sexta-feira, 25 de março de 2011

Honrar memória que vive sempre!


'Stamos em pleno mar... Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm... cansam
Como turba de infantes inquieta.

'Stamos em pleno mar... Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro...
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do líquido tesouro...
...deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia...



[fragmento de Navio Negreiro, Castro Alves, 1869]
Em mais um convite para ampliar, clica na imagem e aumenta no zoom ou clica aqui




andoaventandoandoventaneando

Sem educar as sensibilidades todas as habilidades são tolas e sem sentido. Ateia, não piso raso, rezo Bach - uma bíblia universal - o músico mais completo que existiu, exerceu um controle extremo sobre todos os aspectos de sua arte produzindo uma música potente e vibrante, cheia de espírito intelectual e humano. Descrever a obra de Bach é tentar exprimir o ideal humano de beleza. A viúva Anna Magdalena conta na biografia:
"o dia em que a jovem Magdalena ouviu Bach tocando pela 1º vez fugiu em disparada da igreja, certa de que tão celestial música só poderia estar sendo tocada por São Jorge."

Ária Erbarme Dich, St.Matthew Passion, BWV 244, contratenor Jonathan Peter Kenny
A respeito da Paixão Segundo São Mateus, Anna Magdalena comenta:
"Lembro-me de ter entrado em seu quarto justamente no momento em que ele se preparava para compor o solo de viola O Gólgota. Que impressão experimentei ao ver-lhe o rosto, ordinariamente tão calmo, da cor das cinzas, e inundado de lágrimas. Felizmente não me viu e pude tornar a sair silenciosamente, indo sentar-me a chorar na escada. Ao ouvir essa música ninguém imagina o que ela custou. Tive desejos de aproximar-me dele e passar-lhe os meus braços em torno do pescoço, mas não o ousei; alguma coisa em seu olhar aterrorizava-me. Sebastian jamais soube que eu lhe surpreendera nas angústias da criação e ainda hoje me regozijo com isso, pois foi um minuto do qual somente Deus deveria ser testemunha".


A frase "Sem educar as sensibilidades todas as habilidades são tolas e sem sentido", é do companheiro de estradas Rubem Alves, caminhemos com ele, pois!



quarta-feira, 23 de março de 2011

garbo de estrilos


!!O Susto!! ...da poesia pura de quem usava seus próprios pés, sabia andar. Do poeta e escritor Mário Quintana em incansável pensar pelas pedras da rua da praia - naquele porto alegre. Sim, ele tirava leite de pedras! Dono de imensa generosidade, ofereceu-me as saídas do major Pitaluga. Dali pra frente, os encontros do meio, partilhados em metade.

...foi na construção de um sorriso junto, no meio da batalha, num mar de letras, que encontrei a vogal e duplos ss de tantos ais. Retribuo presente num clique, e sorrio feliz, com tanta água e ar.

E na andança, na estrada do violeiro, num cordão sem ponta pelo chão desenrolado, com as letras que dispunha - sempre só com o que eu tenho - com o A
e duplos SS de tantos ais, refiz minhas ASAS, soprei volta no vento e voei a paz do abismo do voo.


O Susto, Sapato Florido, p.116, Ed.Globo, 1948, na voz de Paulo José.
Paulo Coração, Haja o que Houver, Pedro Ayres Magalhães.
[porque 'nenhuma inteligência deve ser subestimada ou desrespeitada']




terça-feira, 22 de março de 2011

por duplos ss de ais

- por uma defesa da livre poesia de Natália Correia.Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto. [A Defesa do Poeta]
- por papos alados, parte de mim e ao som de Amália Rodrigues, amém.
Natália Correia na voz de Amália Rodrigues,
19 de dezembro de 1968.

Autogénese

Nascitura estava

sem faca nos dentes

cómoda e impura

de não ter vontade

de bater nas gentes.


Nasce-se em setúbal

nasce-se em pequim

eu sou dos açores

(relativamente

naquilo que tenho

de basalto e flores)

mas não é assim:

a gente só nasce

quando somos nós

que temos as dores;


pragas e castigos

foram-me gerando

por trás dos postigos

e um fórceps de raiva

me arrancaram toda

em sangue de mim.


Nascitura estava

sorria e jantava

e um beijo me deste

tu Pedro ou Silvestre

turvo namorado

do verão ou de outono

hibernal afecto

casca azul do sono

sem unhas do feto.


Eu nasci das balas

eu cresci das setas

que em prendas de sala

me foram jogando

os mulheres poetas

eu nasci dos seios

dores que me cresceram

pomos do ciúme

dos que os não comeram;


nasci de me verem

sempre de soslaio

de eu dizer em junho

e eles em maio

de ser como eles

às vezes por fora

mas nunca por dentro

perfil de uma estátua

que não sou de frente.


