sábado, 31 de dezembro de 2011

dois mil e doze

                                   ou trezentos e sessenta e seis
       eu quero pra mim
e desejo pra todos nós
um 2012 cheio de possibilidades

farto de escolhas conscientes e sustentáveis


...e porque a existência é ingente e coletiva: um villa-lobos, um duo assad, um estudo n°1, um fractal




quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

fóton

em sol maior   
quantum de luz, nem sempre claro,
mas definido, breve e sorridente

La Veillée, Yann Tiersen,
no cuidado.




sábado, 24 de dezembro de 2011

contracapa

à esquerda
                                                             em alinhamento de não-lugar,  quase sempre,
encaminhando o final de 2011,  na escolha de onde sempre estou,


para além da faixa de segurança, offramp,
are you going with me, Pat Metheny Group
foto Geison Borges




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

bastão de lume


vivências newtonianas em acordes de sentidos absolutamente poéticos,

sílaba a sílaba, traço a traço, perquiriam qual força prende a lua a sua órbita
... e seria de suma gravidade a não compreensão.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

aférese

há em mim uma dor contrária,
é que se for pra sangrar - doa! 
'través de lanterna mágica, pequenas figuras, sombrinhas,
'stou neste olhar, cena, sorriso, delicadeza, urgência,
'ste 2011 eu fiz, não copiei, nem mandei fazer.


Vivaldi - Concerto para 3 violinos em fá,
Itzhak Perlman, Isaac Stern & Zukerman

e porque dois mais um é mais que três ... neste seu natal  -  doe sangue!





quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

em Villa

águas do tororó nestas ruas que são minhas...
Villa-Lobos, dentro de seu temperamento inquieto e amazônico, sempre teve um espaço sentimental protegido, sereno, voltado para a infância. Suas andanças pelo Brasil afora recolhendo temas populares, folclóricos, canções infantis, produziram o Guia Prático, as Cirandinhas e finalmente as Cirandas, que representam mais uma declaração de amor ao Brasil, desta vez destinadas exclusivamente a piano. Das matrizes originais Villa-Lobos recria ritmos e vozes sem nunca deixar sua imensa criatividade empanar o brilho natural das pequenas canções infantis. Homero de Magalhães, no piano, compreendeu este espírito e nos legou uma versão que prima pela fidelidade aos propósitos de Villa-Lobos, segundo Turíbio Santos. Sua versão é fruto de já acurada e madura compreensão interpretativa. Ele foi o primeiro pianista brasileiro a gravar integralmente as cirandas. Tororó, em tupi, significa enxurrada, água sussurrante... e nesta rua a sonoridade da luz e da lua do caminho.  Mergulhe...  profunde-se em  Fui no tororó  e  Nesta rua, nesta rua.


Villa-Lobos, gênio musical criador - fusão de natural talento e síntese histórica - é de uma personalidade singular e arrebatadora, figura exponencial de educador, foi fundador do Conservatório Nacional de Canto Orfeônico e da Academia Brasileira de Música, líder e animador de vários movimentos culturais ocupa, até hoje, um lugar de destaque inconteste no panorama musical contemporâneo. Autodidata - foi "chorão" em sua juventude - soube interpretar de maneira soberba as origens de nossa música erudita, transportando-a de um estado quase que impessoal para um plano definitivo nos cenários nacional e internacional, através de um monumento sonoro que é todo força e pujança. Segundo encarte original, nas cirandas não vamos apreciar o intrumentador empolgante de Erosão, nem o neo-clássico das Bachianas e dos Quartetos de Cordas, nem o harmonista criativo e agressivo dos Choros, Sinfonias, e do Rudepoema, mas tão somente o realista apaixonado, dos temas populares, sincero e formalmente simples, por isso mesmo eloquente e grandioso. A ciranda das rodas infantis, como forma, apresenta um refrão, intercalado por trovas ou versos ditos por um solista. Captando de maneira inconfundível e individual o espírito destas cantigas, e estruturando uma coletânea que se constitui de verdadeiras jóias musicais, Villa-Lobos em suas 16 Cirandas nos prova uma vez mais e sobejamente, o grande mestre que é, e eis que, utilizando assunto de domínio público e ao alcance de todos, criou obra pessoal e permanentemente válida. Escritas em 1926, ao ouví-las, temos a sensação que são de hoje, num claro acordo com o tempo, num dar a volta, volta e meia vamos dar...   e, na contravolta, nomeio rejane.


segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

cincho a capricho

moro no aqui e agora   ...e há um dragão deitado ao alcance da vista
como dores
remoídas aos pedacinhos,
em meu olhar mambembe, circense,
eu aprendi
a rir com o palhaço, a cutucar o elefante,
a respeitar o leão,
a torcer pelo equilibrista, a cismar com o mágico e a admirar a bailarina.

