sábado, 31 de dezembro de 2011

dois mil e doze

                                   ou trezentos e sessenta e seis
       eu quero pra mim
e desejo pra todos nós
um 2012 cheio de possibilidades

farto de escolhas conscientes e sustentáveis


...e porque a existência é ingente e coletiva: um villa-lobos, um duo assad, um estudo n°1, um fractal




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

fóton

em sol maior   
quantum de luz, nem sempre claro,
mas definido, breve e sorridente

La Veillée, Yann Tiersen,
no cuidado.




sábado, 24 de dezembro de 2011

contracapa

à esquerda
                                                             em alinhamento de não-lugar,  quase sempre,
encaminhando o final de 2011,  na escolha de onde sempre estou,


para além da faixa de segurança, offramp,
are you going with me, Pat Metheny Group
foto Geison Borges




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

bastão de lume


vivências newtonianas em acordes de sentidos absolutamente poéticos,

sílaba a sílaba, traço a traço, perquiriam qual força prende a lua a sua órbita
... e seria de suma gravidade a não compreensão.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

aférese

há em mim uma dor contrária,
é que se for pra sangrar - doa! 
'través de lanterna mágica, pequenas figuras, sombrinhas,
'stou neste olhar, cena, sorriso, delicadeza, urgência,
'ste 2011 eu fiz, não copiei, nem mandei fazer.


Vivaldi - Concerto para 3 violinos em fá,
Itzhak Perlman, Isaac Stern & Zukerman

e porque dois mais um é mais que três ... neste seu natal  -  doe sangue!





quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

em Villa

águas do tororó nestas ruas que são minhas...
Villa-Lobos, dentro de seu temperamento inquieto e amazônico, sempre teve um espaço sentimental protegido, sereno, voltado para a infância. Suas andanças pelo Brasil afora recolhendo temas populares, folclóricos, canções infantis, produziram o Guia Prático, as Cirandinhas e finalmente as Cirandas, que representam mais uma declaração de amor ao Brasil, desta vez destinadas exclusivamente a piano. Das matrizes originais Villa-Lobos recria ritmos e vozes sem nunca deixar sua imensa criatividade empanar o brilho natural das pequenas canções infantis. Homero de Magalhães, no piano, compreendeu este espírito e nos legou uma versão que prima pela fidelidade aos propósitos de Villa-Lobos, segundo Turíbio Santos. Sua versão é fruto de já acurada e madura compreensão interpretativa. Ele foi o primeiro pianista brasileiro a gravar integralmente as cirandas. Tororó, em tupi, significa enxurrada, água sussurrante... e nesta rua a sonoridade da luz e da lua do caminho.  Mergulhe...  profunde-se em  Fui no tororó  e  Nesta rua, nesta rua.


Villa-Lobos, gênio musical criador - fusão de natural talento e síntese histórica - é de uma personalidade singular e arrebatadora, figura exponencial de educador, foi fundador do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico e da Academia Brasileira de Música, líder e animador de vários movimentos culturais ocupa, até hoje, um lugar de destaque inconteste no panorama musical contemporâneo. Autodidata - foi "chorão" em sua juventude - soube interpretar de maneira soberba as origens de nossa música erudita, transportando-a de um estado quase que impessoal para um plano definitivo nos cenários nacional e internacional, através de um monumento sonoro que é todo força e pujança. Segundo encarte original, nas cirandas não vamos apreciar o intrumentador empolgante de Erosão, nem o neo-clássico das Bachianas e dos Quartetos de Cordas, nem o harmonista criativo e agressivo dos Choros, Sinfonias, e do Rudepoema, mas tão somente o realista apaixonado, dos temas populares, sincero e formalmente simples, por isso mesmo eloquente e grandioso. A ciranda das rodas infantis, como forma, apresenta um refrão, intercalado por trovas ou versos ditos por um solista. Captando de maneira inconfundível e individual o espírito destas cantigas, e estruturando uma coletânea que se constitui de verdadeiras jóias musicais, Villa-Lobos em suas 16 Cirandas nos prova uma vez mais e sobejamente, o grande mestre que é, e eis que, utilizando assunto de domínio público e ao alcance de todos, criou obra pessoal e permanentemente válida. Escritas em 1926, ao ouví-las, temos a sensação que são de hoje, num claro acordo com o tempo, num dar a volta, volta e meia vamos dar...   e, na contravolta, nomeio rejane.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

cincho a capricho

moro no aqui e agora   ...e há um dragão deitado ao alcance da vista
como dores
remoídas aos pedacinhos,
em meu olhar mambembe, circense,
eu aprendi
a rir com o palhaço, a cutucar o elefante,
a respeitar o leão,
a torcer pelo equilibrista, a cismar com o mágico e a admirar a bailarina.