Nascitura estava

e mais que imperfeita

de ser sorte ou dado

que qualquer mão deita.


Eu nasci de haver

os bairros da lata

do dedo que escapa

dos sapatos rotos

da fome que mata

o que quer nascer

e que o sábio guarda

em frascos de abortos;


eu nasci de ver

cheirar e ouvir

dum odor a mortos

(judeus enlatados

para caberem mais

mas desinfectados)

pelas chaminés

nazis a sair

de te ver passar

de me despedir

de teus olhos tristes

como se existisses.


Nascitura estava

tom de rosa pulcra

eu me declinava

vésper em latim:

impura de todos

gostarem de mim.



domingo, 20 de março de 2011

passo a passo em tempo e tempero

Conceder 2:23 minutos para ouvir um prelúdio de Bach, na companhia de Glenn Gould, andando num Steinway ...e tendo o privilégio de enxergar o feltro voltar pra madeira de maneira tão bonita* é, pra mim, natureza rara.
Acompanhe pelos segundos... mas bom mesmo é voltar e ouvir outras vezes, vibrando com as cordas: -- Em 0:00, deixe-se levar por Bach e Glenn Gould. -- Em 0:58, inicia um retardo no tempo da música, gerando uma bela e crescente tensão que dura até 1:29. -- Em 1:41, é o instante decisivo da intensidade emocional, o ponto culminante que é perfeitamente realizado até 1:56, e dali até o final. -- Em 2:23, se ainda sobrarem sentidos, experimente ouvir a fuga, porque este é apenas o prelúdio**.

As delicadezas e exigências da obra de Bach estão perfeitamente expressas na qualidade técnica e destreza de Glenn Gould, pianista canadense, autor da definitiva e transgressora versão das dificílimas Variações Goldberg, gravada em 1955, que permanece até hoje sem sair do catálogo. E foi ele quem definiu o gênio por todos nós: "O mundo inteiro da música está em Bach. Ele é a síntese do passado, a realidade do seu tempo e a profecia do futuro".


* Os martelos, essas peças do piano que tocam as cordas, são feitos de madeira moldada. O feltro é enrolado em volta da madeira sob alta pressão e depois colado nela. Esse feltro não é um feltro comum, ele tem uma textura diferente, própria para a finalidade do martelo, e tem o objetivo de promover um som mais forte, homogêneo e doce. As cordas de um piano apertadas em 440Hz fazem uma pressão de 23 toneladas nas extremidades ao qual estão presas. Esta mesma beleza está nas pessoas, no Pessoa, no produto notável.
** O Cravo Bem Temperado é um livro de prelúdios e fugas escritos nos 24 tons maiores e menores. E, segundo Bach, composto "para o proveito e uso dos jovens músicos desejosos de aprender e, especialmente, para o entretenimento daqueles já experientes com esse estudo". Mais tarde, ele compilou um segundo livro da mesma espécie, mas o intitulou apenas "Vinte e quatro Prelúdios e Fugas". Atualmente, os dois volumes são citados como "Livro I" e "Livro II do Cravo Bem Temperado". A obra do vídeo está no Livro I, n°2, BWV 847, e é composta de Prelúdio e Fuga. Aqui, o Prelúdio em C menor, por Glenn Gould, clipe extraído do filme "32 Short Clips about Glenn Gould".


quinta-feira, 17 de março de 2011

festim embananado

Sobre a mesa: bananas - suprindo, sustendo, sensibilizando.
Sobremesa: terra que virou bala de banana, banana flambada, pão recheado de banana, banana cristalizada, bananada - sob eixo caipira. Três eixos, três cliques e Bach alimentando o brasileiro Heitor Villa-Lobos. Mesa farta pra todos e o privilégio de ouvir a interpretação que o autor deu pra sua obra, por ele mesmo.

O original das Bachianas Brasileiras n°2 - 4°movimento, Tocata - Trenzinho do Caipira, pela Orchestre National de la Radiodiffusion Française, gravado em 11 de maio de 1956, tendo como regente o próprio Villa-Lobos.

No violão de Yamandú Costa, Trenzinho Caipira.


E por macla, a letra na voz de Edu Lobo.


