sexta-feira, 29 de abril de 2011

em ilha de ilha

Força, tino e graça - imprescindíveis.

Villa-Lobos - Bachianas Brasileiras n5 - Egberto Gismonti.

Sonhar, eis tudo - ser feliz com nada. A generosidade destas águas é um convite para pés descalços caminhar em franjas bordadas do mar. Villa-Lobos em dia - são acordes, ressonâncias, um bom tempo de dedos comendo areia, alguma cumplicidade, senso coletivo e a garantia de que fazer escolhas e aprender a se aproximar do que gosta é o maior de todos os bens. Eis o Campeche [Camps de Peches] a passos de casa, um quintal de campos de pesca pra felicidade do meu samburá - sim, aqui avento, ventania.
Praia do Campeche, onde o piloto-escritor Saint-Exupéry pousava em viagens do correio aéreo, entre 1926 e 1931. Naquela época os aviões tinham pouca autonomia de voo e as dunas gramadas do Campeche eram pouso obrigatório das linhas que transportavam correio aéreo entre a Europa e Buenos Aires. E é dele a frase que me orienta: "Je croix au actes et non aux grands mots".

[clica na foto e amplia]

segunda-feira, 25 de abril de 2011

desencavando reflexos

Joseph-Maurice Ravel, compositor e pianista francês, tornou-se conhecido sobretudo pela sutileza expressa em suas obras, o cara exercitava a arte de dar alma às coisas... Os amigos do compositor dão testemunho da requintada sensibilidade, da generosidade, da afetuosa compreensão pelos sentimentos dos outros.
Aluno de Gabriel Fauré, dedicou-lhe um belo quarteto para cordas, este do registro da foto, o String Quartet in F Major, uma das peças mais bonitas e marcantes de seu repertório - revela o artesão obstinado. Na perfeição do ofício fecunda a sensibilidade e a torna criadora, mas ela nem sempre foi reconhecida como a origem do seu gênio; preferiu-se ver o sinal da impotência e da inércia afetiva. No entanto, a expressão musical da emoção impõe a ascese de uma precisão de relojoeiro e os fracassos retumbantes, no Concurso de Roma, deram-lhe em compensação o gosto pelo acabamento técnico. Se a liberdade é a nobreza de Debussy, a de Ravel é o rigor. Não é de espantar que seu humor cáustico, o gosto do paradoxo, a arte de ilusionista, tenham desconsertado muitos ouvintes. O próprio Debussy escrevia, em 1907, a Louis Laloy:
"Concordo consigo em reconhecer que Ravel não pode ser mais dotado, mas o que me irrita é sua atitude de fazer tudo, ou melhor, de faquir mágico que faz brotar flores à volta de uma cadeira".
O artifício, o brio orquestral, o virtuosismo, as habilidades contrapontísticas, servem-lhe para evitar o pathos e enganar o destino. O ecletismo e a aposta são para ele princípios estéticos. Tudo desperta sua curiosidade, a música dos outros, a técnica instrumental, os timbres insólitos, os novos métodos de composição, o folclore, o jazz... Nele não há ideia preconcebida, é acessível a todas as influências, sem perder a originalidade. O fato é que ele consegue encontrar nos outros uma maneira de fazer, uma orientação estética: Ravel serve-se de tudo para produzir Ravel. A aposta aparece como um estimulante de sua criação; precisa vencer dificuldades, resolver contradições, transpor obstáculos. Assim, todos sabem que foi um dos mais prodigiosos orquestradores de todos os tempos, que enriqueceu com centenas de sortilégios infalíveis a herança de Liszt e de Rimsky-Korsakov. Contudo, pouco escreveu diretamente para orquestra e, a partir de 1913, renuncia aos acessórios do ilusionista, à diversidade cintilante dos timbres, em favor da clareza, da linha pura, encontrando novos meios de sedução, como em Tzigane, "a" peça para violino e piano. Nos espelhos, Miroirs, de 1905, Ravel atinge os limites das possibilidades intrumentais, descobre nos instrumentos tradicionais variantes insuspeitadas, fazendo brotar no teclado cores desconhecidas, num claro virtuosismo pianístico - ouça e experimente sentir:

Miroirs III - Une Barque sur l'Océan,
de Maurice Ravel, por Jean-Yves Thibaudet.