Paganini, Capricho n°4 in c minor, não por um qualquer,
tema com variações de uma envergadura
só comparável à grande Ciaccona




sábado, 10 de dezembro de 2011

sábado claricicado

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a benção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
Junto do prato de cada mal convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós, tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo o todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho com os olhos, tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.
Pão é amor entre estranhos.


do livro Felicidade Clandestina, 1971
A Repartição dos Pães, voz de Aracy Balabanian.

Eu não tenho deus, mas o Deus de Clarice não me incomoda. Ela é o brilho de todas as luzes no rumo - minha total reverência à aniversariante - a querida Clarice Lispector.
Ela construiu meus caminhos plenos de gotas, travo, ternura e graça.

"o que o ser humano mais aspira é tornar-se um ser humano"
Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

polifonia

  ...uma dobra verticalizada,  um silêncio plissê.


ravel, midori, tzigane, oriente



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

translado


j'ai longtemps habité sous de vastes portiques
que les soleils marins teignaient de mille feux,

et que leurs grands piliers, droits et majestueux,

rendaient pareils, le soir, aux grottes basaltiques.

les houles, en roulant les images des cieux,

mêlaient d'une façon solennelle et mystique

les tout-puissants accords de leur riche musique

aux couleurs du couchant reflété par mes yeux.

c'est là que j'ai vécu dans les voluptés calmes,

au milieu de l'azur, des vagues, des splendeurs

et des esclaves nus, tout imprégnés d'odeurs,

qui me rafraîchissaient le front avec des palmes,

et dont l'unique soin était d'approfondir

le secret douloureux qui me faisait languir.
A vida anterior
Charles Baudelaire
muito tempo habitei sob átrios colossais
que o sol marinho em labaredas envolvia,
e cuja colunata majestosa e esguia
à noite semelhava grutas abissais.
o mar, que do alto céu a imagem devolve,
fundia em místicos e hieráticos rituais
as vibrações de seus acordes orquestrais
à cor do poente que nos olhos meus ardia.
ali foi que vivi entre volúpias calmas,
em pleno azul, ao pé das vagas, dos fulgores,
e dos escravos nus impregnados de odores,
que a fronte me abanavam com as suas palmas,
e cujo único intento era o de aprofundar
a dor secreta que me fez definhar.

...dezembro e esta tradução não me sai da cabeça:
apelo à quinquilharias de toda sorte - valoradas, vendidas, compradas -
em vento contra, sopro bolhas de sabão, um aspecto lúdico e visceral às dissonâncias.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

florada

flor de sina, momo
                     flor de cinamomo

A ópera e o quarteto de cordas podem andar juntos na obra de um compositor? Mozart não é um bom exemplo neste caso, porque chegou à perfeição em quase todos os gêneros. O brasileiro Carlos Gomes e seus contemporâneos Verdi e Gounod, todos fluentes compositores de óperas, escreveram cada um apenas um quarteto de cordas - o que sugere a dificuldade do desafio. Antônio Carlos Gomes foi o primeiro compositor brasileiro a alcançar renome internacional. Voltado para as lições de Verdi, foi à Europa com bolsa de estudos do governo do Brasil, fixando-se em Milão. O seu - o nosso - O Guarani, Il Guarany, com libreto em italiano, alcançou brilhante sucesso no La Scala, em 1870, anunciando ao mundo que o verdianismo tinha sucessores na América. Menos êxito alcançaram suas óperas posteriores, e o compositor, endividado, voltou ao Brasil, quando lhe sobrava pouco tempo de vida. A Sonata para instrumentos de corda é sua única incursão no gênero camerístico. Aqui o 1°movimento - allegro animato, e o 4°- vivace, desta doce Sonata em ré, num melodismo sensível e contagiante presente desde o início, e purificado pela nobreza do gênero. Este último tempo que, com ares lúdicos, Carlos Gomes batizou Burrico de Pau, pelos efeitos onomatopaicos habilmente conseguidos, deu nome à obra, como fez Schubert com seu quinteto A Truta.   É que todo ofício ensina flor.