Lá vai o trem com o menino, lá vai a vida a rodar, lá vai ciranda e destino, cidade e noite a girar. Lá vai o trem sem destino pro dia novo encontrar, correndo vai pela terra, vai pela serra, vai pelo mar. Cantando pela serra do luar, correndo entre as estrelas a voar, no ar, no ar...

terça-feira, 15 de março de 2011

modos verbais












eu livro

tu, livro
ele, livraria.








sexta-feira, 11 de março de 2011

septuagésimo dia


"Podeis ter visto na vida muitos navios singulares, suponho eu: lugres antiquados; vastos juncos japoneses; galeotas semelhantes a caixas de manteiga, e não sei mais o quê; mas, acreditai-me, nunca vistes uma embarcação tão rara e vetusta como este raro e vetusto Pequod." Moby Dick, Herman Melville, 1851.

Astor Piazzolla pra mim é isso, um Pequod, capaz de me levar a mares de todo teor de sal, à procura de raras especiarias, às minhas melhores pescarias. Sempre à cata de rútilas grandezas, o som de Piazzola se fez pra mim insubstituível. Há dias e noites que só se completam com ele... É quase todos os tempos de muitos dos meus verbos.
"O Cachalote Branco nadava diante dele como a encarnação monomaníaca de todas aquelas malígnas intervenções que alguns homens profundos sentem corroê-los, até que ficam vivendo com meio coração ou com um pulmão pela metade." Moby Dick, Herman Melville, 1851.
E, nos confins do possível, desisto do tempo dos relógios; e ocupo-me com pessoas e vinhos espirituosos.
"Olha, fica avisado: Ahab está acima do comum; esteve em faculdades, assim como entre canibais; acostumou-se com prodígios maiores do que as ondas; cravou sua lança impetuosa em inimigos mais poderosos e estranhos do que as baleias." Moby Dick, Herman Melville, 1851.
Indigesta aos tubarões, inspiro a proa, amarro a carga, desato a vela e clico no play  porque hoje o brinde é com Piazzolla, bandoneonista e compositor argentino - o aniversariante do dia.
[Piazzolla, por Yo-Yo Ma e Nestor Marconi, Regreso al amor, do filme Sur]



segunda-feira, 7 de março de 2011

tocar o céu com o profano

O caminho da música na primeira parte da Idade Média foi definido pelo Canto Gregoriano e, num sentido mais amplo, pelo controle da igreja, uma consequência lógica da organização social da época. Mas, felizmente, alguns frades abandonaram seus conventos e a música, que era em latim e restrita à igreja, foi para as ruas e se misturou com o povo. Esses frades eram chamados de goliards ou "clerici vagante" e perambulavam de uma região para outra pedindo esmolas. O fato é que durante a estadia nos conventos tinham recebido uma dupla formação: musical e literária, e exploravam os seus conhecimentos através de uma série de canções, regra geral dedicadas ao vinho, à comida e ao amor. Deve ter sido aí que os caras conheceram realmente o céu!
Os textos das canções eram cheios de brincadeiras dirigidas ao clero, à vida de convento e aos costumes regiliosos.
Pode-se dizer que constituíam uma primeira evidência de contracultura. O certo é que a importância dos goliards na evolução da música é muito significativa, uma vez que a separaram do mundo religioso e trocaram o cenário das igrejas pelos das praças das aldeias. Perdeu-se uma grande parte de suas canções, mas algumas peças resistiram ao tempo. O primeiro localizado, mais ou menos em 1803, foi o manuscrito de Munique, um rolo de pergaminho com cerca de 200 poemas e canções medievais, escritos em latim e alemão, encontrado na biblioteca da antiga Abadia de Benediktbeuern, na Alta Baviera.
Quase 150 anos depois, em 1937, o compositor alemão Carl Orff estreou em Frankfurt uma recriação utilizando alguns dos textos do manuscrito, sob o título de Carmina Burana - cantiones profanae. Uma cantata cênica envolvida por um símbolo da antiguidade - o conceito da roda da fortuna, em movimento contínuo, trazendo ora sorte, ora azar: uma parábola da vida humana. Ali o homem, a natureza, o amor, a exuberância da vida e o vinho estão aos caprichos da lei da instabilidade, como o que realmente são: joguetes de forças indecifráveis. A obra completa divide-se em três partes: o encontro do homem com a natureza, particularmente com o despertar da primavera (Primo vere); o encontro do homem com os dons da natureza, culminando com o do vinho (In taberna); e o encontro do homem com o amor (Cour d'amours), sempre com a força devastadora do Coro da Fortuna cercando o todo.

Sinta a imponência da Fortuna Imperatrix Mundi, pela Filarmônica de Berlim e coro, sob a regência do genial Seiji Ozawa - delicie-se com a letra.
A vida é - precisamente - essa alternância, uma boa sinalização para os que acham que estão no controle de algo e uma evidência clara de que nenhum poder é hegemônico.

