terça-feira, 31 de janeiro de 2012

cálcico

...e sendo esse um caminho meu, há algumas marcas definitivas que deixo pousadas no espaço: Alfonsina Storni e Mercedes Sosa, por exemplo, como pedra em edificação, como corretivo de acidez de solo, como fundente, para refinação de doce - sulcos litográficos.

Vou dormir

dentes de flores, coifa de orvalho

mãos de ervas, tu, amável nutriz,
prepara-me os lençóis de terra
e a colcha de musgos capinados

vou dormir, ama-de-leite, deita-me,

põe uma lâmpada na minha cabeceira,
uma constelação qualquer;
todas são boas; inclina a luz mais um pouco

deixa-me só: ouve brotar os ramos
lá do alto do céu um pé te embala
e um pássaro desdenha teus compassos

para que esqueças... gracias. Ah, um recado:

se ele chamar novamente ao telefone
diga-lhe que não insista, que me fui

Último poema escrito por Alfonsina Storni antes do suicídio no mar; razão e inspiração de Félix Luna e Ariel Ramírez para a insubstituível composição Alfonsina y el mar na voz de Mercedes Sosa.


             Alfonsina y el mar

por la blanda arena que lame el mar
su pequeña huella no vuelve más
un sendero solo de pena y silencio llegó hasta el agua profunda
un sendero solo de penas mudas llegó hasta la espuma

sabe dios qué angustia te acompañó
qué dolores viejos calló tu voz
para recostarte arrullada en el canto de las caracolas marinas
la canción que canta en el fondo oscuro del mar, la caracola

te vas Alfonsina con tu soledad
¿qué poemas nuevos fuíste a buscar?
una voz antigüa de viento y de sal te requiebra el alma
y la está llevando, y te vas hacia allá
como en sueños, dormida, Alfonsina, vestida de mar

cinco sirenitas te llevarán
por caminos de algas y de coral
y fosforescentes caballos marinos harán una ronda a tu lado
y los habitantes del agua van a jugar pronto a tu lado

bájame la lámpara un poco más
déjame que duerma, nodriza, en paz
y si llama él no le digas que estoy, dile que Alfonsina no vuelve
y si llama él no le digas nunca que estoy, di que me he ido

vídeo com a colorida Mercedes,
na textura de seu poncho, em todos os tons de preto-e-branco



sábado, 28 de janeiro de 2012

das não desistências

sobre varar o tempo,
sobre a felicidade de olhos doridos,
sobre cavar nossos poços, olaria delicada em olhos de chuva,
sobre faculdades afetivas, sobre o mundo real, sobre o sonho possível.



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

radar

Ele é gaúcho, porto-alegrense e um dos maiores arranjadores que o país já teve - Radamés Gnattali aniversaria hoje. Além de centenas de composições impecáveis e inovadoras, produziu mais de 10 mil arranjos; e está para o Brasil como Piazzolla para Argentina, ou Frank Zappa para os Estados Unidos - atingiram a perfeita união da música erudita com a musica popular, donos de uma ordem absolutamente diferente, mestres na arte de ilustrar com música imagens em movimento.
A beleza do Estudo n°10, de Radamés Gnattali, tocado pelo talentoso Vinícius Sarmento
Um de seus mais aplicados discípulos, o virtuoso Rafael Rabello, definiu o mestre:
"o que o Villa-Lobos fez com o Brasil folclórico e rural, Radamés fez com o folclore urbano brasileiro. Mais ou menos como o George Gershwin, nos Estados Unidos. E ele nunca deixou de ser um anarquista, como o pai italiano e grevista. Mas, acima de tudo, um humanista. Sem exceção, ajudou todos os grandes nomes da música brasileira."
"Não por acaso, ganhou no final da longa vida o apelido de Radar. E era mesmo um radar. Um radar que apontou, captou e sinalizou o que de melhor se fez em música brasileira ao longo de mais de 60 anos."   Tom Jobim o descreveu assim:
Radar é água alta,
é fonte que nunca seca,
é cachoeira de amor,
é chorão rei de peteca.

o Radar é concertista,
compositor, pianista,
orquestrador, maestrão.
E, mais que tudo, é amigo,
navega junto contigo,
é conta de doação.

Ajuda a todo mundo
e mais ajudou a mim.
Alô, Radar, eu te ligo,
vamos tomar um chopinho.
Aqui fala o Tom Jobim.