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

pairador

parabrisa, pólen,  sopro,  parassóis, sombrinha
                            
Villa-Lobos, Bachianas Brasileiras VI - ária - choro, largo
Orchestre National Radiodiffusion Française, regência Villa-Lobos


terça-feira, 29 de novembro de 2011

pas de deux

como gasto papeles recordándote, como me haces hablar en el silencio
como no te me quitas de las ganas, aunque nadie me ve nunca contigo
y como pasa el tiempo que de pronto son años, sin pasar tú por mi, detenida
te doy una canción si abro una puerta y de las sombras sales tú
te doy una canción de madrugada cuando mas quiero tu luz
te doy una canción cuando apareces el misterio del amor
y si no apareces no me importa, yo te doy una canción
si miro un poco afuera me detengo la ciudad se derrumba y yo cantando
la gente que me odia y que me quiere
no me va ha perdonar que me distraiga
creen que lo digo todo que me juego la vida porque no te conocen ni te sienten
te doy una canción y hago un discurso sobre mi derecho ha hablar
te doy una canción con mis dos manos, con las mismas de matar
te doy una canción y digo patria y sigo hablando para ti
te doy una canción como un disparo, como un libro, una palabra,
una guerrilla,
como doy el amor

Ele passou a vida escrevendo toda a fome. Andarilho das necessidades, versou no horizonte lágrimas que vazavam, respirou o ranger dos portões em cantos e gestos, pisou descalço em cascalhos, andou sobre as próprias mazelas, inflamou janelas e portas ao amanhecer de tons e acordes, e não está no passado, é hoje presente, no dia e na data. Silvio Rodríguez - em tempos zarolhos, o par multivisão da bailarina de Chico Buarque e Edu Lobo, com ele nasci geração e a ele ergo aqui o brinde da verdade.


ojalá que las hojas no te toquen el cuerpo cuando caigan
para que no las puedas convertir en cristal
ojalá que la lluvia deje de ser milagro que baja por tu cuerpo
ojalá que la luna pueda salir sin tí
ojalá que la tierra no te bese los pasos
ojalá se te acabé la mirada constante, la palabra precisa, la sonrisa perfecta
ojalá pase algo que te borre de pronto: una luz cegadora, un disparo de nieve
ojalá por lo menos que me lleve la muerte, para no verte tanto, para no verte siempre
en todos los segundos, en todas las visiones: ojalá que no pueda tocarte ni en canciones
ojalá que la aurora no dé gritos que caigan en mi espalda
ojalá que tu nombre se le olvide a esa voz
ojalá las paredes no retengan tu ruido de camino cansado
ojalá que el deseo se vaya tras de tí, a tu viejo gobierno de difuntos y flores


domingo, 27 de novembro de 2011

transvoo

ladrilhando com pedrinhas de brilhantes
em desenho de música diária, rua minha


Murmuration é o nome dado a um movimento conjunto, uma nuvem, ou um senso de rede, efetuado pelos pássaros chamados Estorninhos. Durante o dia, estes pássaros se dispersam à procura de comida e, no final da tarde, juntam-se num balé aéreo. Acredita-se que fazem isto num sentido de compartilhar informações sobre locais de busca de alimentos, aquecerem-se e protegerem-se de possíveis predadores.

giro lápis meia noite pra ver inteiro sol
brilha, amplio, transvoo, amplia


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

o ré em sol

Educado muito pobremente numa casa miserável do porto de Hamburgo, filho de um contrabaixista em orquestras populares, Johannes Brahms aprende piano com dois bons professores locais. Lê os grandes clássicos e os poetas românticos, mas sobretudo compõe. Aos 14 anos dá o primeiro concerto público com uma de suas composições. Neste período, ganha a vida tocando em tabernas e escrevendo música de cervejaria. E foi numa digressão de concertos que fez amizade com o violinista Joachim, sendo por ele recomendado a Liszt e Schumann, do qual torna-se amigo. Schumann consagra ao jovem compositor um artigo entusiasmado em famosa revista de música de Leipzig - a Neue Zeitschrift für Musik.
Dono de cultura e temperamento puramente germânicos, há na sua obra uma mistura de ternura e peso, de classicismo e romantismo. O interessante é que, diante daquela música do futuro - representada por Liszt e Wagner - Brahms apresenta-se como um tradicionalista;
e, é claro, a sua fidelidade às formas clássicas somada à antipatia pelos Wagnerianos isolaram-no na história do seu tempo. Mas era preciso classificá-lo: encontrou-se a etiqueta fácil de neo-clássico. No entanto, é um pouco contra sua vontade que se tornou porta-estandarte dos meios musicais mais conservadores de Viena. Este clássico, este reacionário, tem apesar de tudo uma alma romântica de Baixo Alemão, alimentado de cantos populares, gosta da ordem e da medida, detesta o estilo empolado, o ornato pomposo, o espetáculo das paixões. Cria um sistema de notação musical para seu próprio uso e afirma:
"inventei os meus melhores lieder de manhã cedo,
enquanto engraxava meus sapatos"

