segunda-feira, 28 de maio de 2012

esfera desdobrada

tirinhas silenciosas, sempre-vivas em acordes de jardim





espargindo pólen,  nos primeiros movimentos,
l'aurore,
eugene ysaye, a luzir com hilary hahn



domingo, 27 de maio de 2012

estrado espiral

à simplicidade, à sutileza e à saúde,
em cada volta inteira eu renasço e me incompleto


num allegro moderato, um buquê de sabores,
no recomeço, pela data,
e por princípio.




quinta-feira, 24 de maio de 2012

estrada enluarada

porque Beethoven resplandece traços fonéticos,
porque há um voo que tinge iluminura neste último movimento,
porque riscar estradas em trança de fado sugere estradar laços na tangente.




terça-feira, 22 de maio de 2012

entalhes de silva

Entregue muito novo ao avô e ao tio, dois simpáticos extravagantes, Erik cultivou a mistificação burlesca, aliás, com um belo talento: "nasci muito jovem, num tempo muito velho", dizia. Erik Satie pertence à geração de músicos franceses nascidos entre Debussy e Ravel. Os amigos consideraram-no um genial lanceiro de linha de frente, os inimigos, um mistificador. Nunca se saberá como a si próprio se julgava, no segredo ciosamente guardado da solidão. A personalidade singular e o comportamento insólito serviram para forjar uma falsa lenda, a ideia que se podia fazer de seu talento. Pintores e escritores puseram-no nos píncaros, opondo-o a Debussy, Ravel, Stravinsky. Aliás, estes renderam homenagem à profunda originalidade da sua estética. Mais tarde, com exceção de alguns fiéis, os músicos farão marcha contrária, recusando-se a considerar como um dos seus este gentil farsante que não assume o próprio jogo. Apesar disso, é dono de um belo lugar no templo dos compositores. A sua lenda esconde o músico sutil, criador de alguns acordes perfeitos, e um espantoso precursor. É dadaísta em 1913, três anos antes do nascimento do movimento dada. E, a partir de 1914, dez anos antes do primeiro manifesto do surrealismo, os restos narrativos que acompanham as peças para piano desenvolvendo-se com a música são nitidamente de inspiração surrealista. Em pleno wagnerismo cultiva, nas primeiras obras, um angelismo medieval, adapta aos velhos modos os imperturbáveis encadeamentos paralelos, depois suprime as barras de compasso, inscreve indicações fantasistas nas partituras, expressões como: "com espanto", "passo a passo", "abra a cabeça", e esconde as suas intenções sob títulos misteriosos: Ogivas, Gimnopédias, Gnossianas... Enquanto os músicos franceses estavam fascinados por Debussy, Ravel e o primeiro Stravisnky, Satie compõe suítes para piano, severas, meticulosamente simples e maravilhosamente insolentes, a que dá títulos interessantes e mistificadores: Prelúdios flasques, Peças frias, Descrições automáticas, Embriões secos, e outras. Em 1916, compõe Parade, sua partitura mais importante, executada no ano seguinte pelos bailados russos, no meio de uma balbúrdia indescritível:
"Um orfeão carregado de sonhos", escreve Jean Cocteau, autor do argumento.
"Um fundo com certos ruídos que Cocteau acha indispensáveis", declara Satie radiante, com uma modéstia hipócrita. Quer, para o futuro, compor uma música de mobiliário, uma música decorativa, que renuncia a qualquer expressão, mesmo humorística - quer, mas não consegue. Eis que esta estética não se liga a nenhuma corrente contemporânea, mas influenciou fortemente uma parte da música entre as duas grandes guerras e inspirou a Satie as suas mais belas composições: Parade, o admirável Sócrates, cinco Noturnos para piano, dois outros bailados, Mercúrio, para as Soirées de Paris de Étienne de Beaumont, com cenários de Picasso, e Relâche, para os bailados suecos, com Entr'acte cinematográfico, de René Clair. Era ao mesmo tempo subversivo e modesto. Tinha espírito de contradição a mais para ser um epígono e demasiado humor para se tornar sério, e é de uma sutileza e doçura arrebatadoras - aqui, Erik Satie, Trois Gymnopédies
Satie, dono de uma geografia melódica particular, entre florações, alagamentos e abismos, remete-nos aos passeios dos sonhos, aos bons encontros. E nas chuvas, no inverso do senso comum, o rumo é a estrada, o caminho, a rua, é abrir a janela pra acolher o cheiro de terra molhada. ...E ainda, no fôlego, a inclusão de solo, água e ar, na interpretação de Jacques Loussier Trio, Gnossiennes ou Gymnopédies, em ordem ou desordem.



sábado, 19 de maio de 2012

estampido

que pulsa veias e rumos,  

martelo e bigorna em meus ouvidos colados,
melodia no espaço encantado, à procura de pérolas, brinco circular.




