segunda-feira, 30 de maio de 2011

quintas

...ainda dentro deste universo singular ouço o coração e entrego em música. Desta sorte, Haydn, com Fifths - String Quartet in D Minor, 1°movimento.

A longa carreira de Haydn cobre a maior parte do período clássico da música erudita, do qual é a alma e o símbolo. A posteridade foi injusta em relação a Haydn. Tinha recebido com tranquila bonomia testemunhos de admiração como poucos receberam. Mas no século XIX, após a redescoberta de Bach, parecia que não havia lugar para um grande músico entre o cantor de Leipzig e Beethoven, salvo para o divino Mozart. Nada na vida e na obra de Haydn dá ensejo à lenda ou ao delírio. Entretanto, a sua carreira foi a mais nobre, a mais tranquila, a mais conseguida que se possa sonhar. É o personagem mais simpático da história da música, sua extraordinária saúde física e mental fortifica o sentimento de confiança que a todos inspira. Mas a imagem tradicional do "papá Haydn" é caricatural: este homem de caráter e de espírito é uma personalidade poderosa e original, venerado até por Mozart que se reconhece neste gênio apolíneo. Haydn não é um inventor de estilos nem de formas. Contudo, é o organizador magistral da sinfonia, do quarteto, da sonata para piano. Toda a sua arte está na perfeição da dialética puramente musical. Nele, a variação desempenha o papel da fuga na obra de Bach: define a forma geral ao mesmo tempo que as estruturas finas; tem um princípio de composição que opera em todos os níveis e o faz impecavelmente nos quartetos de corda. Haydn não inventa melodias sublimes, como Mozart, mas torna belo tudo aquilo que toca.
"Começa pela ideia mais insignificante mas, pouco a pouco, esta ideia adquire uma fisionomia, torna-se mais hábil, cresce, desenvolve-se e o anão torna-se gigante aos nossos olhos espantados." [Stendhal, Vies de Haydn, Mozart et Métastase, Paris, 1817]
Visto em outras postagens feitas por aqui, como na de sombra com as mãos, penso que aquilo que parece pouco e pequeno toma imenso corpo dependendo de quem os trata. E a temática de Haydn é, em si mesma, uma composição mais do que uma invenção espontânea; a ideia, raramente insignificante é, por vezes, muito original, especialmente quando nos traz o eco de músicas populares húngaras e croatas. O fato é que Haydn produziu o modelo perfeito da sinfonia e da sonata para piano clássicas, contudo, é no quarteto de cordas que se revela plenamente seu gênio. Não inventou o gênero, mas levou-o a uma perfeição que os predecessores não atingiram, um bom exemplo é o Fifths - nome que remete para as perfeitas quintas que iniciam o quarteto. Em música, uma quinta é o intervalo de cinco graus consecutivos na escala diatônica. O nome indica o intervalo entre a primeira e a quinta nota da escala maior. Por mais belas que sejam as sinfonias, particularmente as últimas doze, ditas "de Londres", parecem impuras e redundantes se se lhes compara a límpida perfeição dos quartetos, que possuem fórmula excelente, um encanto irracional, um refúgio à transcendência. O prazer musical não é de ordem intelectual, é uma ressonância íntima com uma atitude ou com a organização espiritual do compositor. A música de Haydn está isenta de qualquer desejo extra-musical, mas o que a composição revela de inspiração ou de amor é justamente a fonte mais preciosa de nossa emoção. Goethe exprime a rara qualidade de emoção que lhe comunicam as obras de Haydn:
"Em contato com elas, sinto uma tendência involuntária para fazer o que me parece ser o bem e como devendo agradar a Deus. Este sentimento é independente da minha reflexão."
Em 27 de maio de 1808, a obra chamada "Criação" foi solenemente executada sob a direção de Salieri, na aula magna da Universidade de Viena, na presença do velho mestre doente, numa verdadeira apoteose. A emoção de Haydn foi tal que teve que abandonar a sala após a primeira parte; então, Beethoven dirigiu-se a ele para lhe beijar as mãos - um gesto lindo, próprio de sua nobreza. Alguns meses mais tarde Beethoven dá a primeira audição das Quinta e Sexta Sinfonias e do Quarto Concerto, ante o espanto geral. Afinal, com quantas e quais palavras e sentidos se pode descrever o efeito do toque profundo, o movimento da alma, o enlevo do espírito.





quinta-feira, 26 de maio de 2011

universo

    incircunscritível       
Um núcleo brilhante, um grande bojo central incomum e, em volta, uma proeminente faixa de poeira em seu disco inclinado. Uma espécie de cisco no olho que é importante atentar e que não se abranda com religiosa chuva porque este Deus não existe - Boa noção de medida, tão importante quanto espelho e fita métrica. Tem 50.000 anos-luz de diâmetro e 28 milhões de anos-luz da Terra. É arrebatador!

