domingo, 27 de fevereiro de 2011

acerto com o tempo

Quando vi que há exato um ano atrás, o talentoso Evgeny Kissin fez um concerto pra comemorar os 200 anos de Chopin, em Varsóvia, que incluiu o Estudo Revolucionário, fiquei pensando... aonde será que eu estava, que não estava lá? E uma boa forma de redenção é postar isso ainda hoje, pra rever muitas vezes por aqui.
As biografias romanescas e as interpretações excessivas falsificaram o gênio de Frédéric Chopin com uma obstinação particular. O ar de mistério que se vê neste polonês exilado, a inspiração atormentada, o requinte de estilo, a tuberculose pulmonar, sobretudo, condenaram-no como símbolo do pior pathos romântico. Na lenda de Chopin, duas imagens são particularmente irritantes pra mim, a do pianista de salão e a do tísico, que, aliás, conjugam-se desprezando a história. A obra de Chopin é romântica pela audácia da escrita e clássica pelo pudor e concisão, um compositor de vanguarda, com um avanço de meio século sobre seus contemporâneos. Tem como verdadeiros mestres Bach e Mozart mas, no essencial de sua arte, Chopin não deve nada a ninguém: inventou tudo, resguardando-se conscientemente de qualquer influência. Elegante, espirituoso e reservado, esconde a grande timidez sob uma amabilidade indiferente. Detesta confidências, não fala nem da saúde, nem de seus sentimentos, raramente das ideias.
"Carrega a tua alma na angústia, deixa sofrer o coração, mas que ninguém leia a dor no teu rosto."
Exprime, com isso, sua concepção de arte e, ao mesmo tempo, uma exigência moral. É o primeiro grande compositor a dar a sua obra características específicas de uma música nacional - o caráter polaco. Nenhuma composição de Chopin ambiciona ser sua obra-prima. Encontra-se a mesma originalidade numa Mazurka, nos Estudos ou na suntuosa Barcarolla. O certo é que as soluções apaixonantes aos problemas técnicos que o jovem autodidata deu às duas séries de Estudos, op.10 e op.25, bastariam para fazer dele a personalidade dominante da história do piano. Foram compostas entre os 18 e 24 anos de Chopin, com um inesgotável sentido poético. A primeira série de Estudos, op.10, é dedicada ao seu amigo Franz Liszt. Em setembro de 1831, na Alemanha, Chopin tomou conhecimento que Varsóvia, após luta sangrenta, rendeu-se aos russos, frustrando a insurreição da Polônia. Compõe, então, o Estudo n°12 da op.10, chamado Estudo Revolucionário, onde é possível sentir seu estado de espírito, o desespero soar, e a impressão de um forte ideal de liberdade com dramaticidade e vigor. Ouça e confirme.



sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

quebra-pedras

A mim
nem um vintém sequer
os versos jamais me deram
jamais ganhei mobília do ebanista.
E, salvo duma camisa sempre fresca,
sinceramente
de nada preciso eu.
                              (À Plena Voz, 1930)
Não foram poucas vezes que recorri a Maiacovski,
pra
desenredar a lida diária e, em muitas, me libertou...

Eu, no entanto,
aprendi a amar no cárcere
..................
me enamorei
da janelinha da cela 103
da "oficina de pompas fúnebres"
.....................
então
por um raiozinho de sol amarelo
dançando em minha parede
teria dado todo um mundo.



                              
no meu jardim, com o poeta da revolução,
simples verdes vão além, fura-paredes, quebra-pedras.*
*em mais um convite pra ampliar a imagem, clica na foto.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

desta sorte

Quando se decide falar em ópera muita gente torce o nariz. Sem hábito sonoro, é compreensível que seja assim. Mas se estamos aqui para o novo, a disposição é enfrentar. Engana-se quem pensa que a ópera é apenas uma história encenada e cantada, seria simplificar a arte. Ao realizar a música o compositor escolhe a tonalidade das notas para a marcação dos afetos que serão empregados pelos intérpretes. Ter a compreensão da montagem da cena é fundamental para uma correta interpretação da obra, já que os autores usam metáforas. Na ópera cada nota musical representa um sentimento e uma sensação, e é escrita para ser interpretada desta forma. Por exemplo: o uso intencional e expressivo do silêncio é frequentemente encontrado em composições cujo texto trata da morte ou da eternidade; outras tonalidades, outros afetos.

