segunda-feira, 31 de outubro de 2011

o maio de outubro

Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos,
assim te levo comigo, tarde de maio,
quando, ao rubor dos incêndios que consumiam a terra,

outra chama, não-perceptível, e tão mais devastadora,

surdamente lavrava sob meus traços cômicos,
e uma a uma, disjecta membra, deixava ainda palpitantes
e condenadas, no solo ardente, porções de minh'alma

nunca antes nem nunca mais aferidas em sua nobreza
sem fruto.


Mas os primitivos imploram à relíquia saúde e chuva,

colheita, fim do inimigo, não sei que portentos.

Eu nada te peço a ti, tarde de maio,

senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,

sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de

converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém

que, precisamente, volve o rosto, e passa...

Outono é a estação em que ocorrem tais crises,

e em maio, tantas vezes, morremos.


Para renascer, eu sei, numa fictícia primavera,

já então espectrais sob o aveludado da casca,

trazendo na sombra a aderência das resinas fúnebres

com que nos ungiram, e nas vestes a poeira do carro

fúnebre, tarde de maio, em que desaparecemos,

sem que ninguém, o amor inclusive, pusesse reparo.

E os que o vissem não saberiam dizer: se era um préstito

lutuoso, arrastado, poeirento, ou um desfile carnavalesco.

Nem houve testemunha.


Não há nunca testemunhas. Há desatentos. Curiosos, muitos.

Quem reconhece o drama, quando se precipita sem máscaras?

Se morro de amor, todos o ignoram

e negam. O próprio amor se desconhece e maltrata.

O próprio amor se esconde, ao jeito dos bichos caçados;

não está certo de ser amor, há tanto lavou a memória

das impurezas de barro e folha em que repousava. E resta,

perdida no ar, por que melhor se conserve,

uma particular tristeza, a imprimir seu selo nas nuvens.

TARDE DE MAIO, Carlos Drummond de Andrade
Claro Enigma, 1951

Eis um dos poemas mais bonitos que já tive o privilégio de ler e foi escrito pelas mãos deste cidadão brasileiro que aniversaria hoje - Carlos Drummond de Andrade. Com ele a desconstrução necessária no toque do apojo do poema, com ele a dentição que se declara armada de dissonância, com ele a luminária que pisca na velocidade da luz, com ele as reticências de imensa alegria, com ele, a cada releitura, a sensação de que já não se pode mais estalar os sapatos de rubi e voltar para o Kansas. A ele, um enorme agradecimento.





domingo, 30 de outubro de 2011

sete palmos

Ora, se uma madalena, mergulhada na infusão de chá preto ou de tília, pode desencadear em Proust recordações tanto tempo abandonadas, longe da memória, que o fizeram pensar "Em busca do tempo perdido" a ponto de escrevê-lo... na esperança, sempre na esperança, deixo em cima desta pedra um ponto de luz pálido, da mesma forma que o encontrei há anos atrás... foram 3:25 minutos que fizeram diferença na minha vida - a ideia como norte, estas coisas prenhes de vigor, por todos os caminhos, por cada caminho, por cada gesto, na ressonância do sentido.

...e porque há cozinhas que são feitas de pessoas que deixam seu jantar inacabado em algum lugar, o cientista e cidadão do mundo Carl Sagan entrega-nos, em 1994, o livro Pale Blue Dot - Pálido Ponto Azul. O vídeo é um fragamento do livro, com imagens da sonda Voyager, a Terra a 6,4 bilhões de quilômetros de distância, em som de Vangelis, The Music of Cosmos.     Um estalo no vento - é decidir a direção do palmo - claro e simples assim.


quarta-feira, 26 de outubro de 2011

cica triz

  ar [e] ando, encontro.
  por ar em espaços de vibração de silêncio.

Bach, orbital de densidão absoluta

Partita n2, BWV 1004 - Sarabande, Hahn





sábado, 22 de outubro de 2011

pés do caminho

feixe de luz que adentra estrada afora,
toda semente espontânea em cheiro de terra molhada,
tudo que mantém o viço do encontro - silvestre fruto.
traz por um triz, cicatriz ...e um instante d'olvido.