Os Schumann foram os guias de sua carreira e toda a vida manteve a afeição por Clara, submetendo sempre à sua apreciação as composições novas. Durante os dois anos que antecederam a morte de Schumam, Brahms fica em Düsseldorf acompanhando Clara e dedicando-lhe uma amizade que será fielmente alimentada pelos dois até a morte da grande pianista. Por temperamento e por cultura este nórdico pobre, tímido e luterano, não sente nenhuma afinidade em Weimar, onde Liszt o recebe na sua corte, em 1853. A atmosfera falsa onde se desenvolvem os gênios de Liszt e de Wagner só consegue horrorizar um homem que se sente feliz na simples e calorosa hospitalidade dos Schumann. Mesmo a má fala e brusquidão de Brahms são compensadas por profundas qualidades de caráter; nunca cometeu o erro de subestimar Wagner, embora não simpatizasse com sua estética. Sua obra escapa completamente ao neo-classicismo alemão, impondo-se a etiqueta clássica, fazendo dele o terceiro grande B da música erudita, junto com Bach e Beethoven. Sua primeira sinfonia foi apelidade de Décima em alusão ao fato de ser considerado o sucessor de Beethoven. Aqui, o alegro giocoso, 3°movimento do concerto para violino em ré maior, op.77, em solo de Jascha Heifetz - um alegro alegríssimo, digamos assim, por nada menos que autenticidade original.
Sua invenção é suficientemente generosa e pessoal para não parecer, hoje, retrógrada, como o acusavam os seus contemporâneos. Há nele um sentimento de plenitude, de equilíbrio, de boa medida, pela escolha das soluções mais justas, nomeadamente na instrumentação das obras. Ravel, que era uma autoridade suprema nesta matéria, fica maravilhado e afirma:
"A trama sonora de Brahms é pesada e maleável, como devem ser os belos tecidos, falta-lhe transparência mas tem calor. O que acima de tudo o preserva de qualquer secura acadêmica é a generosidade de sua invenção melódica, numa harmonia tradicional, mas riquíssima."
Brahms desenvolve longas e tranquilas frases musicais, de andamento regular, em que é inimitável: a frase que forma a última estrofe da Rapsódia para Vozes de Contralto, coro de homens e orquestra é considerada uma das mais belas melodias da história da música, vale conferir. O certo é que a originalidade de Brahms não reside nas formas nem nas estruturas, mas nas ideias, na simples reconciliação do sonho e da razão, que só em Richard Strauss encontrar-se-á novamente - esta harmoniosa aliança de classicismo e romantismo, de ordem e liberdade, de apolíneo e dionisíaco. Com ele a musicalidade feliz da prosa com exatidão, o presságio de perdas e pedras, o aperto de um parto de perto, a glória das luzes que derramam o sol.


terça-feira, 22 de novembro de 2011

escalinata

o lapidado não necessita litura
lanços de escada a selecionar sensibilidades

Silvio e Mercedes Sosa, iguaria como e com pão e vinho,
pura simplicidade do guardanapo de pano, já nela, clara bóia, vi ela

mi unicornio azul ayer se me perdió
pastando lo dejé y desapareció

cualquier información bien la voy a pagar
las flores que dejó no me han querido hablar


mi unicornio azul ayer se me perdió

no se si se me fue, no se si se extravió

pero no tengo más que un unicornio azul
si alguién sabe de el, le ruego información
cien mil o un millón yo pagaré
mi unicornio azul, se me ha perdido ayer, se fue

mi unicornio y yo hicimos amistad
un poco con amor, un poco con verdad
con su cuerno de añil pescaba una canción
saberla compartir era su vocación

mi unicornio azul ayer se me perdió
y puede parecer acaso una obsesión

pero no tengo mas que un unicornio azul
y aunque tuviera dos, yo solo quiero aquel

cualquier información la pagaré
m
i unicornio azul, se me ha perdido ayer, se fue
espelho, do latim speculu, parte vertical, degrau



terça-feira, 15 de novembro de 2011

sobrescritar

paragens ventilam,  paradouros brilham,  paralelas surgem,  paraísos renascem,
    parâmetros tocam,  remetem à correspondência.