FORTUNA IMPERATRIX MUNDI
O FORTUNA


I. O Fortuna, veluti Luna statu variabilis, semper crescis out decrescis; vita detestabilis nunc obdurat et tunc curat ludo mentis aciem, egestatem, potestatem dissolvit ut glaciem.
II. Sors immanis et inanis, rota tu volubilis, status malus, vana salus semper dissolubilis, obumbrata et velata michi quoque niteris; nunc per ludum dorsum nudum fero tui sceleris.
III. Sors salutis et virtutis michi nunc contraria, est affectus et defectus semper in angaria. Hac in hora sine mora corde pulsum tangite; quod per sortem sternit fortem, mecum omnes plangite!

FORTUNE PLANGO VULNERA
I. Fortune plango vulnera stillantibus ocellis quod sua michi munera subtrahit rebellis. Verum est, quod legitur, fronte capillata, sed plerumque sequitur occasio calvata.
II. In Fortune solio sederam elatus, prosperitatis vario flore coronatus; quicquid enim florui felix et beatus, nunc a summo corrui gloria privatus.
III. Fortune rota volvitur: descendo minoratus; alter in altum tollitur; nimis exaltatus rex sedet in vertice caveat ruinam! nam sub axe legimus Hecubam reginam.

FORTUNA IMPERATRIZ DO MUNDO

Ó FORTUNA

I. Ó Fortuna, és como a Lua mutável, sempre aumentas e diminuis; a detestável vida ora escurece e ora clareia por brincadeira a mente; miséria, poder, ela os funde como gelo.
II. Sorte monstruosa e vazia, tu – roda volúvel – és má, vã é a felicidade sempre dissolúvel, nebulosa e velada também a mim contagias; agora por brincadeira o dorso nu entrego à tua perversidade.
III. A sorte na saúde e virtude agora me é contrária. e tira mantendo sempre escravizado. Nesta hora sem demora tange a corda vibrante; porque a sorte abate o forte, chorais todos comigo!
CHORO AS FERIDAS DA FORTUNA
I. Choro as feridas da Fortuna com os olhos rútilos; pois que o que me deu ela perversamente me toma. O que se lê é verdade: esta bela cabeleira, quando se quer tomar, calva se mostra.
II. No trono da Fortuna
sentava-me no alto, coroado por multicores flores da prosperidade; mas por mais próspero que eu tenha sido, feliz e abençoado, do pináculo agora despenquei, privado da glória.
III. A roda da Fortuna girou:
desço aviltado; um outro foi guindado ao alto; desmesuradamente exaltado o rei senta-se no vértice – precavenha-se contra a ruína! porque no eixo se lê rainha Hécuba.

E a suavidade de In trutina, do Cour d'amours, na voz de Barbra Streisand.

IN TRUTINA
In trutina mentis dubia

fluctuant contraria

lascivus amor et pudicitia.

Sed eligo quod video,

collum iugo prebeo;

ad iugum tamen suave transeo.


NA BALANÇA

Na balança os sentimentos oscilam

um contra o outro;

amor lascivo e pudor.

Mas escolho o que vejo,

e coloco meu pescoço sob o jugo;

ao jogo suave todavia me submeto. 



Confere as cores arrebatadoras 
de Carmina Burana na versão completa do Seiji Ozawa e a Filarmônica de Berlim, aqui

 
 



domingo, 6 de março de 2011

a sementar

Há pessoas e livros que não resistem a uma segunda leitura, definitivamente não é o caso de Clarice Lispector. Em cada parágrafo uma abertura infinda para a rejeição do óbvio, embora ocupe-se em compreendê-lo; é a derrota do hábito pela originalidade sensível. O que a Clarice é capaz de plantar em mim a cada leitura faz fotossíntese a cada conclusão de página! E, mais uma vez, em Uma História de Tanto Amor, eu leio, ouço; ela me cala.


Deixo aqui na voz de Aracy Balabanian
e
saio com as meninas, as Pedrinas, as Petronilhas e as Eponinas.

