quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

bandim

  há nestes dias bissextos
  um quê de Quintana e Brecht
  um quê de presente grego e três vinténs
* Com a adição de mais um dia nos anos bissextos - esse indesejado 29 de fevereiro -
a gente sempre desconfia que na verdade foi vítima de uma subtração.

Presente grego, Caderno H
Perlman & Peterson, Mack the knife


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

da lava ao ladro

Richard Wagner é o gênio mais paradoxal da história da música. Não nasceu músico, como tantos outros compositores célebres, experimenta um pouco de tudo como diletante e finalmente escolhe a música por influência da emoção sentida ao ouvir as sinfonias de Beethoven. A enorme literatura a seu respeito limitou-se a tornar mais obscuro seu pensamento e mais enigmática a sua personalidade. Aqui, a clave de dó - a menos conhecida - a representá-lo. Wagner criou a própria lenda compondo sua autobiografia, voluntarista, empreendedor, calculista, há de enganar sempre todos: as mulheres, os amigos, o seu benfeitor real e a si próprio. Nada nele parece espontâneo, nem sequer o amor. O amor que decide sentir por Mathilde Wesendonck é a experiência de que precisa para compor Tristão. "Tu estás condenada a morrer para me dares a vida", escreve-lhe. Acabada a obra, abandona Mathilde. É certamente o herói de um romantismo em declínio. "Um belo pôr-do-sol que se julgou ser uma aurora" - dirá Debussy. E a sua obra é a realização de um velho sonho: fazer da arte uma religião que há de transformar o mundo. Mesmo sobre o profano irredutível, sua música exerce um fascínio. Nem o espírito nem os sentidos resistem à poderosa lentidão das intermináveis sinfonias com canto, grandes rios sagrados ao longo dos quais se elevam vozes. Lentamente a razão estabate-se como sob o império de um delicioso veneno.
"Parece, por vezes - escreve Baudelaire - ao ouvir esta música ardente e despótica, que se encontram, pintadas sobre um fundo de trevas, rasgadas pelo sonho, as vertiginosas concepções do ópio."
Não se pode explicar melhor esta espécie de voluptuosa narcose em que nos mergulha a música de Wagner. A sua principal originalidade é esta continuidade irresistivel que impõe o chavão do rio ou da torrente de lava. Em sua obra, a ausência de repouso cria o sentimento de um tempo irracional, sem polaridade, em que o espírito flutua como acontece com as coisas imponderáveis. Na ópera, Wagner decidiu fundamentar o primado do drama, mas confirmou com brilho o primado da música. A sua arte é essencialmente musical: a música conduz o drama, define caracteres, representa as situações psicológicas e nos permite uma viagem longa e diversificada. É claro que se trata de uma pura dramaturgia musical. É a beleza da sinfonia que nos faz aceitar que Tristão e Isolda se pareçam com Siegried e Brunilde ou que Parsifal eleve à condição de dogma a confusão dos valores. O gênio está na criação de uma hipnose, pela continuidade melódica e sinfônica, e no estabelecimento de associações psicológicas pela reminiscência dos temas condutores.   À margem da reforma wagneriana, e em contradição com seus princípios, a famosa ópera Die Meistersinger Von Nürnberg - Os Mestres Cantores de Nuremberg - leva-nos de volta a um mundo afável. Glenn Gould - entusiasmado e apaixonante como sempre - fez a transcrição para piano desta obra, que soa lindamente em todo o ser.
Confira parte do belíssimo prelúdio do primeiro ato, gravado em janeiro de 1974.
Os sentimentos estão à escala humana, a emoção é reconhecível, o humor e a generosidade protegem-nos de toda a vulgaridade. Nesta obra em especial podemos identificar-nos com os heróis sem nos couraçarmos com virtudes guerreiras; não precisamos de talismã para encontrar na tenda do velho Sachs os cheiros familiares, a bonomia sentimental, a sabedoria sorridente dos justos. Não há nevoeiro que nos abafe, nem um sol negro ensombrece o nosso céu, enquanto aplaudimos o triunfo do espírito sobre a letra e do amor sobre o único malefício que se lhe opõe: a afetação burlesca de Beckmesser. A partitura é de arrebatar o coração, de uma riqueza e diversidade magníficas: nobre, cômica, fresca, sábia, terna e poderosa com medida ...e quem não gostaria de características como estas.