Numero uno: onde alla Cala di Sotto ...piccole - Numero due: onde grandi - Numero tre: vento della scogliera - Numero quattro: vento dei cespugli - Numero cinque: reti tristi di mio padre - Numero sei: campane dell'Addolorata - Numero sette: cielo stellato dell'isola. Bello però, non me n'ero mai accorto che era così bello - Numero otto ...cuore di Pablito.




quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ventilabro

 faúlha, venta linha na graúna






 entre laço e nó,  apanho tope.
   o vento, o toquinho.






quinta-feira, 3 de novembro de 2011

amora de amostra

...há um encontro entre as folhas, íntimo,
partilhado,  de leitura ímpar,
saboreio de identidade que não está à vista,
  em fruto silvestre claro e definido.
El sol sueno, Piazzolla por Gidon Kremer




segunda-feira, 31 de outubro de 2011

o maio de outubro

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,

outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,

surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma

nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.


Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,

colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.

Eu nada te peço a ti, tarde de maio,

senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,

sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de

converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém

que, precisamente, volve o rosto, e passa...

Outono é a estação em que ocorrem tais crises,

e em maio, tantas vezes, morremos.


Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,

já então espectrais sob o aveludado da casca,

trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres

com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro

fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,

sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito

lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.

Nem houve testemunha.


Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.

Quem reconhece o drama, quando se precipita sem máscaras?

Se morro de amor, todos o ignoram

e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.

O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;

não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória

das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,

perdida no ar, por que melhor se conserve,

uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

TARDE DE MAIO, Carlos Drummond de Andrade
Claro Enigma, 1951

Eis um dos poemas mais bonitos que já tive o privilégio de ler e foi escrito pelas mãos deste cidadão brasileiro que aniversaria hoje - Carlos Drummond de Andrade. Com ele a desconstrução necessária no toque do apojo do poema, com ele a dentição que se declara armada de dissonância, com ele a luminária que pisca na velocidade da luz, com ele as reticências de imensa alegria, com ele, a cada releitura, a sensação de que já não se pode mais estalar os sapatos de rubi e voltar para o Kansas. A ele, um enorme agradecimento.





domingo, 30 de outubro de 2011

sete palmos

Ora, se uma madalena, mergulhada na infusão de chá preto ou de tília, pode desencadear em Proust recordações tanto tempo abandonadas, longe da memória, que o fizeram pensar "Em busca do tempo perdido" a ponto de escrevê-lo... na esperança, sempre na esperança, deixo em cima desta pedra um ponto de luz pálido, da mesma forma que o encontrei há anos atrás... foram 3:25 minutos que fizeram diferença na minha vida - a ideia como norte, estas coisas prenhes de vigor, por todos os caminhos, por cada caminho, por cada gesto, na ressonância do sentido.

...e porque há cozinhas que são feitas de pessoas que deixam seu jantar inacabado em algum lugar, o cientista e cidadão do mundo Carl Sagan entrega-nos, em 1994, o livro Pale Blue Dot - Pálido Ponto Azul. O vídeo é um fragamento do livro, com imagens da sonda Voyager, a Terra a 6,4 bilhões de quilômetros de distância, em som de Vangelis, The Music of Cosmos.     Um estalo no vento - é decidir a direção do palmo - claro e simples assim.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

cica triz

  ar [e] ando, encontro.
  por ar em espaços de vibração de silêncio.

Bach, orbital de densidão absoluta

Partita n2, BWV 1004 - Sarabande, Hahn





sábado, 22 de outubro de 2011

pés do caminho

feixe de luz que adentra estrada afora,
toda semente espontânea em cheiro de terra molhada,
tudo que mantém o viço do encontro - silvestre fruto.
traz por um triz, cicatriz ...e um instante d'olvido.