UMA HISTÓRIA DE TANTO AMOR

Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longíquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha.
Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia : "Você não tem coisa nenhuma no fígado". Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era quase inútil dar o remédio porque Pedrina e Petronilha continuavam a passar o dia ciscando o chão e comendo porcarias que faziam mal ao fígado. E o cheiro debaixo das asas era aquela morrinha mesmo. Não lhe ocorreu dar um desodorante porque nas Minas Gerais onde o grupo vivia não eram usados assim como não se usavam roupas íntimas de nylon e sim de cambraia. A tia continuava a lhe dar o remédio, um líquido escuro que a menina desconfiava ser água com uns pingos de café - e vinha o inferno de tentar abrir o bico das galinhas para administrar-lhes o que as curaria de serem galinhas. A menina ainda não tinha entendido que os homens não podem ser curados de serem homens e as galinhas de serem galinhas: tanto o homem como a galinha têm misérias e grandeza (a da galinha é a de por um ovo branco de forma perfeita) inerentes à própria espécie. A menina morava no campo e não havia farmácia perto para ela consultar.
Outro inferno de dificuldade era quando a menina achava Pedrina e Petronilha magras debaixo das penas arrepiadas, apesar de comerem o dia inteiro. A menina não entendera que engordá-las seria apressar-lhes um destino na mesa. E recomeçava o trabalho mais difícil: o de abrir-lhes o bico. A menina tornou-se grande conhecedora intuitiva de galinhas naquele imenso quintal das Minas Gerais. E quando cresceu ficou surpresa ao saber que na gíria o termo galinha tinha outra acepção. Sem notar a seriedade cômica que a coisa toda tomava: - Mas é o galo, que é um nervoso, é quem quer! Elas não fazem nada demais! e é tão rápido que mal se vê! O galo é quem fica procurando amar uma e não consegue!
Um dia a família resolveu levar a menina para passar o dia na casa de um parente, bem longe de casa. E quando voltou, já não existia aquela que em vida fora Petronilha. Sua tia informou-lhe: - Nós comemos Petronilha.
A menina era uma criatura de grande capacidade de amar: uma galinha não corresponde ao amor que se lhe dá e no entanto a menina continuava a amá-la sem esperar reciprocidade. Quando soube o que acontecera com Petronilha passou a odiar todo o mundo da casa, menos sua mãe que não gostava de comer galinha e os empregados que comeram carne de vaca ou de boi. O seu pai, então, ela mal conseguia olhar: era ele quem mais gostava de comer galinha. Sua mãe percebeu tudo e explicou-lhe: - Quando a gente come bichos, os bichos ficam mais parecidos com a gente, estando assim dentro de nós. Daqui de casa só nós duas é que não temos Petronilha dentro de nós. É uma pena.
Pedrina, secretamente a preferida da menina, morreu de morte morrida mesmo, pois sempre fora um ente frágil. A menina, ao ver Pedrina tremendo num quintal ardente de sol, embrulhou-a num pano escuro e depois de bem embrulhadinha botou-a em cima daqueles grandes fogões de tijolos das fazendas das Minas Gerais. Todos lhe avisaram que estava apressando a morte de Pedrina, mas a menina era obstinada e pôs mesmo Pedrina toda enrolada em cima dos tijolos quentes. Quando na manhã do dia seguinte Pedrina amanheceu dura de tão morta, a menina só então, entre lágrimas intermináveis, se convenceu de que apressara a morte do ser querido.
Um pouco maiorzinha, a menina teve uma galinha chamada Eponina.
O amor por Eponina: dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor. E quando chegou a vez de Eponina ser comida, a menina não apenas soube como achou que era o destino fatal de quem nascia galinha. As galinhas pareciam ter uma pré-ciência do próprio destino e não aprendiam a amar os donos nem o galo. Uma galinha é sozinha no mundo.
Mas a menina não esquecera o que sua mãe dissera a respeito de comer bichos amados: comeu Eponina mais do que todo o resto da família, comeu sem fome, mas com um prazer quase físico porque sabia agora que assim Eponina se incorporaria nela e se tornaria mais sua do que em vida. Tinham feito Eponina ao molho pardo. De modo que a menina, num ritual pagão que lhe foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue. Nessa refeição tinha ciúmes de quem também comia Eponina. A menina era um ser feito para amar até que se tornou moça e havia os homens.

sexta-feira, 4 de março de 2011

sê mente

"Tan real es la realidad que se necesita, como la realidad que se conoce ... Ayuda a vivir saber que cada mundo contiene otros mundos posibles, que cada mundo está embarazado de otros mundos."
Procurando a síntese do sonho, reconstruo imagem com Eduardo Galeano ...e festejo aqui estas mulheres - mulheres sementes.

E é sobre lágrima e lamento, de grão em grão, de estigma em estigma, sobre o pólen da germinação, que sacodem suas cabeças e fecundam a terra livre, produzem arte, voltando-se para a luz e fazendo da liberdade a rosa dos ventos.


terça-feira, 1 de março de 2011

.servil.livres.


.traz pra frente o que importa.

.trás pra frente.troco sina por anis.