sexta-feira, 24 de junho de 2011

in verno


   viver para ser livre, não livro
      no inverno vento como livros.



[foto retirada da internet
na estação, por I musici di Roma]


segunda-feira, 20 de junho de 2011

salva-vidas

pormenor da tarde de domingo     
andarilhos de céu, de mar e terra, em tarde ensolarada depois da chuva,
salva-vidas na jardinagem de praias vazias - memórias em cores vivas.

[Kothbiro, composição e voz de Ayub Ogada]




quinta-feira, 16 de junho de 2011

fortuna

Poucos artistas foram tão favorecidos pela sorte como Felix Mendelssohn. Nascido em uma abastada família de banqueiros, inteligente, dotado de um grande encanto pessoal, tinha recebido meios de adquirir vasta cultura. Desenvolveu dons surpreendentes que se aplicavam aos mais diversos domínios: música, letras, pintura, filosofia, natação. Sua personalidade musical é a que mais se aproxima de Mozart. Quando ainda criança era um menino prodígio, como compositor e executante. Aos 17 anos já tinha escrito a Abertura de O Sonho de uma Noite de Verão e o Octeto. Mais tarde compõe a Sinfonia Italiana e o Concerto para Violino, obras próprias de um mestre, em quem a sensibilidade romântica é temperada por uma sólida cultura clássica. Aqui, o 1°e o 3°movimentos do Concerto para violino em mi menor, op.64, pela Orquestra de Leipzig e solista, Maxim Vengerov.
No segundo compasso deste 1°movimento o solo de violino é de uma cantilena de caráter lírico, trazendo o tema principal. Pouco depois flautas e clarinetes expõem uma melodia sobre uma suspensão emitida pelo violino. Entre 6:18 e 8:40 - pra mim, um esplendor! Termina com uma brilhante variação e uma simples nota sustentada pelo fagote que inicia o 2°movimento... é lindo!
A melodia em forma airosa que Vengerov executa sobre um fundo de pizzicati das cordas, cria uma evocação da cantilena inicial da obra que, no início deste 3°movimento, precede à introdução de um allegretto escrito num estilo que lembra o Sonho de uma Noite de Verão - muito bonito. Ainda sobre Mendelssohn, Berlioz escreveu:

"O que ouvi dele me entusiasmou, estou fortemente convencido de que é um dos maiores talentos musicais de nosso tempo e é também uma dessas almas cândidas que raras vezes encontramos".
Exerceu uma influência considerável na vida musical da Europa em sua época, redescobrindo e trazendo a público as obras maiores de Bach, Händel e Schubert, dando interpretações exemplares das sinfonias de Beethoven e das obras de Mozart, e favorecendo a carreira de Schumann e de Chopin. Sobre isto, um episódio curioso: há biografias afirmando que Mendelssohn teria encontrado grande parte das obras de Bach esquecidas num baú, sendo usadas como papel de embrulho no comércio, mas quem conta melhor é Rubem Alves:
"Bach era um modesto organista numa cidade do interior. nunca teve fama ou reconhecimento. Um dos seus patrões se refere a ele, numa carta, como "músico medíocre". Tinha por obrigação semanal compor peças sacras para a liturgia do culto luterano. Suas composições, uma vez executadas, eram esquecidas e guardadas em canastras e estantes em algum quarto da igreja. Surpreendido pela morte no meio da composição da "Arte da Fuga", ninguém ligou para o que deixara escrito. Seus manuscritos foram vendidos para um açougueiro que os usava para embrulhar carne. Mendelssohn, por acaso, foi comprar carne no tal açougueiro. Mas ele logo se desinteressou da carne, assombrado com o que via escrito no papel em que ela viria embrulhada. E foi assim que Bach foi descoberto no lugar mais deprimente do mundo, embrulhando carne num açougue. Graças a deus que Mendelssohn não era vegetariano!"    Extraído do livro "O amor que acende a lua", de Rubem Alves, 1999.
Em 1829, Mendelssohn organizou um dos acontecimentos musicais mais significativos do século, apresentando a Paixão Segundo São Matheus, de Bach, executada pela primeira vez desde a morte do mesmo, quase um século depois. A nós, as fortunas - da sorte de Mendelssohn estar atento ao papel de embrulho, e da arte, que reside justamente nesse nicho entre as coisas existenciais e imateriais.




