sábado, 31 de março de 2012

remate em bemol maior

os bispos não me valem nada, da rainha pouco preciso,
conspiram dano e mofina num lance de roque a proteger torre e rei,

e sobeja fado a tramar duelo eólico,
ainda há rocio e rócio, alguns peões importantes,
mas basta um, o rocim - o mate - e o rei perde o trem,
o trema, o assento - a crença, o bote - perde o dom para quixote.



"e assim, depois de escrever, riscar, e trocar muitos nomes, ajuntou, desfez, e refez na própria lembrança outros, até que acertou em o apelidar Rocinante, nome, em seu conceito, alto, sonoro, e significativo do que havia sido quando não passava de rocim, antes do que ao presente era, como quem dissera que era o primeiro de todos os rocins do mundo" - Quixote e Gould porque para o dia de Haydn, nada menos que a sonata em e-flat maior e um ante-rocim peleando até o fim.


quarta-feira, 28 de março de 2012

sobre probidade

...o dia é de silêncio, mas eu gostaria muito de oferecer a exuberância do som do stradivarius e toda delicadeza e energia que transbordam do corpo Sayaka Shoji, pra um cara chamado Millôr Fernandes - a ele toda minha reverência, toda.
Tchaikovsky - Concerto para violino, op.35,
Filarmônica de São Petersburgo.

recuperando vídeo que se tornou privado:

terça-feira, 27 de março de 2012

beira de estige

  de los hermanos jabutis a velocidade,
dos dromedários, as mais poderosas reservas,
vagam por tudo, por tão, atahualpa e mercedes sosa,
porque devagar se vai e se vê ao longe, pura e naturalmente.

yo tengo tantos hermanos, que no los puedo contar,
en el valle, la montaña, en la pampa y en el mar
cada cual con sus trabajos, con sus sueños cada cual,
con la esperanza delante, con los recuerdos, detrás
yo tengo tantos hermanos, que no los puedo contar

gente de mano caliente por eso de la amistad,
con un lloro pa'llorarlo, con un rezo pa'rezar
con un horizonte abierto, que siempre está más allá,
y esa fuerza pa' buscarlo con tesón y voluntad
cuando parece más cerca es cuando se aleja más
yo tengo tantos hermanos, que no los puedo contar

y así seguimos andando curtidos de soledad,
nos perdemos por el mundo, nos volvemos a encontrar
y así nos reconocemos por el lejano mirar,
por las coplas que mordemos, semillas de inmensidad
y así seguimos andando curtidos de soledad,
y en nosotros nuestros muertos pa' que nadie quede atrás

yo tengo tantos hermanos, que no los puedo contar,
y una hermana muy hermosa que se llama libertad

por essência latinoamericana,
prainha, sementes de imensidão.


domingo, 25 de março de 2012

a magicar

Arturo Toscanini, Leila Diniz e Béla Bartók, por isso - só por isso - 25 de março deveria ser mais do que uma rua para comércio em São Paulo, porque eles têm em comum a genialidade, a cisma, a impetuosidade, a competência - a humanidade e o devaneio, características que, quando concentradas, produzem diferença no referencial humano de todos nós.
O gênio de Bartók não foi reconhecido em vida. Se considerarmos que as primeiras obras verdadeiramente originais datam de 1908, Bagatelas para piano, mal se pode compreender que um músico tão genial tenha sofrido, durante tanto tempo, a indiferença do público internacional. O estilo sutil e independente nunca se conciliou com as modas sucessivas, sua originalidade é muito profunda para que possa integrar-se nos movimentos musicais contemporâneos. Contudo, a fama de Bartók não se fundamentou na sua obra-prima - Música para cordas, percussão e Celesta, que é, ao mesmo tempo, o resultado de um pensamento musical exemplar e um dos pontos mais altos da arte do século XX. Ali, as mais belas sonoridades de seda, de jade e de cristal parecem ter tido algumas dificuldades para se imporem. Há muito o que ser revisitado em Bartók - é preciosidade pura - aqui, os belos acordes do 2°movimento do Concerto para Orquestra, na regência de Pierre Boulez com a Orquestra de Paris. A obra combina elementos da música erudita ocidental e da música popular do leste europeu, mesclando tonalidades inusitadas, ventos, pios, rumores, danças, num balançar sinuoso e inquietante.