Em especial, no "Une Barque sur l'Océan", leva-nos ao fluxo e refluxo das correntes nos mares, em cintilas de luz, som e água. Eis uma obra de uma plenitude e riqueza extraordinárias, a provar que Ravel é mais que sonho, valsinha e bolero, Ravel é reverberação.


sexta-feira, 22 de abril de 2011

cavando toca

Prezado seu coelho:
troco ovinho pelo vinho, facilmente.


Dark Eyes,
Itzhak Perlman
& Oscar Peterson,

lambuzam o teclado em preto e branco, em tinto e seco, é claro.



Foto de Henri Cartier-Bresson.
Rue Mouffetard, Paris, 1954.




Dizem que Bresson manteve contato com este menino ao longo dos anos, e quando ele completou cinquenta anos, Bresson apareceu em sua festa de aniversário segurando duas garrafas de vinho debaixo dos braços, nada mal!


... e mais quatro minutos de László Berki, no violino.




quinta-feira, 21 de abril de 2011

alma pampa


Chimarrão nunca falta por aqui. É agregador, gera um clima de respeito e amizade que floresce por entre os mates conversados e cria uma comunhão afetiva. Pra mim, um acontecimento dentro do outro - as coisas antigas são muito mais eternas - alma pampa e chimarrão, o resto a gente faz no andar.


     Alma Pampa
       [Jayme Caetano Braun
]
Quem te batizou milonga,
Decerto foi algum monge
Que escutou de muito longe
O teu murmúrio de sanga
Ou quem sabe alguma changa,
Dormideira nos arreios
Dessas que fazem ponteios
Com unhas de japecanga

Ou quem sabe algum sorsal,
De topete colorado
Num prelúdio abarbarado
Das canas do taquaral
Talvez quem sabe um bagual
Corcoveando num repecho
Floreando as cordas do queixo
Nas pontas do pastiçal

Brasileira, castelhana,
Milonga ronco de mate
Tu nasceste do embate
Da velha saga pampeana
Espanhola, lusitana,
Entre patriadas e domas
Sem divisas, sem diplomas,
Cursando o mesmo dialeto
Porque o vento analfabeto
Fala em todos idiomas

Quem sabe talvez a lança,
Riscando a primeira linha
Quando a adaga sem bainha,
Cadenciava uma romanza
Ou talvez a vaca mansa,
Dentro da várzea perdida
Na ternura enrouquecida,
Feita de instinto e lamento
Anunciando o nascimento
Da cria recém lambida

Por isso em qualquer fronteira,
No esboço da lonjura
És a mais linda mistura
Da nobre estirpe campeira
Fidalga e aventureira,
Com geografia na cara
Passaporte tapejara,
No caminho dos andejos
Reculutando solfejos
Que uma linha não separa

Alma de pampa e semente
Que nasceu nos dois costados
Herança dos mal domados
Que formaram nossa gente
O passado e o presente
E o futuro dimensionas
Nas primas e nas bordonas
Do garrão do continente.

A LENDA DO MATE
Um velho guerreiro guarani, impedido de ir à guerra e à caça pelo peso dos anos, consolava-se apenas com a companhia de sua jovem filha Yari, mas ficava triste e aflito sabendo que Yari privava-se das alegrias da juventude para estar ao seu lado. Certa vez, quando sua tribo partira em busca de sobrevivência e ficando só com a filha, apareceu-lhe um estranho guerreiro pedindo abrigo em sua jornada, dizendo vir de muito longe. Então, o ancião e a filha o acolheram com respeito nobre, dando sua amizade nativa e hospitaleira. Na manhã seguinte, o estranho viajante, agora mais amigo do que forasteiro, ao manifestar sua partida, disse ser um enviado de Tupã. E, dirigindo-se ao velho guerreiro, indagou: - O que te falta, meu bom amigo? E o ancião respondeu: - Assim, como desta afeição que nasceu entre nós, ao partires ficarei com a recordação saudosa de tuas lembranças. Tudo nesta vida passa e ao passar nos deixa uma saudade, preenchendo o vazio das ausências. E cada vez vamos ficando mais sós, dependentes da gratidão ou da pena de alguém que priva sua liberdade para suavizar nossa solidão. Gostaria de ter um companheiro igual, no meu silêncio de recordações, cheio de paciência e que, juntos, pudéssemos distrair os momentos de espera, que me desse a força do calor que tem a amizade das mãos amigas. Só assim poderia descompromissar a liberdade de Yari. O enviado de Tupã ouviu com atenção as justas razões do velho guerreiro e disse-lhe: - Vou te dar duas graças: a primeira - alcançando um ramo cheiro de folhas - é esta planta que se chama Caá - referindo-se à erva mate. Nela encontrarás alimento digno dos nobres de coração, trará vigor ao teu povo e será o amigo silencioso, em todos os momentos que solicitares um companheiro. E sobre a outra graça: de hoje em diante, tua filha será Caá-Yari, a deusa dos ervais e dos ervateiros... E assim o fez.
[Lenda de domínio público]




