia, não faço oração, não rezo cartilha, também não faço poesia, eu vivo
dos lances - os meus dados de osso - mutatis mutandis, eu vivo de acasos







segunda-feira, 30 de julho de 2012

fidelidades

felicidades
tal qual 
paulo hecker filho 

que costumava deixar livros, bilhetes
e quindins
na portaria de mario quintana
"para estar ao lado sem pesar com a presença"


bach e yo-yo ma,
sei lob und preis mit ehren










sábado, 28 de julho de 2012

alargando as asas

sim, sim, salabim! ...se eis minutos, em tempo verão,
sensível Sancy Stradivarius, e porque há toques que partem de voz, Ivry Gitlis.





quinta-feira, 26 de julho de 2012

isla negra


claro e simples,  voz e silêncio 









domingo, 22 de julho de 2012

n' ária


madeira, disposição, esforço, intenção e fruto - o encanto lírico,
reflexos acetinados dão relevo a uma densidade de afinação ideal a cada corda,
em cada movimento buquês de altitude, menos interferência, mais identidade no terroir

vedrò con mio diletto
l'alma dell'alma mia
il core del mio cor pien di contento
e se dal caro oggetto
lungi convien che sia,
sospirerò penando
ogni momento
Il Giustino, Jaroussky




sexta-feira, 20 de julho de 2012

vertente






uma oficina lítica,

uma pequena ária, uma cavatina








quarta-feira, 18 de julho de 2012

defeso

out of the night that covers me,
black as the pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
for my unconquerable soul.

in the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
under the bludgeonings of chance
my head is bloody, but unbowed.

beyond this place of wrath and tears
looms but the horror of the shade,
and yet the menace of the years
finds, and shall find, me unafraid.

it matters not how strait the gate,
how charged with punishments the scroll,
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Invictus, de William Ernest Henley, 1888
do avesso desta noite que me encobre,
preta como a cova, do começo ao fim,
eu agradeço a quaisquer deuses que existam,
pela minha alma inconquistável.

na garra cruel desta circunstância,
não estremeci, nem gritei em voz alta.
sob a pancada do acaso,
minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada.

além deste lugar de ira e lágrimas
avulta apenas o horror das sombras.
e apesar da ameaça dos anos,
encontra-me, e me encontrará destemido.

não importa quão estreito o portal,
quão carregada de punições a lista,
sou o mestre do meu destino:
sou o capitão da minha alma.

Tenho certeza que muitos outros poemas acolheriam a gratidão pela existência de um sujeito como Nelson Mandela, tal como foi, tal como é. Eis um humano que, muito mais do que escrever,  existiu poema,  dos mais belos - e iluminou caminhos. É uma honra estar com a força e a humanidade de Nelson Mandela no rejaneando.





domingo, 15 de julho de 2012

quietude

  nos campos de peixes, as trilhas embarcadas,
  da ilha do campeche, aonde a lua nasce no inverno,
  júpiter, vênus e terra, no céu de marte, nenhuma estrela.





  
   foto nasa

sábado, 14 de julho de 2012

dies solis

dos relevos, contraposição  
  das melhores pescarias,
  
  iscas lá, tinhas







quinta-feira, 12 de julho de 2012

raio vermelho

amiga da liberdade,
inimiga da opressão,                            
com super poderes de atravessar caixas de ressonância em dias desastrados,
reencontro o desconhecido Giuseppe Brescianello no concerto para violino e oboé, ufa!







quarta-feira, 11 de julho de 2012

remoinho

  acúmulo de raros sentidos,











sons e
sensibilidades próprios,

  a ventura feita de trigo















numas ilustrações  
Antonio Saura,
sorvedouro voo  





segunda-feira, 9 de julho de 2012

no carinho

à Mercedes Sosa,
entrelaço linha, tecido e afeto
                      - toda deferência


tantas veces me mataron, tantas veces me morí,
sin embargo estoy aquí resucitando.
gracias doy a la desgracia y a la mano con puñal,
porque me mató tan mal, y seguí cantando.

cantando al sol, como la cigarra,
después de un año bajo la tierra,
igual que sobreviviente que vuelve de la guerra.

tantas veces me borraron, tantas desaparecí,
a mi propio entierro fui, solo y llorando.
hice un nudo del pañuelo, pero me olvidé después
que no era la única vez y seguí cantando.

tantas veces te mataron, tantas resucitarás,
tantas noches pasarás desesperando.
y a la hora del naufragio y a la de la oscuridad
alguien te rescatará, para ir cantando.

uno se despide insensiblemente de pequeñas cosas,
lo mismo que un árbol que en tiempos de otoño se quedan sin hojas.
al fin la tristeza es la muerte lenta de las simples cosas,
esas cosas simples que quedan doliendo en el corazón.

uno vuelve siempre a los viejos sitios donde amó la vida,
y entonces comprende como están de ausentes las cosas queridas.
por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.

demorate aquí, en la luz mayor de este mediodía,
donde encontrarás con el pan al sol la mesa tendida.
por eso muchacho no partas ahora soñando el regreso,
que el amor es simple, y a las cosas simples las devora el tiempo.