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

anda luz

porque hoje é o aniversário dele
porque ele fez diferença na minha vida
porque eu nunca resisti ao seu olhar brilhante


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

poinsétia

...raros elementos alinhados por ver sus    
   sobre o tapete vermelho,
remoinham quatro palitinhos e ene mais um,
risos-orvalho assuntados, ares no voo em signo de delicadeza e tolerância às diferenças.


com passo de habla con ella,
Almodóvar e Alberto Iglesias



quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

desenlaço


num concerto para 2 bandolins, andante
por afinação como de um violino, quatro linhas em carícia orgânica,
é pé no chão e pé ao alto, equilíbrio de sombrinha colorida.

"minha garupa sangra, a dor poreja,
quando o chicote do simum dardeja
o teu braço eternal"

Castro Alves, em poesias escolhidas,
caminho Vivaldi.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

germinando retratos

Há haveres e estares no mundo que não dispenso em som ou em silêncio de contemplação. Há brasileiros com eterno convite à mesa posta em minha casa - Jacob do Bandolim é um deles. Mais sobre ele aqui ...muito mais sobre ele na carta que escreveu para Radamés Gnattali ...e a cada nota de bandolim ressoado no coração de quem o ouve.
Trecho da carta: - "Meu caro Radamés, Antes de 'Retratos', eu vivia reclamando: É preciso ensaiar... E a coisa ficava por aí, ensaios e mais ensaios. E se hoje existia um Jacob feito exclusivamente à custa de seu próprio esforço, de agora em diante há outro, feito por você, pelo seu estímulo, pela sua confiança e pelo talento que você nos oferece e que poucos aproveitam". -

A suíte Retratos foi composta por Radamés Gnattali nos anos de 1957/58 e gravada por Jacob, em fevereiro de 1964, com a participação de Radamés e Orquestra. São 4 movimentos: Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga. "Retratos foi um salto de qualidade na carreira de Jacob e na música brasileira. Com a fusão perfeita entre a linguagem camerística e a popular, Radamés inaugurou uma nova dimensão no choro que, entretanto, só amadureceria cerca de 20 anos depois."
Ingênuo, do Pixinguinha, por Jacob do Bandolim. Aniversariante e dono do brinde de hoje, Jacob, um autodidata, identifica-se com o bandolim, instrumento que teve sua origem no alaúde ou, mais provavelmente, na mandola. Faz chover com as quatro cordas duplas, afinadas como no violino. Além de virtuoso instrumentista, preocupou-se em resgatar e preservar tudo que podia sobre a música brasileira, particularmente o choro. Exímio fotógrafo, microfilmou pessoalmente milhares de partituras, em especial a obra de Ernesto Nazareth, Candinho do Trombone e João Pernambuco, criando o Arquivo do Jacob - um patrimônio brasileiro.
A ele um leito de rio, um desague no mar, um ponteiro parado, um sonho plácido, uma ventura de viagem, ...a ele um descompasso dissonante, uma lata de minhocas, um sorriso aberto, um punhado de tempero, um retrogosto na boca, um toldo sorridente, ...a ele uma explosão radiofônica, uma névoa clara, um aroma macio, um par de galochas vermelhas, o carteiro no portão, a música na janela e a taça ao alto!
É dele o diploma de santo marido [re,re], outorgado pela grandiosa Adylia Bittencourt, uma mulher de primeira grandeza, uma menina azulcinada, uma guardiã de arquivos.


domingo, 12 de fevereiro de 2012

centelha e âncora

  porque o direito à viagem é universal,
  porque o transporte é livre e sem restrições,
  porque toda subjetividade merece estímulo e respeito.


The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, 2011



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

dois reais

ninguém deve nada pra ninguém,
no brilho do olhar um valor superior ao preço combinado,
o troco
- qualidade de vida, tão bonita.



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

haveres

quase todo mundo tem fórmula pronta  
- eu é que me empenho em não ter

em ressonância de vida: decarisimo, Piazzolla


...e, no olhar, a pergunta:
quem disse que essa bola de 6 trilhões de trilhões de toneladas tem controle?




sábado, 4 de fevereiro de 2012

eixo de ansa boreal

__traço caminhos, ânimo que passa pelo vão da traça, eixos de histórias ao sul do dragão,
sulco de pauta, fluida constelação - rosa dos ventos de minhas asas.

Perlman e Pablo Sarasate,
na Habanera, op21 n°2,
em brilho de constelação boreal - ao noroeste de Hércules, ao sul do dragão__