sexta-feira, 30 de setembro de 2011

retrogosto

brilho que venta, via de fato
          funda faísca frágil,  facho em feixe farto


Primavera Porteña, Piazzolla,

vasto velame, voo inebriante.




sexta-feira, 23 de setembro de 2011

ver seja

parte de alegria, farta a que me cabe
bela, breve, doce, a versejar meu dia

bem-vinda primavera seja, diante de tanto tudo,
respira ária de Lákme, canta em Flower duet, de Léo Delibes,
sentido e direção que exigem delicadeza pessoal em vida que urge.


sous le dôme épais où le blanc jasmin à la rose s'assemble
sur la rive en fleurs riant au matin viens, descendons ensemble!
doucement glissons de son flot charmant, suivons le courant fuyant
dans l'onde frémissante d'une main nonchalante viens, gagnons le bord
où la source dort et l'oiseau, l'oiseau chante.
sous le dôme épais où le blanc jasmin, ah! descendons ensemble!


terça-feira, 20 de setembro de 2011

em dia

todo dia com a data, com a argola da lua cheia e co'a nhapa das três marias,sovo meu laço na fieira destes versos e emparelho os quatro ventos.

era inverno sim, eu perdido em mim
rabiscava uns versos pra enganar a dor
o tédio, o pranto, o tombo
e encantava mágoas, milongueando sonhos
mas havia em mim, um cismar doentio
de agregar estimas aos atalhos gastos
dos compadres músicos
repartindo as tralhas tendo o olhar recluso
somos dessa aldeia filhos de parteiras
na parelha injusta da cor
somos pensadores sem pedir favores
somos dessa plebe, febre de palavras
na fronteira oculta dos rios
somos cantadores sem pedir favores
caso esta biboca, cova da desova
dilarece o fruto, mastigando o gulo
o sumo, o tudo, o nada
pego essa pandilha e engravido a rima
se amor der sombra, a sesteada é pouca
pra escorar no esteio, os livros, os arreios
o riso humano, o cusco, os ossos
e talvez, amigos, milongueando uns troços.
Milongueando uns troços, Mauro Moraes, voz Bebeto Alves
Gaudêncio sete luas, Luiz Coronel e Marco Aurélio vasconcellos, voz Marco
Com o violão na garupa, Mauro Moraes, voz Bebeto Alves
um caminho afinal, uma ponta de sol
um piquete de luz, uma pampa rural
uma chuva teimosa, uma pedra de sal
uma tropa de corte, uma sorte, uma dança
um arado, uma canga, um atado de cana
uma junta de bois, uma chuva sem mal


[sairei por aí com o violão na garupa
a alma cheia de gente, meus pertences Guarani
que tempos vida, vivi levando a dor aos bocejos,
dá-me um beijo, um gracejo, sem medo de sair]

uma benção materna, uma graça discreta
uma mágoa sincera, uma rapa de mel
uma rima na rédea, quebrando o chapéu
um tostado coiceiro, uma rês desgarrada
uma mata queimada, uma cara de casa
uma prosa de pala, povoando o papel


uma trova em milonga, uma longa invernada
uma nova moçada, uma outra palavra
um futuro passado, um espaço vazio

uma fala esquisita, uma ideia imprevista
uma volta sem ida, uma arte na mira
uma tarde tranquila, um causo de rio

[mais de Mauro Moraes aqui]