sábado, 7 de julho de 2012

uns contrapontos

Clássico, pela determinação de dar uma forma à música que surgia dele, de controlar e dominar o rigor criativo, muita imaginação transbordante e uma clara sensibilidade.
Romântico, no sentido mais amplo do termo, pelos voos audazes e ilimitados de sua fantasia, os belos matizes noturnos e por um universo musical interior pleno e agitado. Nos grandiosos psicodramas que parecem ser suas sinfonias, as fanfarras e as marchas evocam a morte, as valsas e as ländler, a loucura. Um músico como ele, com um peculiar sentido de humor, tinha forçosamente que escrever singulares, pra não dizer geniais, scherzos, por conta de sua imensa capacidade de invenção. Gustav Mahler - uma humanidade apaixonada, uma imaginação poética, um pensamento filosófico.

* um realejo destruído depois de um tropeço, numa fuga para a rua, e, já adulto, um dos   maiores maestros da história e uma canção da terra.
* uma carta de amor musical enviada para uma alma que só foi ser sua mais tarde, e   depois o traiu.
* um homem de teatro completo, tão grande compositor quanto intérprete, que deixa   uma sinfonia incompleta.
* um triplamente apátrida. "...como nativo da Boêmia, na Áustria; como austríaco, na   Alemanha; como judeu, no mundo inteiro - um intruso em toda a parte, em parte    nenhuma desejado", definia-se.
Aqui, o adagietto, a carta de amor à Alma. O quarto movimento da sinfonia n°5, na condução de Leonard Berstein.



quarta-feira, 4 de julho de 2012

sobretecer

siciliana marca-d'água, urdidura em corda feita de esparto




segunda-feira, 2 de julho de 2012

sobrelanço

se tem uma fatia da humanidade que eu admiro é aquela das pessoas que fazem pães
    
...e mel, schubert, l'abeille    





quinta-feira, 28 de junho de 2012

sobre pepitas, conserto

      à supremacia da simplicidade, a delicadeza de ravel em sol







terça-feira, 26 de junho de 2012

sobre terçado, rubros rubis

foram-se os anéis, sobram riquezas lapidadas,
corda em lume, pátina livre de esmalte,
elos aparados em natureza única,
excelência de raras matizes.



sábado, 23 de junho de 2012

sobre nadir, zênite





                                               em cisco, insisto,

encerra, a pérola, toda sua arte




je crois
entendre encore, bizet

quinta-feira, 21 de junho de 2012

sobre botas e botões


...são nos afetos e é na voz humana que se encontram as fontes mais naturais e antigas
com as quais se pode produzir um determinado tipo de música - da fala, à escrita, à imaginação - os livros. Tal como se tratasse de um instrumento de couro, de cana ou de lingueta, o som produz-se pelo movimento de um corpo vibratório, na fala, o das duas pequenas cordas vocais que se encontram ao longo da faringe. Só quando se sussurra ou quando se assobia não se põem em vibração as cordas vocais ...e a leitura é isso - esse ar, esse sussurro, esse assobio - essa qualidade específica da imaginação que nos remete ao silêncio musical dos livros. Considerado como o que é - um instrumento - a voz humana tem quatro registros principais: pra mim, Machado de Assis é um deles.
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... E caem!
Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas, 1881, capítulo LXXI
No senão do livro, Turíbio Santos, num prelúdio n°1, do Villa-Lobos, pro Machado



terça-feira, 19 de junho de 2012

por tanto mar

a cinzar tiras, a rosa dos ventos, pro chico 

  
e do amor gritou-se o escândalo
do medo criou-se o trágico
no rosto pintou-se o pálido
e não rolou uma lágrima
nem uma lástima para socorrer
e na gente deu o hábito
de caminhar pelas trevas
de murmurar entre as pregas
de tirar leite das pedras
de ver o tempo correr
mas sob o sono dos séculos
amanheceu o espetáculo
como uma chuva de pétalas
como se o céu vendo as penas
morresse de pena
e chovesse o perdão
e a prudência dos sábios
nem ousou conter nos lábios
o sorriso e a paixão
pois transbordando de flores
a calma dos lagos zangou-se
a rosa dos ventos danou-se
o leito dos rios fartou-se
e inundou de água doce
a amargura do mar
numa enchente amazônica
numa explosão atlântica
e a multidão vendo em pânico
e a multidão vendo atônita
ainda que tarde
o seu despertar


domingo, 17 de junho de 2012

fênix


sobre renascer em líquido sincelo, sobre sagração e liberdade, sobre stravinsky - florar





quinta-feira, 14 de junho de 2012

verte brado

arrimar doador numa linha sem nó,  bordando o exercício de mim   



pia tecla, homero de magalhães,  a procura de uma agulha,
ciranda de villa-lobos, no dia mundial do doador de sangue  



sábado, 9 de junho de 2012

preclaro

sobrearco, a via vergasta,
um quase double na voz de Callas, e todo o ciano em luz.





domingo, 3 de junho de 2012

deixe vivo

                                       fora d'água fria,

cara de quê tem sua doação?        