sexta-feira, 18 de maio de 2012

estampado






sons de barbante,

de brilho






quarta-feira, 16 de maio de 2012

esquadrias

muitas, em quase todas,
mercedes, mercadejos, merceditas,


herança que tem preço mas não está à venda - atenção e cuidados,   
alpargatas, cantarias lapidadas em caminhos de real lejos.   




sábado, 12 de maio de 2012

estribilho


bordado em luz de rastilho,
direção sem trilho

interlúdio
zarathustra



sexta-feira, 11 de maio de 2012

estalido de persiana

   guiso, propósito e procela
ateia - desde criança eu acredito em saci, um pé de vento, encaminho.





quinta-feira, 10 de maio de 2012

efervescências

  
rubros ventos de jaula na cova dos leões, elos em efusão escarlate,
fibra por fibra, detalhes de excelência no toque de um souvenir d'amérique.

na esfera dos velhos tempos, aqui e agora,
henri vieuxtemps e leila josefowicz.




terça-feira, 8 de maio de 2012

em muitos movimentos

  na companhia de Gottschalk, e na fantasia de um Brasil real, assim

ele enche um caminhão de atitude, sonho e fantasia,
corre Brasil afora pra alegria de muitos e pra meu orgulho,
ele é Arthur Moreira Lima, eterno viajante em estrada afetiva,
dono de boa parte do meu coração mambembe e de muitos sorrisos.




sábado, 5 de maio de 2012

esquadrinhando

muito mais próxima e brilhante,

a maior lua cheia do ano acontecerá hoje,
não será o momento de guardar tudo o que é máquina e desfrutar humana e plenamente?


fora do lugar comum, além do clair de lune - entre o cristalino e todo o todo -
toda bergamasque, debussy, arrau, e veríssimo
.


quarta-feira, 2 de maio de 2012

estribo de prata

Ele foi um inovador, cuja importância teria sido mais sentida se sua obra desconcertante não tivesse sido eclipsada por Debussy. Além das suas fronteiras, a arte sutil de Gabriel Fauré está próxima da Art poétique que Verlaine ilustra e define, e é geralmente considerada como específica da cultura francesa no que ela tem de mais original e de mais inexportável. É verdade que a beleza secreta da obra de Fauré, cuja parte mais preciosa, excetuando o admirável Quarteto de Cordas, está contida nas últimas antologias de peças para piano, mas a beleza desta música nobre e serena só se revela ao amador cultivado que há de saber descobrir na sutileza harmônica, onde geralmente a melodia decorre, o segredo de uma sensibilidade musical singular. O seu gênio original deve pouco ao mestre e amigo Saint-Saëns e nada a Lizst ou Wagner, que admirava, com prudêcia. Criou uma escrita pianística minuciosamente não conformista, de que a geração seguinte será tributária. A harmonia comovente, com suas notas celestes em ruptura de equilíbrio, foi livre e original. É o criador de um tipo de melodia francesa inseparável da cultura nacional. Viveu o suficiente para ser confrontado com os seus discípulos na derradeira realização de uma obra que tende para a purificação de seu próprio estilo. Pavane, op.50, é um bom exemplo, aqui registrada na interpretação e condução de Bobby McFerrin e, nos fachos de luz, a Orchestra Filarmonica della Scala.

Permanece, contudo, muito sensível às pesquisas dos alunos, que admira e encoraja com uma notável inteligência do futuro da música francesa. Sua pedagogia é um ato de amor e Ravel, seu discípulo, conservou a memória da bondade transbordante, da intuição e abertura de espírito, em Fauré. No entanto, se toda a gente presta homenagem a Fauré, os seus intérpretes são hoje raros e o público limitado; não se encontrou uma personalidade suficientemente forte para propor uma estética capaz de se substituir ao wagnerismo. O fato é que, qualquer que seja a importância histórica da renovação de que Fauré foi promotor, nenhum músico francês desde Berlioz teve o gênio e o esplendor internacional que tiveram Debussy e Ravel. Mas algumas obras são preciosas, aqui a musicalidade de Fauré para o poema de Paul Verlaine - Clair de Lune - o mesmo poema que inspirou Debussy no terceiro e mais famoso movimento da Suite Bergamasque.

Clair de lune, op.46 n°2, Fauré
a soprano, Régine Crespin, o piano de John Wustman e a letra, o poema:
Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques,
Jouant du luth et dansant, et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques!

Tout en chantant sur le mode mineur
L'amour vainqueur et la vie opportune.
Ils n'ont pas l'air de croire à leur bonheur,
Et leur chanson se mêle au clair de lune,

Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver, les oiseaux dans les arbres,
Et sangloter d'extase les jets d'eau,
Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.
...é que ouvir Fauré hoje é revisitar pormenores em quarto-crescente, é sonhar improviso em céu de diamante, é voar sereno sobre estribo de prata.