Majestic Sombrero Galaxy (M104) - foto Hubble
Arcangelo Corelli - Concerto n.4 em ré maior, adagio-allegro


quarta-feira, 25 de maio de 2011

uni verso

a isso que aqui sucede, aqui e pra sempre, dou o título de pátria - simples assim



domingo, 22 de maio de 2011

in veritas

a verdade apruma a bússola e o vinho apruma a alma
Merceditas, com Renato Borghetti, duas versões

pequena deferência ao melhor vinho,
cristal da alma, na qualidade e delicadeza deste conjunto.

[foto Carlos Eduardo Modesto]


segunda-feira, 16 de maio de 2011

ares de maio maiores

Preludiando maio e reafirmando, sempre - só a verdade me apruma a bússola.

Por ares que eu sopro em maio,
Passacaglia, de Händel-Halvorsen - Ithzak Perlman & Pinchas Zukerman,

em sentido sutil de fraseado, músicos que emocionam, infundem respeito a cada acorde.





sexta-feira, 13 de maio de 2011

remembrança

poema sinfônico


quarta-feira, 11 de maio de 2011

luteria

Felizmente o Brasil dos meus sonhos existe e é carregado por gente honesta imbuída de uma energia de natureza construtiva, que se renova diariamente - independente das muitas tentativas por todos os lados em desfazer a capacidade humana de um país. Minha reverência aos David Rocha, sonho e suor realizando a mágica da vida. Faz lembrar "Nunca pare de sonhar", do grande Gonzaguinha, e É.

folha.com, 08/05/2011, reportagem de Vanessa Correa, SP

Nunca pare de sonhar
[Gonzaguinha]
Ontem um menino que brincava me falou
Hoje é a semente do amanhã

Para não ter medo que este tempo vai passar

Não se desespere, nem pare de sonhar

Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs

Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar

Fé na vida, fé no homem, fé no que virá

Nós podemos tudo, nós podemos mais

Vamos lá fazer o que será
É!
A gente quer valer o nosso amor -
A gente quer valer nosso suor
A gente quer valer o nosso humor
- A gente quer do bom e do melhor
A gente quer carinho e atenção
- A gente quer calor no coração
A gente quer suar, mas de prazer
- A gente quer é ter muita saúde
A gente quer viver a liberdade
- A gente quer viver felicidade... É!
A gente não tem cara de panaca
- A gente não tem jeito de babaca
A gente não está
com a bunda exposta na janela prá passar a mão nela... É!
A gente quer viver pleno direito
- A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
- A gente quer é ser um cidadão


segunda-feira, 9 de maio de 2011

silente

por maiores acordes, por som e silêncio particulares, pormenor



quarta-feira, 4 de maio de 2011

melodia


Andante, neste mês de maio completo mais uma viagem em torno do sol. O certo é que se tudo fosse Aurélio, Rejane, pra mim, seria uma melodia infinita: "A que se desenvolve livremente, sem obediência a nenhuma forma preestabelecida."


Eu sou meu doce e amargo lar, memória de um lugar querido, qualquer lugar.



terça-feira, 3 de maio de 2011

o dia seguinte

Festejando a existência do lexicógrafo, filólogo e ensaísta brasileiro, Aurélio Buarque de Hollanda, nascido hoje, em 1910, e nos dias seguintes. Depois disso é como se o amanhã já tivesse chegado, e outros léxicos vieram. Foi com um dicionário antigo, um Aurélio, meu primeiro caso de amor, num repertório de palavras cheias de significância. Sempre a mesma sensação - todo dia é dia, folheia, cheiro de livraria, folia. - Brindo com Clarice, é claro, porque a vida é a festa!


Clarice Lispector por Aracy Balabanian

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria. Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade". Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia. Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria. Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados. Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer. Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo. Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Felicidade Clandestina - Clarice Lispector, 1971.

domingo, 1 de maio de 2011

todo dia

... é 1°de maio, aqui eu comemoro assim.


Poema de José Saramago, por Carmen Dolores - Maio, trabalho, luta - Editora Avante, 2010