terça-feira, 13 de setembro de 2011

escambo

Pour la flamme que tu allumes au creux d'un lit pauvre ou rupin
Pour le plaisir qui s'y consume dans la toile ou dans le satin
Pour les enfants que tu ranimes au fond des dortoirs chérubins
Pour leurs pétales anonymes comme la rose du matin
Thank you Satan
Pour le voleur que tu recouvres de ton chandail tendre et rouquin
Pour les portes que tu lui ouvres sur la tanière des rupins
Pour le condamné que tu veilles a l'Abbaye du monte en l'air
Pour le rhum que tu lui conseilles et le mégot que tu lui sers
Thank you Satan
Pour les étoiles que tu sèmes dans le remords des assassins
Et pour ce cœur qui bat quand même dans la poitrine des putains
Pour les idées que tu maquilles dans la tête des citoyens
Pour la prise de la Bastille même si ça ne sert à rien
Thank you Satan
Pour le prêtre qui s'exaspère a retrouver le doux agneau
Pour le pinard élémentaire qu'il prend pour du Château Margaux
Pour l'anarchiste à qui tu donnes les deux couleurs de ton pays
Le rouge pour naître à Barcelone le noir pour mourir à Paris
Thank you Satan
Pour la sépulture anonyme que tu fis à Monsieur Mozart
Sans croix ni rien sauf pour la frime un chien, croque-mort du hasard
Pour les poètes que tu glisses au chevet des adolescents
Quand poussent dans l'ombre complice des fleurs du mal de dix-sept ans
Thank you Satan
Pour le péché que tu fais naître au sein des plus raides vertus
Et pour l'ennui qui va paraître au coin des lits où tu n'es plus
Pour les ballots que tu fais paître dans le pré comme des moutons
Pour ton honneur à ne paraître jamais à la télévision
Thank you Satan
Pour tout cela et plus encor: pour la solitude des rois
Le rire des têtes de morts, le moyen de tourner la loi
Et qu'on ne me fasse point taire et que je chante pour ton bien
Dans ce monde où les muselières ne sont plus faites pour les chiens
Thank you Satan!

Por essa chama que você acende no vazio de uma cama pobre ou não
Pelo prazer que ela consome
em panos de seda ou algodão
Pelas crianças que você cria
nos dormitórios de querubins
Por suas pétalas esquecidas
como a rosa da manhã
Thank you Satan

Pelo ladrão que você aquece
com tua lã macia e berne
Por toda porta descerrada
dos celeiros dos ricos empanturrados
Pelo condenado que você vela
na abadia dos ministérios
Pelo rum barato e velho
e pela guimba que você lhe dá
Thank you Satan

Pelas estrelas que você semeia
no remorso de um matador
Pelo coração que bate igual
no peito das putas dos bataclãs
Pelas idéias maquiadas
na mente de todo cidadão
Pela queda da Bastilha
que nunca nos dará o pão
Thank you Satan

Pelo padre que se exaspera
para encontrar o cordeiro de Deus
Pelo sangue vagabundo, elementar
que ele bebe como Château Margoux
Pelo anarquista a quem você dá
as duas cores de teu país
O vermelho para nascer em Barcelona
e o negro para morrer em Paris
Thank you Satan

Pela sepultura anônima
que você deu ao Monsieur Mozart
Sem cruz, sem nada, salvo a piada sem graça
de um cão surgido ao acaso
Pelos poetas que você escorrega
nos travesseiros dos adolescentes
Quando eles crescem sob a sombra cúmplice
das flores do mal dos dezessete
Thank you Satan

Pelo pecado que você faz nutrir
nos seios das mais rígidas virtudes
E pelo tormento que irá surgir
no canto dos leitos onde você não mais está
Pelos imbecis que você ordena padre
no pasto como carneiros
Por teu orgulho de jamais aparecer
na televisão
Thank you Satan

Por tudo, e mais ainda:
pela solidão dos reis
E pelo riso na cara das caveiras dos mortos
, o jeito de driblar a lei
E que não me ponham o dedo em riste
pois eu canto por teu bem
Nesse mundo onde as focinheiras
não são feitas só para os cães
Thank you Satan!
[Thank you Satan, composição e voz Léo Ferré]


Pelas roupas rasgadas, sujas, pelas roupas sem botão, pela falta de zíperes,

pelos utensílios quebrados e alimentos com prazo de validade vencido,
por estas doações que têm sido feitas - thank you Satan!

Porque há muito troquei minha vaquinha de presépio por um punhado de feijões mágicos amém!



terça-feira, 6 de setembro de 2011

sopro incidental

folha tu, tumberginha, folhe eu
folhear os sopros e os sons dos foles em páginas de instrumentos coloridos
                 estas flores azuis que lotam meu muro
melhoram meus olhos como palavras afinadas,
tingidas em música, promovem cor, orvalho, sabor.

[elas sopram som de Yann Tiersen]