Rastrelli cello quartett,
Piazzolla, Oblivion


domingo, 16 de outubro de 2011

sustenidos

Há muitos cromatismos em música e entre os compositores também. Liszt contribuiu bastante pra imagem deformada que temos dele. Impressionado por Paganini, compõe ao longo do tempo um personagem de virtuose fenomenal que pulveriza os teclados e transfigura, na opinião de alguns, ou desfigura, na de outros, tudo o que toca. Faz do recital de piano o que Paganini fez do recital de violino: um grande espetáculo. Cuida o que toca com o corpo todo e vai ao ponto de mandar por no palco dois pianos passando de um para outro apenas para mostrar seus dois perfis. O públido aprecia particularmente as transcrições, arranjos ou paráfrases de obras conhecidas, em que manifesta uma imaginação e um virtuosismo espantosos. Toca um quase tudo! ...as grandes páginas de ópera, incluindo as de Wagner e Verdi, as lieder de Schubert, as obras para órgão de Bach e as sinfonias de Beethoven. Há quem censure o excesso de imaginação que ele demonstra na execução das obras para piano, imaginação essa com que enriquece o texto original, e, no entanto, é um pianista prodigioso, nisto concordam todos os testemunhos. A fama estrondosa do virtuoso impôs-se em prejuízo do compositor. Na época, o público interessou-se tanto pelo fenômeno pianístico e pelo homem paradoxal que deixou na sombra a maior parte da sua música. A obra de Lizst é muito mais importante do que vulgarmente se pensa. Virou as costas à tradição de maneira particularmente radical, revolucionando a tonalidade, a harmonia, a medida, a forma e a técnica instrumental. Como o seu amigo Berlioz é ao mesmo tempo célebre e desconhecido. Com o seu desprezo insolente pelas conveniências estes dois músicos chocavam mais os contemporâneos do que Schumann ou Chopin, audaciosos, mas convenientes. Há um lirismo generoso em Liszt, mas o que toda a gente admira em Wagner, recusa-se a ouvir em Liszt. Valoriza-se pouco sua obra prima sinfônica, a Faust-Symphonie e o esplêndido poema sinfônico Du Berceau à la Tombe, o que não diminui o valor das composições mais célebres: as espantosas Rapsódias Húngaras, cuja originalidade nos surpreenderia ainda hoje se as ouvíssemos pela primeira vez, os Prelúdios, majestosa sinfonia cíclica e, sobretudo, a Sonata, magnífico e tumultuoso poema pianístico que tanto perturbou Wagner a ponto de dizer a Liszt:
"A beleza desta sonata ultrapassa qualquer imaginação. É grande, afável, profunda, nobre, sublime como tu. Mexeu com os arcanos do meu ser."
Franz Liszt é nada menos que o precurssor e primeiro mestre do poema sinfônico, composição para orquestra de enormes proporções, mas habitualmente num só tempo e que, de forma diferente ao que acontece com a sinfonia clássica, leva uma ideia extramusical, literária, mitológica, filosófica, que a música procura evidenciar. Em 1912, após uma audição do belo poema sinfônico n°12, Les Idéals, Ravel escreve:
"Não haverá qualidades suficientes nesta tumultuosa efervescência, neste vasto e magnífico caos de matéria musical, onde foram beber várias gerações de compositores ilustres? [referindo-se a Wagner, Franck, Richard Strauss, Saint-Saëns, escola russa e francesa] Não devem o melhor das suas qualidades à generosidade musical verdadeiramente prodigiosa do grande precursor?"
Aqui, a intrigante Rapsódia Húngara n°2, executada em piano solo, por Martha Argerich.
E ainda em tempos de 12 de outubro, versão da mesma rapsódia por Tom & Jerry - The Cat Concerto, de Hanna & Barbera, 1946 - pela graça de cada riso infantil.

Na pauta, deixo espaços de semitons por necessidade de avivar esses caminhos esquecidos ou pouco valorados de gente que fez o mundo acontecer de maneira corajosa e revolucionária; a lembrar Rimbaud "...estendi cordas de campanário a campanário; grinaldas de janela a janela; correntes douradas de estrela a estrela, e danço."
E no toque do sol, crio a possibilidade de laços de afetos em varais de reminiscências líricas, num sublinho dentro, n'atividade da compreensão vária, por ares e áreas em tons sustenidos.


sábado, 8 de outubro de 2011

través

alma que amanhece                       ares de Beethoven e primavera
em linha proa-popa - adorno de ventos - eu, Noto.

“(…) O que queria não era diferente do que todos os sonhadores sempre quiseram. Queria construir um lugar onde ninguém explorasse ninguém, e onde as pessoas vivessem juntas sem distinção e diferenças mesquinhas de classe. Sonhava com um lugar onde homens e mulheres pudessem ser lavradores de manhã, poetas à tarde e carpinteiros à noite. [p.65] (…) as palavras são como o vento que faz ondular a superfície da água. O verdadeiro rio corre por baixo, sem ser visto nem ouvido. [p.357] - Maré Voraz, de Amitav Ghosh, ed.Alfaquara, 2008.

na espiral, Szeryng e Rubinstein,
Beethoven, Sonata n5, op.24, 'Spring' in f major, allegro
,


terça-feira, 4 de outubro de 2011

vento ascendendo velas

senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito

e ando com uma camisa de vento

ao contrário do esqueleto


sou um vestíbulo do impossível um lápis

de armazenado espanto e por fim

com a paciência dos versos

espero viver dentro de mim


sou em código o azul de todos

(curtido couro de cicatrizes)

uma avaria cantante

na maquineta dos felizes


senhores banqueiros sois a cidade

o vosso enfarte serei

não há cidade sem o parque

do sono que vos roubei


senhores professores que pusestes

a prêmio minha rara edição

de raptar-me em crianças que salvo

do incêndio da vossa lição


senhores tiranos que do baralho

de em pó volverdes sois os reis

sou um poeta jogo-me aos dados

ganho as paisagens que não vereis


senhores heróis até aos dentes

puro exercício de ninguém

minha cobardia é esperar-vos

umas estrofes mais além


senhores três quatro cinco e sete

que medo vos pôs por ordem?

que pavor fechou o leque

da vossa diferença enquanto homem?


senhores juízes que não molhais

a pena na tinta da natureza

não apedrejeis meu pássaro

sem que ele cante minha defesa


sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raíz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão

sou uma impudência a mesa posta

de um verso onde o possa escrever

ó subalimentados do sonho!

a poesia é para comer.


A Defesa do Poeta, Natália Correia
- na voz de Amália Rodrigues, 1968.
sopro ascendendo velas
por movimento de argo