Excluindo-se as primeiras obras, anteriores a 1905, cuja estética ainda indecisa muito deve a Liszt e a Brahms, em 40 anos de atividade criadora Bartók realiza uma síntese muito original da música moderna ocidental e do folclore magiar. A essência da canção popular que alimenta seu pensamento musical, qualquer que seja o modo escolhido, e as inversões cromáticas muito características, dão à melodia um aspecto inimitável. De nacionalidade húngara, referia:
"Kodály e eu queríamos fazer a síntese do oriente e do ocidente. Pela nossa raça, a posição geográfica do nosso país que é, ao mesmo tempo, a ponta extrema do leste e o bastião defensivo do oeste, podíamos aspirar a este propósito. Isto foi-nos possível graças a Debussy, cuja música acabávamos de conhecer e nos iluminava."
Bartók assimila os caracteres rítmico e melódico da música popular nas suas obras tão livremente qual um poeta da língua materna. Salvo indicações de origem, incluídas no título, só utiliza nas suas obras as melodias populares autênticas. Seus trabalhos sobre o folclore têm uma qualidade científica excepcional para a época. Poder-se-ía extrair dos escritos e das declarações uma carta da etnomusicologia moderna e seu método de trabalho continua a ser um modelo. A dedicação e o empenho tornam-lhe imprescindível, sua dificuldade preliminar foi conseguir que os velhos camponeses cantassem antigas canções autênticas, preservadas de toda a corrupção e não as canções novas que os filhos traziam da cidade, o que supunha o conhecimento da língua e das tradições locais. Quando atinge este objetivo, Bartók grava num fonógrafo de cilindros a preciosa melodia e recolhe um maior número possível de informações sobre o documento musical, sobre o instrumento eventualmente utilizado e sobre o informador. Depois de ouvir as gravações efetuadas, esforça-se por anotar as canções da forma o mais exata possível. Eis um método que comporta uma ética incontestável, que implica na compreensão fraterna e no respeito absoluto pelas diferentes etnias. Dizia:
"O investigador deve esforçar-se por esquecer qualquer sentimento nacional enquanto trabalha, ao comparar os materias dos diferentes países. A minha verdadeira ideia principal é a da fraternidade dos povos, uma fraternidade contra tudo e contra todas as guerras, todos os conflitos."
O nacionalismo de Bartók é um humanismo. Revoltado com a ascensão do nazismo e pelos ecos que experimenta no seu país, mais do que nunca ligado ao ideal de paz e de justiça universais, Bartók transforma a angústia em energia criadora. A tragédia da tirania e da guerra, o exílio, uma pobreza próxima da miséria, finalmente a doença, acabam com este ímpeto genial e a morte vem marcar o início de sua glória. Era fatal que nem sempre fosse compreendido e que se tornasse popular pelo que não era: um zíngaro. Como Debussy, Béla Bartók é o músico das intuições profundas e das grandes sínteses. Destinado a ir além dos confins do imaginário para defender suas ideias, foi e continuará a ser uma das personalidades mais admiráveis da história da música, percorreu perdas e pedras, avistou portos, avançou em lucidez e desatino, descortinou a noite escondida sob a égide da esfinge sem mistérios - um andarilho dos sons que ousou apontar no horizonte sorrisos que lhe vazavam dos olhos.


quarta-feira, 21 de março de 2012

voo da romã

crisálida de instante em floração Johann Sebastian Bach,
meu coração é festa com ele,
em roma ou em romã de casa.