Em 23 de fevereiro de 1685, um excelente violinista e cravista nasce na Alemanha: Georg Friedrich Händel, além da imprescindível Passacaglia que postei em novembro aqui, é o compositor da ária inicialmente conhecida como Lascia la spina, que mais tarde passou a chamar-se Lascia ch’io pianga, - talvez uma das mais bonitas árias já escritas - da ópera Rinaldo, de 1711.
A ópera versa sobre a Primeira Cruzada (1096-99). Rinaldo, cavaleiro cristão, ajuda na conquista de Jerusalém, em troca, o general lhe oferece, por seus feitos heróicos, a mão de sua filha Almirena. Mas a jovem Almirena é sequestrada. Na cena da ária, Almirena está no jardim do palácio encantado da feiticeira, lamenta seu destino e almeja liberdade. No final, os exércitos cristãos alcançam a vitória e, como em todas as histórias da época, o bem triunfa sobre o mal.
A letra da ária é de uma intensidade poética estonteante, é linda!

"Lascia ch'io pianga mia cruda sorte, e che sospiri la libertà!
Il duolo in franga queste ritorte de' miei martiri sol per pietà."
"Deixa que eu chore minha sorte cruel, que eu suspire pela liberdade!
A dor quebra as cadeias de meus martírios, só por piedade."

Lascia ch’io pianga confirma a habilidade de Händel que consegue unir de maneira perfeita os elementos musicais e poéticos da obra. O tema principal da ária, está na tonalidade de Fá Maior, que não é uma tonalidade característica do lamento, dor e tristeza. Mas a letra enfatiza o lamento, a dor, o anseio pela liberdade; no entanto, Händel surpreende com uma melodia belíssima, calma e afetuosa que traz uma enorme sensação de paz e tranquilidade. O ouvinte atento poderá perceber que o termo "libertà" não só significa liberdade, mas também esperança. É demais!
Experimente ouvir Lascia Ch'io Pianga, na interpretação de Barbra Streisand  
E na interpretação lírica de Cecília Bartoli  
Quem, em algum momento, já não teve uma sorte cruel e suspirou por liberdade?
Goste ou não do gênero é interessante conhecer.



domingo, 20 de fevereiro de 2011

sobre sortimento



Todo poema fala por si, mas José Régio, no Cântico Negro, fala por mim. A vida é mais, a vida é sortida, e sorte tenho eu de encontrar a Gonepteryx rhamni, uma folha - cansada da escravidão - que vira borboleta e me ajuda a mapear meu cântico. Sede da vida como um todo, a borboletear, meu ofício é encontrar saídas.



José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira, nasceu a 17 de setembro de 1901, em Vila do Conde, Portugal, e viveu grande parte da vida em Portalegre.
Sobre o seu nascimento, diria:
«Quando eu nasci, ficou tudo como estava, nem homens cortaram veias, nem o sol escureceu, nem houve estrelas a mais...
Somente, esquecida das dores, a minha mãe sorriu e agradeceu.»
A primeira edição de "Poemas de Deus e do Diabo", hoje rara, data de 1925, nela, o conhecido poema Cântico Negro. Considerada por uns, uma verdadeira revelação artística, foi apontada por outros, como um perigo para a moral e a tradição... A poesia de José Régio, um perigo? Ora, essa!

Cântico Negro

"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços,

E seguros de que seria bom que eu os ouvisse

Quando me dizem: "vem por aqui!"

Eu olho-os com os olhos lassos,

(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)

E cruzo os braços,

E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:

Criar desumanidades!

Não acompanhar ninguém.

- Que eu vivo com o mesmo sem-à-vontade

Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí!