Paganini, Capricho n°4 in c minor, não por um qualquer,
tema com variações de uma envergadura
só comparável à grande Ciaccona




sábado, 10 de dezembro de 2011

sábado claricicado

Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado - que fora da janela se balançava em acácias e sombras - eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-lo na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem - menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a benção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...

Era uma mesa para homens de boa vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.

A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos - tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
Junto do prato de cada mal convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera - mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar - um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós, tudo limpo do retorcido desejo humano. Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo o todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.

Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.

Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho com os olhos, tomava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos.
Pão é amor entre estranhos.


do livro Felicidade Clandestina, 1971
A Repartição dos Pães, voz de Aracy Balabanian.

Eu não tenho deus, mas o Deus de Clarice não me incomoda. Ela é o brilho de todas as luzes no rumo - minha total reverência à aniversariante - a querida Clarice Lispector.
Ela construiu meus caminhos plenos de gotas, travo, ternura e graça.

"o que o ser humano mais aspira é tornar-se um ser humano"
Clarice Lispector, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

polifonia

  ...uma dobra verticalizada,  um silêncio plissê.


ravel, midori, tzigane, oriente



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

translado


j'ai longtemps habité sous de vastes portiques
que les soleils marins teignaient de mille feux,

et que leurs grands piliers, droits et majestueux,

rendaient pareils, le soir, aux grottes basaltiques.

les houles, en roulant les images des cieux,

mêlaient d'une façon solennelle et mystique

les tout-puissants accords de leur riche musique

aux couleurs du couchant reflété par mes yeux.

c'est là que j'ai vécu dans les voluptés calmes,

au milieu de l'azur, des vagues, des splendeurs

et des esclaves nus, tout imprégnés d'odeurs,

qui me rafraîchissaient le front avec des palmes,

et dont l'unique soin était d'approfondir

le secret douloureux qui me faisait languir.
A vida anterior
Charles Baudelaire
muito tempo habitei sob átrios colossais
que o sol marinho em labaredas envolvia,
e cuja colunata majestosa e esguia
à noite semelhava grutas abissais.
o mar, que do alto céu a imagem devolve,
fundia em místicos e hieráticos rituais
as vibrações de seus acordes orquestrais
à cor do poente que nos olhos meus ardia.
ali foi que vivi entre volúpias calmas,
em pleno azul, ao pé das vagas, dos fulgores,
e dos escravos nus impregnados de odores,
que a fronte me abanavam com as suas palmas,
e cujo único intento era o de aprofundar
a dor secreta que me fez definhar.

...dezembro e esta tradução não me sai da cabeça:
apelo à quinquilharias de toda sorte - valoradas, vendidas, compradas -
em vento contra, sopro bolhas de sabão, um aspecto lúdico e visceral às dissonâncias.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

florada

flor de sina, momo
                     flor de cinamomo

A ópera e o quarteto de cordas podem andar juntos na obra de um compositor? Mozart não é um bom exemplo neste caso, porque chegou à perfeição em quase todos os gêneros. O brasileiro Carlos Gomes e seus contemporâneos Verdi e Gounod, todos fluentes compositores de óperas, escreveram cada um apenas um quarteto de cordas - o que sugere a dificuldade do desafio. Antônio Carlos Gomes foi o primeiro compositor brasileiro a alcançar renome internacional. Voltado para as lições de Verdi, foi à Europa com bolsa de estudos do governo do Brasil, fixando-se em Milão. O seu - o nosso - O Guarani, Il Guarany, com libreto em italiano, alcançou brilhante sucesso no La Scala, em 1870, anunciando ao mundo que o verdianismo tinha sucessores na América. Menos êxito alcançaram suas óperas posteriores, e o compositor, endividado, voltou ao Brasil, quando lhe sobrava pouco tempo de vida. A Sonata para instrumentos de corda é sua única incursão no gênero camerístico. Aqui o 1°movimento - allegro animato, e o 4°- vivace, desta doce Sonata em ré, num melodismo sensível e contagiante presente desde o início, e purificado pela nobreza do gênero. Este último tempo que, com ares lúdicos, Carlos Gomes batizou Burrico de Pau, pelos efeitos onomatopaicos habilmente conseguidos, deu nome à obra, como fez Schubert com seu quinteto A Truta.   É que todo ofício ensina flor.