Rastrelli cello quartett,
Piazzolla, Oblivion


domingo, 16 de outubro de 2011

sustenidos

Há muitos cromatismos em música e entre os compositores também. Liszt contribuiu bastante pra imagem deformada que temos dele. Impressionado por Paganini, compõe ao longo do tempo um personagem de virtuose fenomenal que pulveriza os teclados e transfigura, na opinião de alguns, ou desfigura, na de outros, tudo o que toca. Faz do recital de piano o que Paganini fez do recital de violino: um grande espetáculo. Cuida o que toca com o corpo todo e vai ao ponto de mandar por no palco dois pianos passando de um para outro apenas para mostrar seus dois perfis. O públido aprecia particularmente as transcrições, arranjos ou paráfrases de obras conhecidas, em que manifesta uma imaginação e um virtuosismo espantosos. Toca um quase tudo! ...as grandes páginas de ópera, incluindo as de Wagner e Verdi, as lieder de Schubert, as obras para órgão de Bach e as sinfonias de Beethoven. Há quem censure o excesso de imaginação que ele demonstra na execução das obras para piano, imaginação essa com que enriquece o texto original, e, no entanto, é um pianista prodigioso, nisto concordam todos os testemunhos. A fama estrondosa do virtuoso impôs-se em prejuízo do compositor. Na época, o público interessou-se tanto pelo fenômeno pianístico e pelo homem paradoxal que deixou na sombra a maior parte da sua música. A obra de Lizst é muito mais importante do que vulgarmente se pensa. Virou as costas à tradição de maneira particularmente radical, revolucionando a tonalidade, a harmonia, a medida, a forma e a técnica instrumental. Como o seu amigo Berlioz é ao mesmo tempo célebre e desconhecido. Com o seu desprezo insolente pelas conveniências estes dois músicos chocavam mais os contemporâneos do que Schumann ou Chopin, audaciosos, mas convenientes. Há um lirismo generoso em Liszt, mas o que toda a gente admira em Wagner, recusa-se a ouvir em Liszt. Valoriza-se pouco sua obra prima sinfônica, a Faust-Symphonie e o esplêndido poema sinfônico Du Berceau à la Tombe, o que não diminui o valor das composições mais célebres: as espantosas Rapsódias Húngaras, cuja originalidade nos surpreenderia ainda hoje se as ouvíssemos pela primeira vez, os Prelúdios, majestosa sinfonia cíclica e, sobretudo, a Sonata, magnífico e tumultuoso poema pianístico que tanto perturbou Wagner a ponto de dizer a Liszt:
"A beleza desta sonata ultrapassa qualquer imaginação. É grande, afável, profunda, nobre, sublime como tu. Mexeu com os arcanos do meu ser."
Franz Liszt é nada menos que o precurssor e primeiro mestre do poema sinfônico, composição para orquestra de enormes proporções, mas habitualmente num só tempo e que, de forma diferente ao que acontece com a sinfonia clássica, leva uma ideia extramusical, literária, mitológica, filosófica, que a música procura evidenciar. Em 1912, após uma audição do belo poema sinfônico n°12, Les Idéals, Ravel escreve:
"Não haverá qualidades suficientes nesta tumultuosa efervescência, neste vasto e magnífico caos de matéria musical, onde foram beber várias gerações de compositores ilustres? [referindo-se a Wagner, Franck, Richard Strauss, Saint-Saëns, escola russa e francesa] Não devem o melhor das suas qualidades à generosidade musical verdadeiramente prodigiosa do grande precursor?"
Aqui, a intrigante Rapsódia Húngara n°2, executada em piano solo, por Martha Argerich.
E ainda em tempos de 12 de outubro, versão da mesma rapsódia por Tom & Jerry - The Cat Concerto, de Hanna & Barbera, 1946 - pela graça de cada riso infantil.

Na pauta, deixo espaços de semitons por necessidade de avivar esses caminhos esquecidos ou pouco valorados de gente que fez o mundo acontecer de maneira corajosa e revolucionária; a lembrar Rimbaud "...estendi cordas de campanário a campanário; grinaldas de janela a janela; correntes douradas de estrela a estrela, e danço."
E no toque do sol, crio a possibilidade de laços de afetos em varais de reminiscências líricas, num sublinho dentro, n'atividade da compreensão vária, por ares e áreas em tons sustenidos.


sábado, 8 de outubro de 2011

través

alma que amanhece                       ares de Beethoven e primavera
em linha proa-popa - adorno de ventos - eu, Noto.