Só vou por onde me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós respondeis

Por que me repetis: "vem por aqui!"?


Prefiro escorregar nos becos lamacentos,

Redemoinhar aos ventos,

Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,

A ir por aí...

Se vim ao mundo,

Foi só para desflorar florestas virgens,

E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!

O mais que faça não vale nada.


Como, pois, sereis vós

Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem

Para eu derrubar os meus obstáculos?...

Corre nas vossas veias o sangue velho dos avós,

E vós amais o que é fácil!

Eu amo o Longe e a Miragem,

Amo os abismos, as torrentes, os desertos...


Ide! Tendes estradas,

Tendes jardins, tendes canteiros,

Tendes pátria, tendes tetos,

E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...

Eu tenho a minha Loucura !

Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,

E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém!

Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;

Mas eu, que nunca principio nem acabo,

Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.


Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!

Ninguém me peça definições!

Ninguém me diga: "vem por aqui"!

A minha vida é um vendaval que se soltou.

É uma onda que se alevantou.

É um átomo a mais que se animou...

Não sei por onde vou,

Não sei para onde vou

Sei que não vou por aí!


sábado, 19 de fevereiro de 2011

levitante

... lá vem ela longe do chão:
  • É que o mês é especial, marca o nascimento de Arcangelo Corelli, em 1653, então, não dá pra não dizer nada sobre isso.
  • É que Corelli fundou o classicismo na música erudita, com a publicação póstuma dos 12 Concerti Grossi, representando uma nova forma de composição que influenciou definitivamente o estilo musical da época.
  • É que o Concerto Grosso acontece pela oposição de 2 grupos instrumentais: um pequeno concerto ou concertino, a maior parte das vezes formado por 2 violinos e um baixo, e um grande concerto ou concerto grosso, que dá o nome ao conjunto e se parece com a sinfonia, tanto pela formação instrumental como pela escrita.
  • É que suas obras foram referência para as criações de caras muito importantes como Bach e Händel.
  • É que em 40 anos de carreira, Corelli produziu 5 livros de sonatas e 1 de concertos, onde tudo está em perfeita proporção, ao mesmo tempo no plano da forma, do estilo e da escrita.
  • É que apesar de pouco conhecida para a maioria das pessoas, sua obra é uma espécie de bíblia da música instrumental e da técnica do violino, dela parte toda a evolução posterior.
  • É que de todas as formas clássicas que sobreviveram até hoje, foi o concerto que mais rapidamente se impôs, com mais força, muito particularmente graças ao gênio de Vivaldi, aluno de violino de Arcangelo Corelli.
  • É que o gosto do contraste, que o espírito do concerto ilustra magistralmente, é a própria essência do estilo concertante e uma das principais características da época barroca.

Adagio do Concerto Grosso para dois violinos, violoncelo, cordas e baixo contínuo em sol menor "Fatto per la notte di Natale", op.6, nº8, realizada com réplicas dos instrumentos originais, por São Francisco Early Music Ensemble, Voices of Music.
É que tudo soa perfeito, assim é Arcangelo Corelli!

Eu, longe do chão, dentro do barroco, mas nada de anjinho. E é na falta de vocação pra anjinho onde moram minhas melhores virtudes.


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

partida inacabada


AJEDREZ - Jorge Luis Borges
I.
En su grave rincón, los jugadores

rigen las lentas piezas. El tablero

los demora hasta el alba en su severo

ámbito en que se odian dos colores.


Adentro irradian mágicos rigores

las formas: torre homérica, ligero

caballo, armada reina, rey postrero,

oblicuo alfil y peones agresores.


Cuando los jugadores se hayan ido,

cuando el tiempo los haya consumido,

ciertamente no habrá cesado el rito.


En el Oriente se encendió esta guerra

cuyo anfiteatro es hoy toda la tierra.

Como el otro, este juego es infinito.


II.

Tenue rey, sesgo alfil, encarnizada

reina, torre directa y peón ladino

sobre lo negro y blanco del camino

buscan y libran su batalla armada.