domingo, 12 de junho de 2011

da aragem

Há muito que o trabalho do francês Michel Ocelot emociona. Ele é o diretor deste curta-metragem e dos belíssimos longas Kirikú e a Feiticeira, Azur y Asmar. Deixo por estes espaços Os Três Inventores - pequena obra-prima de papel - uma viagem no reino da delicadeza em cortes e texturas, tão grandiosa e tão sublime que a poesia a tela sacode.


Há um singelo mundo de rendas brancas sobre um fundo azul, capaz de sentir nossas dores e resguardar doces lembranças, sem perder a noção de realidade; inventa, queima, corta e assim mesmo é belo e transparente, repondo suaves ares. Uma jóia de raro quilate que Michel Ocelot manipula com competência e amor incontestáveis.


quinta-feira, 9 de junho de 2011

do ar

em voo, em vento, in concert        
Keith Jarrett, The Köln Concert, Parte I, January 24, 1975.





terça-feira, 7 de junho de 2011

brevê

Fabiana
Composição: Geraldo Vandré
feita em homenagem à FAB (Força Aérea Brasileira)
Desde os tempos distantes de criança
numa força sem par do pensamento
tem sentido infinito e resultante

do que sempre será meu sentimento

todo teu, todo amor e encantamento
vertente, resplendor e firmamento
.
Vive em tuas asas, todo o meu viver
meu sonhar marinho, todo amanhecer.

Como a flor do melhor entendimento

a certeza que nunca me faltou
na firmeza do teu querer bastante
seja perto ou distante é meu sustento
de lamentos não vive o que é querente
do teu ser, no passado e no presente.
Vive em tuas asas, todo meu viver
meu sonhar marinho, todo amanhecer.

Do futuro direi que sabem gentes
de todos os rincões e continentes
que só tu sabes do meu querer silente
porque só tu soubeste, enquanto infante
das luzes do luzir mais reluzente
pertencer ao meu ser mais permanente.
Vive em tuas asas, todo o meu viver
meu sonhar marinho, todo amanhecer.

Pátria Amada Idolatrada Salve Salve
Composição: Geraldo Vandré

Se é pra dizer-te adeus,
pra não te ver jamais
eu, que dos filhos teus
fui te querer demais,
no verso que hoje chora
pra me fazer capaz
da dor que me devora
quero dizer-te mais,
que além de adeus
agora eu te prometo, em paz,
levar comigo afora o amor demais.


Amado meu sempre será

quem me guardou no seu cantar
,
quem me levou além do céu
,
além dos seus e além do mais
,
amado meu que além de mim se dá
,
não se perdeu, nem se perderá.


[breve homenagem a Geraldo Vandré,
o cara que há tempos mudou minha vida, me assinou Rejane, assinou meu brevê]



sábado, 4 de junho de 2011

breve

Paganini, além dos Caprichos, inspirou Variações sobre seus temas que, em piano, violino ou orquestra, renovam-se na interpretação e no tempo. Witold Lutosławski na Variação sobre um tema de Paganini ecoa.

A dupla nos pianos, Nelson Freire e Martha Argerich, é verso e por isso voa. Juntos, levam-me dos pés à cabeça, vertem inverso e, breve, trazem-me à tona - disposição rara.



sexta-feira, 3 de junho de 2011

sextas

... daquelas semanas que pouco sobra no final,
dobro minhas gavetas no armário e procuro Piazzolla. Esbarro com Café 1930 repousando em vinho e cristais. Nos intrumentos Adam Bul e Marek Andrysek, nada me restou senão acolhê-los cobertos de cores, cobertores, meios, metros, pés, hiatos.