“(…) O que queria não era diferente do que todos os sonhadores sempre quiseram. Queria construir um lugar onde ninguém explorasse ninguém, e onde as pessoas vivessem juntas sem distinção e diferenças mesquinhas de classe. Sonhava com um lugar onde homens e mulheres pudessem ser lavradores de manhã, poetas à tarde e carpinteiros à noite. [p.65] (…) as palavras são como o vento que faz ondular a superfície da água. O verdadeiro rio corre por baixo, sem ser visto nem ouvido. [p.357] - Maré Voraz, de Amitav Ghosh, ed.Alfaquara, 2008.

na espiral, Szeryng e Rubinstein,
Beethoven, Sonata n5, op.24, 'Spring' in f major, allegro
,


terça-feira, 4 de outubro de 2011

vento ascendendo velas

senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto


sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim


sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes


senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei


senhores professores que pusestes

a prêmio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição


senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

sou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis


senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além


senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs por ordem?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem?


senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa


sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raíz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão

sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever

ó subalimentados do sonho!

a poesia é para comer.


A Defesa do Poeta, Natália Correia
- na voz de Amália Rodrigues, 1968.
sopro ascendendo velas
por movimento de argo



sexta-feira, 30 de setembro de 2011

retrogosto

brilho que venta, via de fato
          funda faísca frágil,  facho em feixe farto


Primavera Porteña, Piazzolla,

vasto velame, voo inebriante.




sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ver seja

parte de alegria, farta a que me cabe
bela, breve, doce, a versejar meu dia

bem-vinda primavera seja, diante de tanto tudo,
respira ária de Lákme, canta em Flower duet, de Léo Delibes,
sentido e direção que exigem delicadeza pessoal em vida que urge.


sous le dôme épais où le blanc jasmin à la rose s'assemble
sur la rive en fleurs riant au matin viens, descendons ensemble!
doucement glissons de son flot charmant, suivons le courant fuyant
dans l'onde frémissante d'une main nonchalante viens, gagnons le bord
où la source dort et l'oiseau, l'oiseau chante.
sous le dôme épais où le blanc jasmin, ah! descendons ensemble!


terça-feira, 20 de setembro de 2011

em dia

todo dia com a data, com a argola da lua cheia e co'a nhapa das três marias,sovo meu laço na fieira destes versos e emparelho os quatro ventos.

era inverno sim, eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas, milongueando sonhos
mas havia em mim, um cismar doentio
de agregar estimas aos atalhos gastos
dos compadres músicos
repartindo as tralhas tendo o olhar recluso
somos dessa aldeia filhos de parteiras
na parelha injusta da cor
somos pensadores sem pedir favores
somos dessa plebe, febre de palavras
na fronteira oculta dos rios
somos cantadores sem pedir favores
caso esta biboca, cova da desova
dilarece o fruto, mastigando o gulo
o sumo, o tudo, o nada
pego essa pandilha e engravido a rima
se amor der sombra, a sesteada é pouca
pra escorar no esteio, os livros, os arreios
o riso humano, o cusco, os ossos
e talvez, amigos, milongueando uns troços.
Milongueando uns troços, Mauro Moraes, voz Bebeto Alves
Gaudêncio sete luas, Luiz Coronel e Marco Aurélio vasconcellos, voz Marco
Com o violão na garupa, Mauro Moraes, voz Bebeto Alves
um caminho afinal, uma ponta de sol
um piquete de luz, uma pampa rural
uma chuva teimosa, uma pedra de sal
uma tropa de corte, uma sorte, uma dança
um arado, uma canga, um atado de cana
uma junta de bois, uma chuva sem mal


[sairei por aí com o violão na garupa
a alma cheia de gente, meus pertences Guarani
que tempos vida, vivi levando a dor aos bocejos,
dá-me um beijo, um gracejo, sem medo de sair]

uma benção materna, uma graça discreta
uma mágoa sincera, uma rapa de mel
uma rima na rédea, quebrando o chapéu
um tostado coiceiro, uma rês desgarrada
uma mata queimada, uma cara de casa
uma prosa de pala, povoando o papel


uma trova em milonga, uma longa invernada
uma nova moçada, uma outra palavra
um futuro passado, um espaço vazio

uma fala esquisita, uma ideia imprevista
uma volta sem ida, uma arte na mira
uma tarde tranquila, um causo de rio

[mais de Mauro Moraes aqui]