No saben que la mano señalada

del jugador gobierna su destino,

no saben que un rigor adamantino

sujeta su albedrío y su jornada.


También el jugador es prisionero

(la sentencia es de Omar)* de otro tablero

de negras noches y blancos días.


Dios mueve al jugador, y éste, la pieza.

¿Qué Dios detrás de Dios la trama empieza

de polvo y tiempo y sueño y agonías?


*Omar Khayyam escreveu há 900 anos, no livro Os Rubaiyat: "Somos os peões deste jogo do xadrez que Deus trama. Ele nos move, lança-nos uns contra os outros, nos desloca, e depois nos recolhe, um a um, à Caixa do Nada."

Borges por él mismo, un libro sonoro, ajedrez.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

fé, favos e redes

Imagens e textos mudam a vida da gente. Espaços onde andamos marcam a passada e deixam rastro. Em movimento, deixo por aqui para ser lido e aproveitado um artigo de Ferreira Gullar, publicado em 1980, que contribuiu para nortear minha opção religiosa. O que se vê, ouve e lê faz mudar uma porção de coisas. Sem religião, reforço minha digital: meu muro, sem eira nem beira - paredes, já nelas, favos e redes.

Você e a fé

          A gente nasce com fé ou sem fé? É difícil de dizer-se. É mais fácil que nasça com fé, não fé religiosa, que isso é cultura, vem depois: nasce com fé no mundo – não duvida que ele exista. A dúvida também é cultura, vem depois... é misterioso esse primeiro momento com a realidade. A criança escapa da noite materna, desliza para o mundo de todos, abre os olhos. Deve ser espantosa a impressão que lhe causa o primeiro rosto que vê – como se víssemos um marciano. E depois os objetos, as paredes, depois o mundo com seus barulhos, o amplo espaço que se perde no céu. Mas não, ou nada acontece assim ou, se acontece, apaga-se. A gente aceita o mundo, assimila-lhe a estranheza, acredita nele.
          Depois começa a confusão. Nascer é ser jogado num redemoinho de problemas e aquela confiança tácita no mundo se quebra. O mundo não é só a mãe, o pai, os irmãos. Não é só a casa, o quintal da casa, a rua em frente da casa. A mãe que sorri, nem sempre sorri. As coisas têm dono. O gato morre. As galinhas que passeiam no quintal morrem, são mortas. Não deixam retrato. Filha do vizinho morre afogada na praia. A avó morre na rede. A insegurança nos atravessa, repentina. Como uma flecha de cristal. Voltamos do colégio, o coração batendo, a ver se não morreu ninguém em nossa casa. Não, não morreu, o menino janta feliz...
          A avó morta foi pro céu. O gato também foi pro céu? Não, o gato, não. E o ladrão, que matou o seu Clóvis e foi morto na esquina, foi pro céu? Não, o ladrão não, esse o diabo levou. E o gato, o diabo levou? Não, o gato, não. O menino se senta debaixo da mangueira e medita sobre o mistério do mundo. Como começou tudo isso? O professor explica (numa sala no alto de um sobrado na rua do Alecrim): no começo era uma bola de fogo que girava e os pedaços que dela se desprenderam esfriaram e viraram os planetas. Terra, Marte, Vênus, Saturno... O centro dessa bola é o Sol. O menino sorri – estava decifrado o enigma. Estava? Mas quem fez a bola de fogo? E as outras estrelas? E o espaço do universo, foi Deus, responde Bizuca. Deus fez o mundo, fez as pessoas, fez os bichos, tudo. Deus sabe de tudo, e não gosta de menino malcriado. Quem pratica o mal, quem peca, vai pro inferno. Quem é bonzinho vai para o paraíso... O menino no capinzal, esperando que algum passarinho caia na arapuca que armou, pensa: antes de Deus fazer o mundo, o que havia? Imagina um gigantesco buraco negro e vazio – o nada. Fica assustado, uma vertigem parece arrastá-lo para o fundo desse buraco. O nada... mas o que é nada? Nada, nada? Como pode? Era um vazio só antes de haver o mundo? Então havia um lugar, um lugar vazio. Não, não era um vazio, era nada mesmo. Felizmente, um passarinho caiu na arapuca. O menino se levantou correndo, abriu-a, tomou nas mãos aquele corpinho vivo, que se debatia dentro de sua mão, fazendo o menino sentir a força da vida. Uma alegria como um relâmpago no peito.
          Chovia muito naquela cidade. As nuvens se acumulavam por cima do matadouro, escurecia o céu, dava medo. De repente, uma chicotada de fogo e um estrondo que sacudia o mundo. A água desabava sobre o telhado, como se quisesse pô-lo a baixo. “Cubram os espelhos, cubram os espelhos” Minha Santa Bárbara, protegei-nos.” Lá fora, no céu conflagrado, estrondos e clarões de fogo. O terror, o desamparo. Ainda bem que existia Santa Bárbara, capaz de nos proteger...