terça-feira, 19 de abril de 2011

acordoando ventos

... move o vento é o moinho,
nem o ovo, nem a ave, quem nasce primeiro é o ninho.

porto e rio, onde me exílio do desterro, alegre guaíba


domingo, 17 de abril de 2011

acorde que amacia ideia


Paranoid Android, do Radiohead

Este cara, pra meu orgulho, é brasileiro. O pernambucano Vitor Araújo tem 21 anos. O que ele é capaz de fazer com a música entra em minh'alma e não me sai do pensamento... e se repete sempre que eu preciso. Uma figura ímpar que faz par comigo, meia volta, volta e meia - anda comigo pela praia, pelo mar, pelo ar, pelas pedras, pela cidade, pelos acordes... Parece um desafio em aberto essa ideia de ruptura com a mesmice e a possilibidade de voar por conta própria, e talvez em bandos. Sempre estaremos trilhando o caminho menos confortável na busca pelo encanto, por isso somos parceiros de jornada, somos nós mesmos em abundância.


Competine D'Un Autre Été, do Yann Tiersen
"Havia uma levíssima embriaguez de estarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles."
Clarice Lispector, maravilhosa como sempre!


sábado, 16 de abril de 2011

por tão porta, alça pão

THESOURO INESGOTAVEL ou COLLECÇÃO DE VARIOS PROCESSOS E RECEITAS
com applicação ás Sciencias, Artes, Industria, Agricultura e Economia Domestica
Obra Utilissima a Todas as Classes da Sociedade
Publicado por Agostinho da Silva Vieira
Lente Cathedratico do Instituto Industrial e Commercial do Porto, membro honorario da Sociedade Pharmaceutica Lusitana, ex-Pharmaceutico do Hospital Geral de Santo Antonio, Gerente da Lavanderia a vapor do mesmo Hospital etc. Quarta Edição, revista e consideravelmente augmentada com formulas e processos novos de reconhecida utilidade - Receita 177 - Porto, Livraria Internacional de Ernesto Chardron, 1893.


Por tão porta, alça pão... sempre acreditando em saídas criativas e possíveis e, acima de tudo, valorizando a construção do conhecimento; alguém, em algum momento, ocupou-se com esta necessidade e compartilhou, seja na feitura, seja no registro em livro. Felizmente hoje já dispomos de palitinhos que giram e digitais. O que normalmente não há é ingenuidade no ser, nem na construção do saber. Sim!, nenhuma inteligência deve ser desrespeitada.


quinta-feira, 14 de abril de 2011

certeza de eu em mim

cisco em ostra e cismo - sou o que soo, no que vibro, no que tinto.



Eduard Lalo, Sinfonia Espanhola, op21, 3°movimento,
intermezzo, em solo de violino: Isaac Stern.



terça-feira, 12 de abril de 2011

arca de nó

em meio século de homem no espaço,
entre entornos e estorvos - imagem reduzo por aqui

essa pecinha aí, eis a alma do violino: em qualquer tempo e distância
ao acender a fogueira, ela corta lenha;  ao lançar um barco, ela vira oceano
.


...e Bach, o 5°movimento da Partita n°2 em ré menor, BWV 1004 - Chaconne, a partita que embriaga, que se conserva neste que vibra, nesta alma que ouve o que esta alma verve.