sexta-feira, 1 de junho de 2012

em linha, em vento






via, vereda, li                                      
e letra, evento                     






segunda-feira, 28 de maio de 2012

esfera desdobrada

tirinhas silenciosas, sempre-vivas em acordes de jardim





espargindo pólen,  nos primeiros movimentos,
l'aurore,
eugene ysaye, a luzir com hilary hahn



domingo, 27 de maio de 2012

estrado espiral

à simplicidade, à sutileza e à saúde,
em cada volta inteira eu renasço e me incompleto


num allegro moderato, um buquê de sabores,
no recomeço, pela data,
e por princípio.




quinta-feira, 24 de maio de 2012

estrada enluarada

porque Beethoven resplandece traços fonéticos,
porque há um voo que tinge iluminura neste último movimento,
porque riscar estradas em trança de fado sugere estradar laços na tangente.




terça-feira, 22 de maio de 2012

entalhes de silva

Entregue muito novo ao avô e ao tio, dois simpáticos extravagantes, Erik cultivou a mistificação burlesca, aliás, com um belo talento: "nasci muito jovem, num tempo muito velho", dizia. Erik Satie pertence à geração de músicos franceses nascidos entre Debussy e Ravel. Os amigos consideraram-no um genial lanceiro de linha de frente, os inimigos, um mistificador. Nunca se saberá como a si próprio se julgava, no segredo ciosamente guardado da solidão. A personalidade singular e o comportamento insólito serviram para forjar uma falsa lenda, a ideia que se podia fazer de seu talento. Pintores e escritores puseram-no nos píncaros, opondo-o a Debussy, Ravel, Stravinsky. Aliás, estes renderam homenagem à profunda originalidade da sua estética. Mais tarde, com exceção de alguns fiéis, os músicos farão marcha contrária, recusando-se a considerar como um dos seus este gentil farsante que não assume o próprio jogo. Apesar disso, é dono de um belo lugar no templo dos compositores. A sua lenda esconde o músico sutil, criador de alguns acordes perfeitos, e um espantoso precursor. É dadaísta em 1913, três anos antes do nascimento do movimento dada. E, a partir de 1914, dez anos antes do primeiro manifesto do surrealismo, os restos narrativos que acompanham as peças para piano desenvolvendo-se com a música são nitidamente de inspiração surrealista. Em pleno wagnerismo cultiva, nas primeiras obras, um angelismo medieval, adapta aos velhos modos os imperturbáveis encadeamentos paralelos, depois suprime as barras de compasso, inscreve indicações fantasistas nas partituras, expressões como: "com espanto", "passo a passo", "abra a cabeça", e esconde as suas intenções sob títulos misteriosos: Ogivas, Gimnopédias, Gnossianas... Enquanto os músicos franceses estavam fascinados por Debussy, Ravel e o primeiro Stravisnky, Satie compõe suítes para piano, severas, meticulosamente simples e maravilhosamente insolentes, a que dá títulos interessantes e mistificadores: Prelúdios flasques, Peças frias, Descrições automáticas, Embriões secos, e outras. Em 1916, compõe Parade, sua partitura mais importante, executada no ano seguinte pelos bailados russos, no meio de uma balbúrdia indescritível:
"Um orfeão carregado de sonhos", escreve Jean Cocteau, autor do argumento.
"Um fundo com certos ruídos que Cocteau acha indispensáveis", declara Satie radiante, com uma modéstia hipócrita. Quer, para o futuro, compor uma música de mobiliário, uma música decorativa, que renuncia a qualquer expressão, mesmo humorística - quer, mas não consegue. Eis que esta estética não se liga a nenhuma corrente contemporânea, mas influenciou fortemente uma parte da música entre as duas grandes guerras e inspirou a Satie as suas mais belas composições: Parade, o admirável Sócrates, cinco Noturnos para piano, dois outros bailados, Mercúrio, para as Soirées de Paris de Étienne de Beaumont, com cenários de Picasso, e Relâche, para os bailados suecos, com Entr'acte cinematográfico, de René Clair. Era ao mesmo tempo subversivo e modesto. Tinha espírito de contradição a mais para ser um epígono e demasiado humor para se tornar sério, e é de uma sutileza e doçura arrebatadoras - aqui, Erik Satie, Trois Gymnopédies
Satie, dono de uma geografia melódica particular, entre florações, alagamentos e abismos, remete-nos aos passeios dos sonhos, aos bons encontros. E nas chuvas, no inverso do senso comum, o rumo é a estrada, o caminho, a rua, é abrir a janela pra acolher o cheiro de terra molhada. ...E ainda, no fôlego, a inclusão de solo, água e ar, na interpretação de Jacques Loussier Trio, Gnossiennes ou Gymnopédies, em ordem ou desordem.



sábado, 19 de maio de 2012

estampido

que pulsa veias e rumos,  

martelo e bigorna em meus ouvidos colados,
melodia no espaço encantado, à procura de pérolas, brinco circular.




sexta-feira, 18 de maio de 2012

estampado






sons de barbante,

de brilho