          Entre trovões e relâmpagos (festa de São João, o corso na avenida) os anos se passavam. Certa tarde, na quitanda, o sargento músico do Exército, seu Gonzaga, com várias lambadas de cachaça na cuca, desafiou os elementos: cruzou a faca de cortar sabão com a faca de cortar carne acima da cabeça e berrou: “Se Deus existe que ele me fulmine com um raio”. E esperou. O menino na expectativa. Um raio cortou o espaço, A chuva cresceu de força, mas o sargento continuou incólume. Pediu outro trago e derramou na garganta. Cuspiu pro lado: “Não lhe falei, menino? Deus não existe”.
          E o diabo? Será que o diabo existe? Certa noite, um grito aterrador sobre o telhado da casa: era o rasga-mortalha. Seria aquele pássaro o diabo? Um enviado do diabo? Fazia muitos anos, quando a avó ainda era menina numa casa da rua das Hortas, um homem bateu à porta. Era de noite. Ninguém foi atender. Ele bateu de novo. Aí a janela da casa se abriu e apareceu um enorme rosto de fogo. Ele soltou um grito e enlouqueceu. Era o diabo...
          Mas o menino não queria que o diabo existisse. Era-lhe difícil viver aquele mundo de assombrações, pássaros agourentos e castigos eternos. Decidiu-se: às seis da tarde foi para o fundo do quintal e ali, sozinho, invocou o diabo: “Se você existe, demônio, apareça agora para mim. Se não aparecer, não acredito em você”. E esperou, os pelos do corpo arrepiados. O silêncio das bananeiras. Um súbito rumor. Voltou-se. Um pombo levantava voo. Respirou aliviado. O diabo não existe.
          Mas Deus não era menos assustador. Ele via tudo, sabia de tudo, era impossível escapar dele. A filha de seu Piolho estava na sala com a saia levantada, o menino viu tudo. Ficou pensando nela, sonhou com ela. De ver, não teve culpa, mas de pensar. Os meninos se reuniam na casa do rádio, perto da praia do Jenipapeiro e apostavam: quem ejaculava mais longe? Rezava de noite, pedia perdão, arrependia-se. Mas... Deus, para lhe dar o céu futuro, pedia em troca a alegria de viver. Foi comprar banana na porta de uma negra que morava na rua atrás de sua casa. Ela estava deitada numa rede, as coxas à mostra. “Vem cá, menino.” Ele foi. Ela ergueu a saia e abriu as pernas. “Vem.” Teve medo, ela o acariciou, puxou-o para si, respirou quente no pescoço dele. Deslizou no paraíso... Ganhou-o? Perdeu-o. O segredo, a culpa diante dos pais. O pecado diante de Deus. O paraíso futuro ou o de agora, na rede da negrinha quitandeira, recendendo a maracujá?
          O que o incompatibilizou com Deus foi, sobretudo, o ambiente triste e assexuado da igreja do bairro. E a voz do padre. Lá fora, o dia tropical: as margens do rio anil ardendo de sol, o Tijuco recendendo a vila, a podridão, a peixe, a caranguejo, a mulher, a palafita, a gazeta, a aventura, a copa dos citizeiros rumorejando na ventania, as palmeiras descabeladas, doidas de luz e céu, e azul, o ar grosso se desdobrando como um lençol que o vento sacode. Os olhos apertadinhos de Cecília, a boca de Teresinha, as olheiras de Antônia, as pernas da moça que morava na rua do Sol. Nada disso cabia no recinto sombrio e mortuário da igreja de Santa Aninha.
          - Sabe de uma coisa? Acho que Deus não existe.
          - Que que tu ta dizendo, menino?! Bate nessa boca. Cruz-credo!
          - É isso mesmo. O mundo não vai acabar no ano 2000 e esse negócio de inferno é mentira também.
          Era preciso libertar-se do medo, do pecado, da culpa, para poder viver. Sorver com alegria e saúde da verdura, do vento e da chuva de sua cidade.
          As nuvens continuaram a rodar sobre o quintal da casa. Um mês de junho traz a seus olhos os olhos de Marlene, o sorriso dela. Marlene, a inacessível. Marlene, a imprescindível. Marlene, sonho e sofrimento. A infância acaba, a paisagem se mancha. É difícil viver.
          Quando a gente se dá e a outra pessoa não aceita, a vida perde sentido. A rejeição nos reduz a nós mesmos, a nosso corpo quase, à solidão – e a solidão é a mãe de todos os grilos. Põe à mostra a distância que nos separa dos outros e das coisas. Mais que isso, a solidão mostra as coisas: você está aqui e o mundo lá. Você repara na formiga que passa atarefada, conduzindo uma folha – e pensa no formigueiro oculto onde milhões de formigas, brilhando na escuridão, trabalham, se atropelam. E isso é uma minúscula parte do mundo. Quantos milhões de formigueiros existem? E colmeias? E viveiros? E cidades? Casas e mais casas, oficinas, mercados, escolas. As pessoas indo e vindo, falando, comendo, dormindo, brigando... Quanta coisa acontece numa cidade. E na natureza, quanta