por aqui, Concerto para violino & oboé em dó menor, bwv1060, com a Hilary Hahn e Allan Vogel, num primeiro movimento, num allegro de ênfase à data, de tudo que floresce em foz de nascimento Bach, que - não por acaso - aniversaria em dia mundial da poesia.




terça-feira, 20 de março de 2012

quinta nota em linha equatorial






                    na estação, voz e viola, apenas.
                    autumn leaves, barbra streisand, 1966
                   






sexta-feira, 16 de março de 2012

varietal

o gênio piazzolla e anelos, los sueños
sorridentes sabores frutados no fôlego do olhar,
poliedro de afeto em sopros de luz.



quarta-feira, 14 de março de 2012

esquinas de origami

na minha cidade tem poetas, poetas que chegam sem tambores nem trombetas,
trombetas e sempre aparecem quando menos aguardados, guardados,
guardados entre livros e sapatos, em baús empoeirados
saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares onde vivem com seus pares, seus pares,
seus pares e convivem com fantasmas multicores de cores,
de cores que te pintam as olheiras e te pedem que não chores
suas ilusões são repartidas, partidas, partidas entre mortos e feridas, feridas,
feridas mas resistem com palavras confundidas, fundidas,
fundidas ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas
não desejam glórias nem medalhas, medalhas, medalhas, se contentam com migalhas,
migalhas, migalhas de canções e brincadeiras com seus versos dispersos,
dispersos, obcecados pela busca de tesouros submersos
fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos que jamais são alcançados, cansados, cansados nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem,
escrevem o que sabem que não sabem e o que dizem que não devem
andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas, como se fossem cometas, cometas,
cometas num estranho céu de estrelas idiotas e outras
e outras cujo brilho sem barulho veste suas caudas tortas
na minha cidade tem canetas, canetas, canetas, esvaindo-se em milhares, milhares,
milhares de palavras retorcendo-se confusas, confusas,
confusas em delgados guardanapos feito moscas inconclusas
andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo que eles vêem nos vão dizendo,
dizendo e sendo eles poetas de verdade enquanto espiam e piram
e piram
não se cansam de falar do que eles juram que não viram
olham para o céu esses poetas, poetas, poetas como se fossem lunetas,
lunetas lunáticas, lançadas ao espaço e ao mundo inteiro, inteiro,
inteiro fossem vendo pra depois voltar pro Rio de Janeiro

Guardanapos de Papel e Milton Nascimento, eu me encanto, ele esquina, lapida   
minhas mais belas dobras de origami.   





     




sábado, 10 de março de 2012

especiarias


minhas canelas viajam, saboreiam
a vida,
silenciam nas estepes da mongólia ou sobem
as colinas da acrópole
...e avistam as colunas do partenon na grécia

Dle Yaman,
Isabel Bayrakdarian
e Minasyan Duduk Quartet

quinta-feira, 8 de março de 2012

oito de março

algumas meninas de todas as idades fizeram diferença na minha vida,
a elas, a todas elas - minha reverência


terça-feira, 6 de março de 2012

dagora

dali, à espera da lua cheia, vagando no toque do olhar terroir,
daqui, dvorak, rusalka, song to the moon, e algumas considerações

mesiku na nebi hlubokem svetlo tvé daleko vidi,
po svete bloudis sirokém, divas se v pribytky lidi.
mesicku, postuj chvili reckni mi, kde je muj mily
rekni mu, stribmy mesicku, me ze jej objima rame,
aby si alespon chvilicku vzpomenul ve sneni na mne
zasvet mu do daleka rekni mu, rekni m kdo tu nan ceka!
mneli duse lidska sni at'se tou vzpominkou vzbudi!
mesicku, nezhasni, nezhasni!



domingo, 4 de março de 2012

centauro do oeste

  
...salamê minguê!
encantam meus olhos abertos, desertos,
perlongas em rimas de sílabas a guardar, a simplicidade está por perto,
amanheceu e é mais um hoje que vai longe - brilho de afeto em função particular, a'o til.



no ponteiro:
alguém distante, Marcello Caminha