Confere mais sobre Radamés, na muito bem produzida página pessoal, há nele um cheiro-gosto de terra orvalhada... Por olhares menos turvos no esquecimento da existência, na percepção das reticências dos arredores, há muito o que ser, há muito o que sentir ...e, por Bandeira, a ternura mais funda e mais cotidiana, aroma de luz.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

reverdecer

clara compreensão
denso aroma em prumo de horizonte

vinha de vida, sumo da manhã na caá assuntada, sobrenada




a flor da erva mate e Bach, no 2°movimento, Double Concerto,
violinos de Isaac Stern e Shlomo Mintz - caá i guá a florejar.



sábado, 21 de janeiro de 2012

dissimilitude

o sol é poncho do pobre
a lua do milongueiro
se por fora é noite escura

por dentro cor de braseiro


pro poncho não há aguaceiro,

geada brava ou vento xucro

bandeira em ponta de lança

toalha em mesa de truco


se despontam umas estrelas

na noite escura do pala

são coisas que aconteceram

cinco ou seis furos de bala


e quem pisar no meu poncho

pede a bênção pro capim,

quero ao morrer o meu pala

aberto em cima de mim
Poncho e Pala, de Luiz Coronel
caminho de pontos, traço de linha - pontes daltônicas
tamanho de letra em espaço de honra
Renato Borghetti por acordes de Ros e Hermeto



segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

na guarda, en garde























ensejo, asa de vaso em lanço de asar

mate em gardênia
    
      a nota, noto em asa branca, toquinho


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

desencontradiço

das ondas, das odes,
dos ondes, dos nadas, nadificados.


escrito original da grandiosa Hilda Hilst - Amavisse, e no toque,
canção VI, por Ná Ozetti
Ode descontínua e remota para flauta e oboé, de ariana para dionísio - poemas de Hilda Hilst, por Zeca Baleiro



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

marzipã

irresistível
força da natureza
em sol, areia, água, um toquinho
uma bachianinha n1, uma florada
- a vitória da paciência e da esperança.



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

densidão


elíptico, coerente, conciso, compassado,
consolidado em simplicidade desde o início, concluo o rejaneando assim - feito de coisas lembradas e esquecidas - com a voz encorpada num praeludium and allegro, do Kreisler, hoje, como na primeira postagem. Ad valorem até calar água, monção.

na barcarola, caprice viennois por
Sanders, piano, e Perlman, violino





quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

quinta essência de Quintana

Não leia romances, leia poesias. Ou melhor, leia dicionários. Se poesia é sugestão - semente que germina e floresce na alma do leitor -, vá lendo ao acaso um dicionário e nem pode imaginar o que lhe acontece. Ler um dicionário é até mais variado, poético e inspirativo do que olhar uma vitrine de bric.
[Da preguiça como método de trabalho:
Leituras, p.69]

rio

as águas vão passando... na cidade quieta
só o rio corre dentro da noite

é a vida continuando pelo mundo
[Água - Os últimos textos de Mario Quintana:
excerto de A cidade às margens do rio, p.18]


evolução
todas as noites o sono nos atira da beira de um cais
e ficamos repousando no fundo do mar.

o mar onde tudo recomeça... onde tudo se refaz

até que, um dia, nós criaremos asas.

e andaremos no ar como se anda em terra.


[Esconderijos do tempo:
Evolução, p.69]

janela
quando abro a cada manhã a janela do meu quarto
é como se abrisse o mesmo livro
numa página nova...

[A cor do invisível:
Hoje é outro dia, p.05]
andarilhos
esses inquietos ventos andarilhos
passam e dizem: vamos caminhar.
nós conhecemos misteriosos trilhos,
bosques antigos onde é bom cismar


[A rua dos cataventos:
excerto de Esses inquietos ventos andarilhos, p.43]


navios
no movimento
lento dos navios
o dia sonolento
vai inventando variações de luz (...)
as coisas também querem partir.
as coisas também querem chegar.


[Água - Os últimos textos de Mario Quintana:
Porto de Suape, p.22]
encantação
as casas cerraram seus milhares de pálpebras.
as ruas pouco a pouco deixaram de andar.
só a lua multiplicou-se em todos os poços e poças.
tudo está sob a encantação lunar


[Apontamentos de história sobrenatural:
excerto de Lunar, p.20]
ar
... e levada pelos sinos,
toda ventando de sinos,
dança a cidade no ar.


[Lili inventa o mundo:
excerto da Canção do primeiro do ano, p.38]


...e no abojo, circunscrevendo,
piazzolla no romance del diablo

Em bilhete dirigido ao pré-socrático Heráclito, diz Quintana a respeito de si: "Tudo deu certo, meu velho Heráclito, porque eu sempre consigo atravessar esse teu outro rio com o meu eu eternamente outro".


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

espessidão

paz em movimento, moinhos de música

há mareiro,
acastela, entesoura,
trio ponteio, chamando chuva,
uma florada, um arco-íris na calçada