coisa! Na copa das árvores, dentro do caule, no fundo da terra... Impossível apreender, conhecer, testemunhar. Que sentido tem esse prodígio de fenômenos? E a sensação de que a vida nos escapa? Vivemos uma mínima parte da vida. E, então, a natureza que com suas palmeiras e suas ventanias, seus capinzais e suas praias, incutira no menino a fé na vida e no mundo, mostrava-se agora esmagadora e enigmática: existe lagarta preta e longa, existe lagarta verde e curta, existe lagarta fininha e cor de palha... pra que tanta lagarta? Pra que tanta forma diferente de lagarta? E tantos peixes e tantos tipos de peixe? E tantos pássaros? E um canta de um jeito, outro de outro jeito. E o gato mia. Já pensou nisso? O gato mia – emite um som próprio como se fosse um instrumento musical, um som próprio à sua entranha de gato. Já o som do cachorro é outro. E pra quê? Por quê?
          Deus seria uma resposta apaziguadora: Deus os fez. Ele sabe o que faz, não adianta tentar penetrar os desígnios dele. Há que resignar-se: o mundo não tem explicação. Indagar além de determinado limite é prova de orgulho, pecado. O céu pertence aos pobres de espírito. Ricos de graça: a graça da fé.
          Quem não tem fé caça com gato. É duro. O homem está só e vai morrer. A beleza que a flor lhe comunica, este instante de alegria e descoberta, vai morrer com ele. Esta tarde, esta lembrança que explode dentro de um mictório sujo de boteco, vai morrer com ele. Compreende a importância da fé: se Deus existe, ele vê tudo – a flor e o homem que vê a flor. E então a experiência solitária não é mais solitária – a visão que tudo vê integra todas as coisas na totalidade, revela a universalidade de cada coisa particular. E mais: se Deus existe, tudo o que acontece caminha para ele e se redime em sua eternidade. O homem pode viver em paz.
          Mas, se Deus não existe? Se não há ninguém além de você mesmo vendo a flor que você vê? Se não há ninguém para resgatar da morte a lembrança que você carrega em seu corpo mortal? Você conta para o outro o que você viu. Transfere para o outro a lembrança que vai se perder. Você morre, ele fica – e enquanto ele fica a lembrança vive nele. Se Deus não existe, a transcendência do homem é o outro homem. A ausência de Deus obriga à solidariedade.
          Mas nem sempre. Se Deus não existe – disse Dostoiévski - , tudo é permitido. Logo, Raskolnikof pode matar a velha avarenta. Não haverá castigo, senão o dos homens. Mas se o crime é perfeito...
          Se Deus não existe, todos os problemas se repõem ao nível das pessoas mesmas: elas são responsáveis por tudo – pelo que elas fazem e pelo que os outros fazem. Uma nova ética tem que ser construída.
          O adolescente se torna adulto quando se assume responsável. E não apenas diante do pai e da mãe, mas também diante da sociedade e da própria comunidade humana. Os caminhos para chegar a isso são muitos e nenhuns... E nem todo mundo chega lá. É no próprio processo da vida que, pouco a pouco, certos mitos se dissipam e a realidade revela um lado insuspeitado: a identidade dos interesses e problemas que as pessoas de uma mesma faixa social costumam enfrentar. A descoberta dessa identidade pode ser a porta para uma nova fraternidade que se constrói na luta pela solução dos problemas. E é nesse esforço comum que as pessoas se revelam umas às outras porque revelam umas às outras o que está oculto em cada uma delas: a humanidade – ou seja, aquelas qualidades e virtudes que ultrapassam o individualismo egoísta. As pessoas passam a acreditar nas outras e a acreditar, por isso mesmo, na possibilidade de um mundo melhor, mais fraterno e justo. Essa fé do homem é que fortalece a nossa fé em nós mesmos, sem o que a própria vida perde o sentido. E a fé em Deus se torna uma demissão de homem.
          A sociedade em que vivemos não é muito propícia à afirmação da fraternidade. A própria educação que recebemos - e mais que isso, a vida mesmo a cada momento – nos ensina a ver no outro um competidor. A luta pela sobrevivência, em condições adversas, estimula o egoísmo, a inveja e mesmo o ódio ao semelhante. A divisão se estabelece exatamente entre os que mais unidos deveriam estar: os membros de uma mesma classe social. Só quando se descobrem os interesses mais gerais e fundamentais do nosso grupo social, e da sociedade como um todo é que se consegue superar a divisão e os conflitos que nos afastam uns dos outros. E é aí que, no pleno sentido da palavra, tornamo-nos cidadãos.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

na intenção do intento

Se, ao abrir a postagem, imaginou: Ah... é a 5°, nada de novo, já conheço, não preciso nem ler, nem clicar para ouvir. Se isto realmente acontecer, pouco há que ser feito. Mas, se não está preso e autorizou sua percepção a andar, veja e ouça o 1°movimento desta obra-prima, executada com perfeição pela Filarmônica de Berlim, em 1966, sob a regência do genial Herbert von Karajan.

Em 1808, Beethoven oferece aos espectadores um concerto extraordinário: a primeira audição da 5°Sinfonia. Na época, o público não encontra nesta obra o gênero de prazer que procura, não mostra muito entusiasmo. Dá pra entender o porquê, embora bem conhecida, até hoje é assim. É que esta obra exige muito de quem ouve. É preciso uma constante adaptação à sucessão inesperada dos acontecimentos interiores que os sons refletem. O ouvinte tem que se tornar cúmplice da vontade criadora. Um gesto nada simples, mas pleno de generosidade e respeito. Não encontramos nesta Sinfonia outra expressão a não ser esta transferência de vontade para a obra.
Beethoven, sobre o famoso motivo inicial, disse: "Assim o destino bate à porta". Anuncia, com isso, como o combate faria um sinal do destino. É pra este combate que nos arrasta a Sinfonia. Esta não é uma sinfonia do destino, mas a expressão de uma vontade tensa, cuja única direção é combater e vencer - é lindo!
O contraste entre a ideia metafisica de destino e a imagem realista das pancadas na porta
é um pretexto para a caricatura (largamente explorado pelos humoristas) que afasta os "espíritos cultos" desta obra-prima: dirão que estão fartos de conhecê-la, embora nunca a ouçam. Mas quando a simples célula rítmica, tocada por timbales, chamava a Europa nazificada à luta pela liberdade, toda a gente conseguia compreender o que Beethoven sugeria e o sentido da sua Sinfonia. A cada combate a vencer é assim. É só se dispor a ouvir. Essa é a Sinfonia N°5 em dó menor, op.67, de Beethoven, prazer em conhecer.






sábado, 5 de fevereiro de 2011

li.

Aconteceu de reencontrar num sebo a "Volta da Graúna", do Henfil, e não pensei duas vezes, segurei firme até a abertura da primeira página, já na vinda pra casa. Li a Graúna com todo carinho e cuidado, porque sem cuidado nada que é vivo sobrevive.

E mais nada, além das palavras do editor Luiz Fernando Emediato: "Reler, ou, para as novas gerações, descobrir Henfil e seus personagens é um exercício de cidadania. Ele foi um exemplo de dignidade, coerência e força humana. Ele foi - na pureza dura e paradoxalmente firme de seu traço frágil, mas cortante - um criador. Um patriota. Um lutador."
E do Ziraldo, que apresenta o livro:
"Na Graúna, o mais emocionante personagem do imaginário brasileiro - com sua barriguinha redondinha, uma bolinha preta, perninhas finas feitas de dois pauzinhos e infinitas expressões conseguidas com três tracinhos - aí que o Henfil era completo. Seus desenhos passavam para o leitor os mais controvertidos sentimentos humanos como se fossem pura prosa expressionista. Seu desenho era uma escrita. Clara, sem duas leituras, plena de movimento e ação. Quem não conheceu o Henfil ao seu tempo, vai encontrá-lo aqui, neste livro. Muitos anos vão se passar e, como a Mafalda do Quino, os livros transportarão a Graúna pelo tempo. E ela irá viver entre nós por toda aquela eternidade que o Henfil merecia ter vivido."li.
um pauzinho grande,

um pauzinho pequeno com uma bolinha equilibrada feito auréola,

uma bolinha que caiu do lado, no chão. li.    Ao Henfil, uma escadinha distinta.




quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

das tripas, o coração

Considerado um dos maiores violinistas do século XX, Jascha Heifetz, de ascendência judaica, nasceu em 2 de fevereiro de 1901, na Lituânia. Seu estilo de tocar influencia na maneira em que violinistas modernos abordam o instrumento até hoje. Alguns o consideram inigualável, não por acaso. Para o som que produzia, a escolha de cordas de tripa de carneiro foi fundamental. Heifetz tinha vibrato e andamentos rápidos, carregados de emoção, e soberbo controle do arco. Dono de técnica impecável e de beleza tonal, criou um padrão único de tocar violino, em uma carreira que se estendeu por 65 anos. Um dia após a estréia de Heifetz, em Londres, George Bernard Shaw escreveu-lhe uma carta, agora lendária:

"Se você provocar um Deus zeloso, tocando com perfeição sobre-humana, você vai morrer jovem. Eu sinceramente aconselho-te a tocar algo mal todas as noites antes de ir para a cama, ao invés de dizer as suas orações. Nenhum mortal deve presumir tocar tão perfeitamente."
Assim, Jascha Heifetz era e ainda é visto. Confere a participação deste violinista incrível no filme "They Shall Have Music", de 1939, executando a Introduction et Rondo Capriccioso, de Camille Saint-Saëns. Uma obra prima! Uma das minhas preferidas.

O ritmo fraseado de Heifetz sugere poesia no gesto, a prova real de que é possível fazer das tripas, coração. Ele transplanta, eu transbordo, transverto, transgrido.